Saturday, March 25, 2006

MAIS AURORA


Tivemos ocasião de ver, na Aurora Consurgens, como a Aurora nos aparece como um cântico de vida.Surge ligada às melhores transformações do Ser, tanto espirituais como físicas, por exemplo no Conto da Serpente Verde de Goethe , em que tudo e todos tendem para a luz , símbolo de perfeição e de acabamento. O mesmo se verifica no Fausto II,quando no quarto acto Fausto contempla a massa de nuvens que o tinha transportado para o Oriente, adiando o temível momento do castigo final.Essas nuvens transformam~se numa figura feminina, evocando o seu primeiro amor, o amor da "aurora" da sua juventude, Gretchen, de uma beleza cujo esplendor ultrapassa "o esplendor de todos os tesouros" (v.10063) .
Esta forma, esta Anima, faz com que Fausto renasça para os valores do Espírito, como força libertadora que é.Um alquimista diria que nesse momento de rara sublimação Espirito e Alma estariam a redimir o corpo do herói permitindo-lhe, tempos adiante, o último e definitivo encontro com o Eterno Feminino desejado.
Fausto exclama que essa forma da Aurora redentora o eleva para o éter " levando consigo o melhor da sua alma" (v.10066).
Mas a Aurora é um símbolo ambíguo, como convém aos símbolos. Pode ser negra, a sua luz pode causar horror sem fim. Baudelaire e Rimbaud , antes de Celan, foram os poetas que talvez melhor tenham expresso a dor da luz, o sofrimento que a consciencia de ser arrastava consigo, em vez de os devolver a uma alegria inefável e duradoura.
"Les aubes sont navrantes", escreve Rimbaud no BATEAU IVRE.E ainda: "Toute lune est atroce et tout soleil amer". Rimbaud, alquimista a seu modo, não reconhece a Conjunção do sol e da lua representada nos tratados.O "Corpo Imenso " da deusa, que ele descobre e abraça é como uma Grande Mãe a que ele não deseja prestar culto, pois um tal corpo o aterra e deixaria desfeito (AUBE, in ILLUMINATIONS).
De Baudelaire já se tinha herdado a aurora branca e vermelha " blanche et vermeille" dos debochados, em l'AUBE SPIRITUELLE.
Esta auroras são abismais, não conduzem, como as de Goethe, não purificam, não redimem.Dão conta do homem moderno "Ser lúcido e puro", nas palavras de Baudelaire, puro apenas porque é lúcido.
"Aube,fille des larmes" aurora, filha das lágrimas, escreve também Y.Bonnefoy num dos seus poemas.
E lembro agora Michel Leiris com um fragmento da sua AURORA ( Paris, 1973 ), onde ele se esforçou por dizer tudo:

Le spleen,
la satieté,
le guignon,
l'échec,
l'insuffisance,
le malheur,
l'adversité,
le désespoir,
la détresse,
la lacheté,
l'ennui,
la peur,
la tristesse,
la terreur,
le degôut,
la douleur,
....
la fatigue,
l'épuisement,
la honte,
la crainte,
....
la défaite,
l'abdication,
la ruine,
la perdition,
la chute,
la décheance
....

3 comments:

Fokas said...

Aurora como Inês é também nome de princesa, de voz diferente, que nos acorda, quando um dia de novo começa e que parecendo igual aos outros não o é!
Assim como pensava o Nuno Júdice..."o que faz a mudança no mundo e das coisas não é o mundo nem as coisas: somos nós,e a relação que nos prende um ao outro-isso que, não sendo nada de fora de nós, é tudo o que temos nesta vida." Acordar in Pedro, lembrando Inês

Fokas said...

Mas claro que tb entendo as suas auroras boreais onde até a noite nos tiraram!

Yvette Centeno said...

Encontro, ao reler por acaso, é muitas vezes assim que releio os poetas, mais uma aurora OUTRA AURORA do amigo brasileiro Donizete Galvão no seu último livro, MUNDO MUDO.
Aqui deixo o poema, para que o mundo não emudeça enquanto tanto se fala de comunicação. Saravá!

OUTRA AURORA

"Virá
virá a aurora.

Não mais para mim.

O sereno se condensa
em gotas de água.
O besouro inicia
a lenta travessia do canteiro.
Alguém côa o primeiro café.

Toda crispação do corpo chega ao fim.

Virá,
virá a aurora.

Não mais para mim. "