Friday, March 03, 2006

A Casa

A casa , como o templo ou a cidade, pode simbolizar o centro do mundo, o coração do universo.Pode ser quadrada, como a casa chinesa, ou a árabe, sendo que nesta o verdadeiro centro é um pátio interior, com um jardim ou uma fonte que evocam o paraíso primordial.
Também nos textos budistas e taoistas, o corpo humano e a casa surgem identificados, como centros subtis da vida e da criação.Na roda da vida tibetana o corpo é figurado por uma casa de seis janelas .
Segundo Gaston Bachelard, o autor que mais deve ser lido para o conjunto do imaginário do fogo, da terra e do ar, a casa representa o ser interior; os andares, a cave, o sótão, serão os vários estados de alma. A cave é o inconsciente, com a sua carga de nigredo, de negro de alma , própria do fim ou do recomeço, pois sabemos que cada étapa final permite e indica um recomeço, na obra do alquimista. O sótão pode representar um momento de sublimação espiritual.
Mas a casa é mais ainda:é um símbolo do feminino, um espaço fechado de protecção, como um útero,ou o colo materno para a criança pequena. É o refúgio ansiado.
Dentro da casa e conforme as várias situações podemos ler/ver diferentes graus de evolução espiritual; a cozinha é alquímica por excelência, ali se prepara o alimento, ali se cozinha (se transforma) a matéria da obra que é precisamente a alma humana.

O que é a casa / prisão?/O que é a casa / refúgio? / O que é a casa/ razão / ou subterfúgio ? In PERTO DA TERRA (1984)


Q'une place soit faite à celui qui approche,/Personnage ayant froid et privé de maison ./Personnage tenté par le bruit d'une lampe,/ Par le seuil éclairé d'une seule maison./ Et s'l reste recru d'angoisse et de fatigue,/ Q'on redise pour lui les mots de guérison./ Que faut-il à ce coeur qui n'était que silence,/ Sinon des mots qui soient le signe et l'oraison ,/ Et comme un peu de feu soudain la nuit,/ Et la table entrevue d'une pauvre maison ? " Yves Bonnefoy, in VRAI LIEU .

5 comments:

maria said...

Cara Professora, andava há uns dias com vontade de "espreitar" esta janela, e porque entendo que ela está aberta, ...entrar mesmo CASA adentro.
Hoje foi o dia em que, com mais ou menos caos (des)ordeiro, consegui um bocadinho para o fazer.
Li com atenção os ensaios que flutuam neste cantinho "Simbologia e Alquimia".
Como não sou o Cardoso Pires, arrisco o comentário antes de ler menos ou mais de 2 vezes. É que este vem a propósito e também em jeito de cumprimento.

Curiosamente, fui hoje àquela que sei que é a sua faculdade, ao lançamento de um livro sobre a "CASA". Chama-se o "Leito e as margens" e é um estudo sobre a casa feito pelo olhar da antropologia, ciência de que quase só conheço o nome. Vou lê-lo assim que conseguir, porque me fascinou a mensagem que retirei do primeiro contacto com o conteúdo do livro, mesmo ainda antes do lançamento oficial.
E, também hoje, li e gostei das suas palavras e das ideias que transmitem sobre "A CASA". De repente, vi-me no meio deste CASAmento.

Como nunca tinha pensada na casa como mote para tão grandes estudos e reflexões, estou fascinada por um lado com a ideia da “CASA” e por outro com esta espécie de "inconsciente colectivo" ou “alquimia” ou coincidência ou o que quer que seja.
Desculpe se lhe invadi a casa, ainda por cima, entrando assim de rompante pela janela, mas em boa verdade já me tinham dado a morada.
É que ontem afinal, cheguei mais cedo A CASA e ainda não me tinham feito o jantar.
Um sorriso e boa noite.
maria (Elsa Viegas)

Yvette Centeno said...

Querida Maria, em breve mais um pouco sobre a casa, sobre a vinha e o vinho...

Yvette Centeno said...

Para marido intelectual e distraído um castigo exemplar: ler de seguida a obra de Lévi Strauss Le Cru et le Cuit ( O cru e o cozido enquanto mexe e remexe a panela da sopa ! )

Fokas said...

Cara Prof.,
O seu comentário sobre a casa e a comida( neste caso o vinho... este é o meu sangue...)deixou-me também a pensar que o tema ainda não está esgotado nem suficiente trabalhado pelas ciências sociais.
Como sou um apaixonado pela casa por oposição à rua, sobre o castigo da panela, aceito a sua sugestão...de ler o cru e o cozido!
Comer é uma acto que na língua portuguesa tem tantos significados como sabores! De facto, o cru e o cozido, o alimento e a comida ( que não são a mesma coisa), o doce e o salgado ajudam a classificar as coisas, as pessoas e até alguns dos actos importantes do nosso quotidiano. Assim como a comida permite realizar uma importante mediação entre a cabeça e a barriga, entre o corpo e a alma, permite também ligar outros códigos desde o gustativo, o de odores, o visual ou o digestivo. Comer é como explicava um amigo que se dedica ao assunto, uma operação completa dos 5 sentidos!

Outro sentido muito geral e isso tem a ver com influências de muitos anos de contacto com mulheres e com a violência, é que para além de figuras mitológicas, como são as nossas avós, também elas sempre utilizaram as várias artes da culinária para conseguir uma posição social importante. Segredos que permitem a inversão do mundo, fazendo que a cabeça por vezes seja trocada pelo estômago e pelo sexo!
Além disso nem ofende ninguém ter água na boca depois de uma palestra sobre culinária. Desde que se deixes apanhar com a boca na botija e não fale de boca pra fora, comer como um abade, do bom e do melhor nunca fez mal a ninguém!

Aquelo abraço
Fokas(Zé Viegas)

Yvette Centeno said...

Confesso que ainda hoje tenho saudades de um tempo que passei na Universidade de Colónia, a dar um seminário sobre o Messianismo em Portugal ( Vieira e Pessoa ), a traduzir Celan no tempo livre, que era bastante, e a preparar para os alemães abismados um gigantesco tacho de meia desfeita de bacalhau com grão, e genuíno azeite português que um dos alunos comprou em mercearia de coisas portuguesas. Um sucesso, regado com muito vinho tinto, para os fazer variar da cerveja barbaro-germanica.Um dos jovens que então me ajudou era de origem portuguesa, do Porto, ainda por cima, agora é doutorado e Prof. nesse departamento , dirigindo o Centro de Estudos Luso-Brasileiros da Uni. de Colónia.Aí está uma boa ideia quando vocês desejarem, por que não, trocar o Brasil pelo frio caloroso da malta da Alemanha? O nome dele é Sebastião Iken., e é claro como as refeições partilhadas "unem", julgo que posso considerá-lo amigo.