Saturday, March 18, 2006

ROSA MEL ABELHAS


DAT ROSA MEL APIBUS ...
A Rosa dá o Mel às Abelhas...
As abelhas somos todos nós que, tal como os alquimistas que Robert Fludd evocava, procuramos o centro, mais do que a superfície das coisas.(SUMMUM BONUM, 1629) .
No ROSARIUM PHILOSOPHORUM, antologia de textos alquímicos editados em 1550, encontramos citações de Platão, de Arnaldo de Villanova, de Senior, o Ibn Umail que já referi como autor do Corpus Arabicum, entre muitos outros que se dedicaram aos mistérios desta Arte ou desta Ciencia conforme os pontos de vista.
O autor deste Rosário, que também podia ser um Roseiral, não esconde que lhe agrada a aproximação aos mistérios da Igreja para definir os mistérios da Pedra Filosofal.
O Tratado encerra com uma gravura em que "a vitória da Pedra é representada como a ressurreição de Cristo". A intenção não contém heresia, pelo menos propositada, pelo contrário, procura o clérigo, ou o monge que foi autor ou copista testemunhar da sua fidelidade e devoção sem mácula a uma causa de absoluta entrega espiritual.
A procura do Centro, para um religioso é a procura de Deus.Não é Deus o Centro e a Circumferencia, o Um e o Todo do universo na sua múltipla manifestação? O místico é o que sente, quando se entrega a Deus na noite escura da alma (como S.João da Cruz). O alquimista é o que sente quando se entrega no seu laboratório à nigredo que não só contempla na "materia confusa" como vive na ansiedade da sua própria alma, tendo a noção de que é mesmo da sua alma que se trata e não de qualquer outra coisa, preciosa, eventualmente, mas exterior. Os que buscaram o ouro morreram sofrendo, sem ele. Os que buscaram a pura luz da consciencia atingiram a perfeição, ou ficaram a caminho dela.

Herberto Helder em ÚLTIMA CIÊNCIA (1988) anuncia a sua arte da roseira, a travessia que o afunda no real da palavra como o adepto se afunda no real da "imaginação verdadeira".

" Pratiquei a minha arte de roseira: a fria
inclinação das rosas contra os dedos
iluminava em baixo
as palavras.
Abri-as até dentro onde era negro o coração
nas cápsulas. Das rosas fundas, da fundura nas palavras.
Transfigurei-as.
....
-Uma frase, uma ferida, uma vida selada "

2 comments:

maria said...

Ando aqui em "dívida" com umas palavras...
As túlipas vão abrindo devagarinho, na minha varanda virada para a rua poluída. Fiz uma sementeira de flores várias, que teoricamente germinarão dentro de uns dias, que depois poderei transplantar para onde quiser. Há uns anos fazia isso nos jardins públicos bairro onde vivia. Ainda por lá moram, um castanheiro da índia, um pinheiro que cresce timido e umas árvores de fruto que não vingam nem morrem. Das flores já pouco resta, os jardineiros da CML tratam de plantar e replantar.
Se as minhas sementes germinarem, vou criar um vasinho de cravos da china, especialmente odorosos ... se ainda não foram geneticamente modificados, e oferecer-lhe quanto tiver nobre porte. Fica a promessa.
Queria dizer-lhe da voz que se ouve depois da semente que se lança. E do bem que sabe! Mas hoje só me apetece mesmo falar de flores. E em vez do abraço, deixo-lhe um beijo mesmo, com mel, rosas, abelhas e cheirinho a cravos da china.
maria

Yvette Centeno said...

No Jardim de Reguengos (dedicado à Maria) :

Já pesam as romãs semi-abertas
nas romãzeiras molhadas

Cairam as chuvas da tarde
aguardam-se os beijos fatais
que só os Anjos concedem

Bagos vermelhos
em bocas apetecidas

Jardins de Inverno
onde se perdem as vozes
onde se abrem feridas

Onde secretamente
mais árvores são plantadas