Saturday, April 14, 2018

Teresa Balté e Leonor Beltrán

 Duas exposições, dois caminhos:
Teresa Balté na Perve Galeria,
Leonor Beltrán na Casa da América Latina
 Inauguradas quase em simultâneo, a primeira no dia 12 de Abril, a segunda no dia 13, tão diferentes e no fundo tão complementares.
Falemos primeiro de Teresa: expõe as suas aguarelas e técnicas mistas, obras que o curador Carlos Cabral Nunes foi redescobrir, datadas dos anos sessenta, na sua maioria, com as marcas de época de um surrealismo colorido, expressionista quase, e lírico, sempre, que o pintor Cruzeiro Seixas tinha em seu poder e gentilmente disponibilizou para esta grande antológica numa galeria que é mágica, são espaços de uma Alfama arcaica iluminada pela luz e pelo brilho da Arte, respirando por ali em liberdade.
Diz a pintora, num breve texto de 1992, a respeito destas pinturas agora de novo exibidas, com o título de PINTAR AS COISAS:

“ Restaurar as ilusões, soltando a perspectiva ou conjugando água e fogo, tinta e nervo. Exercitar a imaginação elástica. Desaguar na enseada dos símbolos. Depois cortar a corda apodrecida e naufragar o papel nos mares da China. Recriar então o caos (...) colar noutros espaços os lugares. Olhar pelo golpe entre as pálpebras ou pelas cicatrizes que corrompem o tronco do homem e da árvore, a folha-pluma-alma...até à náusea.
Gritar de novo. Já não cantar de manso. Porque a boca secou e o discurso é artificial e artificioso. Descolar então. Voar sem rumo. Pelos labirintos da vertigem. Pelo absurdo de não haver absurdo. Pela refluxa nostalgia do abscôndito. Descolar ligeiramente as retinas”.
Sendo esta pintora também uma poeta de obra já longa, e meditada, é às suas palavras que entendi entregar a reflexão sobre o que ali, entre formas e rostos, e um certo e expressivo bestiário animal, expondo  curvas de serpentes,  asas de borboletas, agudas cabeças de pássaro, que surgem do nada prontos, quem sabe, a devorar um rosto já de olhos fechados, baleias humanizadas e expectantes, prontas a receber a chama já sem luz de um Ícaro cadente, nas palavras que cito e que alguns belos poemas inéditos pontuam, encontro afinal um dos caminhos: o que se encontra lá fora, que é feito de tudo um pouco, do mais banal episódio ao mais profundo segredo. Nascem monstros da treva, do negro da sua alma (nigredo dos alquimistas, marca da mutação) mas nas mãos de Teresa irão sofrer muitas transformações, cobre-os de luz e côr, retira-lhes a máscara que os cobre, e tudo nestes quadros de repente explode e dá-se à nossa frente um novo nascimento, o de um cosmos ao mesmo tempo caos mas que alguma divindade por dentro iluminou.


Bem diferente é o caminho percorrido por Leonor Beltrán, pintora também ela já de longo percurso, não é o PINTAR DAS COISAS que ela expõe, mas sim o pintar da alma: não das coisas, podia ser, as coisas têm alma, cada uma a seu modo, como as plantas ou os animais.
Não. O que ali, finamente desenhado a tinta da China, com lápis ou pincel, é um conjunto de meditações todas elas viradas para dentro, um mundo esférico, por vezes inacabado, como se de uma renda abandonada a meio se tratasse, um mundo circular que se procura perfeito, seja a partir de um ponto que foi ponto inicial, no dizer de um Nicolau de Cusa, ou resultante de um movimento que se desejou completo, Todo e Uno, mandálico no sentido mais junguiano do termo.
Leonor chamou MOVIMENTO 2  ao seu conjunto, que também ele, como o de Teresa Balté reúne em antologia vários anos, desde os anos sessenta (o que há de tão surpreendente ainda hoje, nesta década de tanta escrita livre, onírica, libertária, e ao mesmo tempo de tanta análise profunda dos cantos mais recônditos da alma? Breton e os surrealistas já se tinham apropriado do imaginário da noite, mas Jung ainda discutia com Freud a existência de arquétipos e de um inconsciente colectivo).
Já por aqui se nota a primeira diferença do olhar destas pintoras e dos seus dois caminhos, ambos tão sedutores:
Teresa pinta as coisas, está certamente mais perto de Freud, naqueles anos em que pinta. Leonor mais perto de Jung, ainda que talvez não saiba. O seu movimento é o da busca do sentido das finas teias da alma. É assim que da pincelada cheia, evocando Michaux, numa primeira série de quadros que podiam ter saído de LA NUIT REMUE, a noite em que tudo se mexe, de onde tudo se escapa em busca de luz melhor, caminhamos com ela para outras séries em que o finíssimo ponto é de bordado, de aranha ou de tecedeira, das que desenham a alma com o sopro da vida ou com  tesoura infame a interrompem de súbito e sem perdão.
Flutuamos nessas teias, num movimento que suspende, não embala, interpela, não responde. Há por vezes uma construção geométrica, elaborada, que se afunda no coração mandálico da teia e penso : Escher passou por aqui. Mas Escher seria ainda um outro caso à parte: jogos de espelhos, de ocultação e desafio de elaboração complexa, geométrica, matemática. Ainda que escondendo, como na alquimia, aquela fusão andrógina, platónica, dos rostos dos amantes. Com Escher, que alguma pintura de Leonor me faz aqui recordar, regresso à harmonia pitagórica de uma matemática secreta, primordial. Mas Leonor vai mais longe: despoja-se dos jogos que seriam para ela, quem sabe, uma fácil tentação. E entrega-se ao seu labor de formiga, de trabalho e entrega humilde, pondo de parte toda e qualquer ostentação de cigarra. Depura-se, em cada forma, quando vai chegando ao fim do que ela própria não saberia ainda revelar.
Porque na alma tudo se esconde, nada se revela, enquanto não se atinge o que é seu ponto vital. Um ponto de muitos pontos, caminhos e movimentos de muitos desvios feitos e refeitos e novamente desfeitos...Ali ficamos presos, no Uno da forma, que se ampliou num centro que é vital ou na sua interrupção.
Que significa o 2, na escolha do título? (Para mim todo  o título é já indicação).
Que ali se retomou o célebre Axioma de Maria, de que Jung (ele mais uma vez) tanto gostou, e tanto o estudou nos alquimistas e nos grandes criadores, como Goethe, no Fausto.
É em Psycholgie und Alchemie (1944), que Jung apresenta o que chama de “um dos axiomas centrais da alquimia” a afirmação de Maria Profetisa:
 “O Um torna-se Dois, o Dois torna-se Três, e do Terceiro se forma o Uno como Quarto” (p. 41). Afastando-se dos estudos puramente da doutrina química, científica, dos autores do seu tempo, procura Jung, como diz, trazer à luz a problemática histórico-religiosa e psicológica dos temas ligados à alquimia. Considera a alquimia como uma espécie de sub-corrente, ou corrente oculta da superfície dominante da cristandade. É vista por ele como um sonho em face da consciência, compensando, como os sonhos fazem, as lacunas, os conflitos, que na consciência se debatem.
O número dois significa precisamente a Mulher, a Terra, o subterrâneo (oculto) A Lua, o Mal, inclusivamente. Basta recordar que Eva é o número 2 de Adão...e é culpada de ceder à tentação da serpente, que provocará a Queda e  expulsão do Jardim do Éden.
Por outras palavras, encerra perigo este número, que por outro lado é o que permite a criação do par primordial, e gerado por ele, da espécie humana. Maria Profetisa, também denominada a Judia, ou a Copta, irmã de Moisés, -na tradição alquímica- é por vezes aproximada da Maria que conhecemos dos textos gnósticos do início dos séculos II-III.Pareço estar a desviar-mse do ponto da minha reflexão, e da obra de Leonor, mas não estou. Chego então ao mais importante: Maria Profetisa sublinha muitas vezes o seguinte:
“ Todo o segredo (entenda-se, da Obra alquímica)  reside no conhecimento do que é o vaso hermético. O Uno é o vaso (Unum est vas). Por isso tem de ser redondo, para que imite o cosmos esférico. É uma espécie de matrix, de útero, do qual o filius philosophorum, a Pedra maravilhosa, poderá nascer. Daí que por vezes também se refira a forma de ovo deste vaso. Mas Jung acrescenta que é preciso ter em atenção que estamos perante símbolos, que este vaso uno exprime uma ideia mítica, mística,como todos os símbolos alquímicos (p.327).
Se perante alguns dos quadros de Leonor Beltrán de imediato nos sentimos próximos de um Mandala, ou de uma experiência próxima desse exercício de meditação de que Jung, inspirado na mística oriental, se serviu para recuperar a sua alma de uma depressão que lhe devorava a vida, é porque há neles essa energia contaminante e manifesta. Leonor expõe movimento e caminho (Jung só depois da sua morte autorizou a divulgação do célebre Livro Vermelho), com uma generosidade que a engrandece, e à sua obra.
Saudemos pois, em percursos tão diversos, um imaginário que se completa, na sua diferença: Seja para a contemplação do que nos é (aparentemente apenas) exterior, ou do que nos é interior (mas em necessária e vital revelação).
Em resumo, saudemos os criadores, na sua criação.  




Sunday, April 08, 2018

Remo F. Roth HOLY WEDDING,Pari Publishing, 2017

O sub-título da obra indica a inclusão da Sincronicidade (conceito que Jung definiu) e dos princípios herméticos na visão do mundo do século XXI. É último volume de uma trilogia, Return of the World Soul I, e Return of the World Soul II. Neste terceiro volume o autor debruça-se sobre os limites da consciência humana contemporânea, estudando o conceito e a doutrina  junguiana do Casamento Sagrado (encontramos por vezes outros termos, como Casamento Químico, recuperando as célebres Bodas Químicas de Johann Valentin Andreae, um texto fundador do rosicrucismo alquímico na Alemanha).
Em que consiste este Casamento Sagrado)? Dito de modo simples, na união  da psique com a matéria, ou do espiritual e do material na própria psique, pois é nela que essa união, essa fusão de opostos se verifica.
Roth refere que é nesta união de pensamento e emoção, logos e eros, espírito e matéria, que se desenvolve a psique, na espécie humana, e mais até, se propicia a sua sobrevivência. 
A nossa psique, entenda-se a nossa mente (mind), tem uma estrutura bipolar, dinâmica, e o que o autor nos propõe é a aventura de explorar, navegando em ambas, uma união alquímica, que lhe serve de modelo para uma vivência exemplar e adequada ao século XXI.
Este é um autor, de formação junguiana, discípulo de Marie-Louise von Franz, tal como ela o foi de Carl Gustav Jung e a quem ela terá dito: 
" Eu não posso ir além de C.G. Jung, mas você tem de ir".
Nascido em Zurique, em 1943, Roth procura investigar a realidade psicofísica de W. Pauli, ou como Jung definia, o unus mundus tal como o encontramos nas doutrinas do  mundo mágico do Um e do Todo, da alquimia, da filosofia hermética, do taoísmo e da alquimia chinesa, de que Jung, com Richard Wilhelm (o grande tradutor do I Ching e do Tratado da Flôr de Ouro) igualmente se ocupou.
Procura-se, nesta obra, o que se procurou durante séculos: a recuperação de uma Totalidade, de uma Unidade perdida, que faça do ser humano uma criatura completa em si mesma, e nessa Completude integrada no  Todo que é o Universo (ou o Deus que o criou).
Que neste momento, já falecido Stephen Hawking, mas sem que se tenha esgotado o seu sonho de encontrar a fórmula do Todo que explicasse o Universo, não deixa de ser interessante, posso mesmo dizer importante, que um psicólogo das profundidades, junguiano, deseje ir ao encontro do Físico que é Pauli, para sonhar com um modelo que faça avançar um novo pensamento para o século, uma nova doutrina, um novo modelo, ainda não de suporte matemático, mas de suporte puramente feito de energia emocional.
Não admira que Roth seja hoje em dia considerado um "abridor " de sonhos, além de terapeuta.
Numa carta de 1953 Jung escrevia a Pauli: 
" O problema da coniunctio tem de ser guardado para o futuro; é mais do que aquilo a que posso entregar-me, e o meu coração reage se me demoro muito tempo nestas áreas. O meu ensaio sobre o Espírito da Psicologia, de 1946, resultou num ataque muito sério de taquicardia, e a sincronicidade provocou o resto". 
O ensaio referido está publicado com o título de On the Nature of the Psyche, na tradução inglesa das obras completas,vol.8.
Podemos sofrer, e mesmo adoecer, como aconteceu a Jung, ao mergulhar no silêncio das trevas que há na alma. Mas também se adoece, ou mesmo morre, se não se procura a voz que está lá dentro.
Essa é a função do psicólogo actual, como era outrora a do filósofo hermético no escuro da sua caverna, ou diante do seu forno alquímico.

Friday, March 16, 2018

O Livro Vermelho de Jung

O título da Obra que vou citar, e de que vou partir de início, é de Stanford L. Drob, READING THE RED BOOK, an interpretative Guide to C. G. Jung's Liber Novus.
A sua edição, de 2012 teve o elogio de toda uma imprensa, da mais erudita à que mais aprecia a divulgação feita com seriedade e qualidade. Basta ler na contracapa os extractos.
Este Liber Novus, de que se aguardava a publicação em 2009, é uma obra enigmática e profunda, que precisa de facto de um guia que conheça a Psicologia das Profundidades e aborde os grandes temas aqui expostos com conhecimento, sem leviandade, superficial ou pior, grosseira de apressada. Muitas vezes é pela pressa de editar - ser o primeiro - que se estraga a aproximação de futuros leitores, estudiosos ou leigos. 
O Livro Vermelho importa tanto à Psicologia como à História das Ideias ( e acrescento também das Religiões). Percorre o labirinto das associações, imagens, temas que se prendem com a filosofia clássica, moderna, post-moderna, alcançando também conceitos como os da mística, ocidental e oriental, a que deu especial atenção. Devolve, como diz alguém, a perspectiva da Alma a um tempo, que vivemos de grande contaminação e degradação pela política, economia, e práticas educacionais ( Professor, Robert D. Romanyshin). 
Do c.v. deste Guia de Leitura de Jung, publicado por DROB, pareceu-me igualmente de destacar a obra Kabbalah and Postmodernism: a dialog and Kabbalisitc Visons: C.G. Jung and Jewish Mysticism. 
Mas voltando ao Liber Novus:
Para Jung os sonhos eram desafios à complacência do ego, corrigindo uma visão parcial da consciência e consequentes atitudes, ou eram mensagens do inconsciente pondo em causa os nosso habituais modos de pensar, de sentir e de viver.
É sobretudo este lado, - do questionamento, da interpelação, do desafio - que sempre me interessou, e me transformou em estudiosa de matérias como as da alquimia e simbolismo das várias doutrinas, desde Zosimo, passando pela Idade Média, até aos tempos modernos, com expressão forte na criação artística, ainda hoje. Pois o que é um poema (ou um quadro, sobretudo com os surrealistas, confessados ou não) senão um sonho ampliado na dimensão do inconsciente, e que a consciência absorve? É James Hillman (neo-junguiano actual) quem confirma esta ideia, de que o sonho, no Livro Vermelho é a exposição de uma doutrina, mais do que um mero sonho individual. Ao mesmo tempo estranho (quase grotesco, de tanta exuberância) diz o autor na Introdução (p.xviii) é preciso que nos afundemos na sua narrativa e nas suas imagens pintadas. E que nos coloquemos também no contexto em que a obra foi escrita, tanto no seu tempo como no conjunto dos escritos de Jung em que eram expostos novos paradigmas de abordagem de uma Psicologia para novos tempos.
Jung avisa para o facto de que não poderá haver uma interpretação definitiva de um sonho, nem uma teoria definitiva sobre a psicologia. As várias teorias existentes no seu tempo exprimiam os "tipos psicológicos" dos seus autores, (a discussão e a zanga com Freud, bem testemunham o exemplo), e portanto apenas transmitiam uma verdade relativizada, parcial. Daí que a principal abordagem que o autor deste guia fez ao Livro, se concentre sobretudo nos grandes temas de Deus, da humanidade, da loucura, do caos, da morte, da ciência, da Razão, do conhecimento, da linguagem, da lógica e do mal.
Escrevi, noutro post sobre Dizer o Mal, ainda sem ter lido este Livro Vermelho, que só agora tenho em mão, e que começo por uma iniciação mais esclarecedora, antes de me debruçar sobre o seu mistério, que envolve texto e imagem (os Mandalas).
Concordo que estarei perante uma obra mais ligada à História das Ideias, do Pensamento Humano, do que à ciência da psicologia. E não me admira que por isso mesmo haja uma estrutura arquetípica nela, fundadora, criadora, inspiradora, como tem sido, para muitos de nós.
Lendo os sonhos, minuciosamente descritos, caminhamos com Jung no seu processo de individuação, uma viagem íntima, feita de espiritualidade, que inclui, das múltiplas culturas, religiões e civilizações do mundo, tradições como as do Cristianismo, do Gnosticismo, da Kabbalah, do Taoísmo e da Alquimia antiga. Tanto fio de pensamento para ir seguindo...
Importante, mais do que meditar os textos, será a meditação das imagens. O que nelas se exprime é uma narrativa do imaginário indizível, o que fica muito aquém ou muito para além do dizer das palavras. Entramos no secreto mundo de mitos e arquétipos, que assim recuperados se apropriam da substância mais funda da nossa psique, das emoções e sentimentos que deste modo se materializam, se revelam. Faltará entender.  Para Jung, esta sua obra, concebida ao modo dos manuscritos medievais religiosos, é um todo, religioso na forma e no conteúdo. A edição facsimile, enorme, impede que desde logo nos prendamos à leitura. Contudo é imperioso ler, voltar a ler, estudar e meditar.
Daí a importância deste guia de leitura deste Reader que o Prof. Drob generosamente preparou para o presente e para o futuro de todos os estudiosos.
Retoma a célebre legenda do MUTUS LIBER: Ora, Lege, Lege, Lege, Relege, Labora et 
Invenies.
 Reza, Lê, Lê, Lê, Relê, Trabalha e Descobres.
E finalmente, como aconteceu, julgamos, com Jung e as sua míticas imagens: Oculatus Abis, Partes Munido de Olhos.
Ou, simplificando: adquiriste a clarividência que buscavas. 
Quem sabe se por uma sincronicidade, mais do que por um acaso feliz, destes que existem, o Facebook, nem sempre recomendável, tem trazido aos seus leitores frases soltas de Clarice Lispector, e entre elas uma que se refere ao silêncio e solidão de uma tarde feliz em que ela sente que houve um "encontro do eu com o eu". Momento raro, sem dúvida. E ocorre-me, a este propósito, citar Jung, na sua exposição sempre tão clara do que é a busca de um encontro assim, que só no silêncio e na solidão da alma se poderia dar. Diz ele  que para encontrar o caminho da alma é preciso afastar-se dos homens e das coisas, e identificar-se completamente com os seus pensamentos, para depois lhe ser possível (em movimento inverso ) desligar-se deles. Deste modo se faz da alma virtualmente um deserto, e focado nesse vazio, se permite que nasça na alma um "fruto maravilhoso". O fruto é o do imaginário criativo, o dos símbolos vividos na plenitude de uma psique liberta dos constrangimentos que lhe eram alheios. (Livro Vermelho, cap. IV, O Deserto). O encontro do eu com o eu de que falou Clarice.

                                        

Wednesday, January 31, 2018

Manuel Aires Mateus vs. Antoni Gaudí e um Quarteto de cordas pelo meio

I
O título do post não explica tudo.
Porquê e de onde me vem esta ideia de contrapôr Gaudí a Manuel Mateus? 
Quando em Barcelona visitei a catedral da Sagrada Família e outras casas de Gaudí fiquei impressionada, por um lado, com a intenção modernista, mas por outro, com a relação expressamente procurada com a natureza e a religião, ou melhor, uma experiência mística que de algum modo o seu neo-gótico excessivo, barroco de tão intencionalmente trabalhado, pudesse proporcionar.
Não sei como reagiram outros: eu distraí-me com o apelo da forma, com o apelo da côr, com uma obra (e o mesmo senti nas outras) que não libertava o espaço, (como o gótico despojado dos séculos passados, o nú do românico de pedra mais humilde) mas antes o capturava nas curvas envolventes.
A mim, fazia-me falta o que encontrei nas obras de Manuel Mateus: a linha que liberta, a luz branca que tudo contém e por isso de mais nada precisa, (como na albedo dos alquimistas gregos) e ocorreu-me que se podiam contrapôr as curvas de Gaudí às rectas de Mateus, sendo que estas sim, permitiam uma leitura infinita.
São infinitas as linhas rectas, deixam um espaço que livremente respira, são fechadas as curvas que afinal nas suas dobras esconsas ainda que coloridas, não permitem que se avance.
Como falar então de espiritualidade?
Num dos artistas o esbanjamento da imaginação (com o acumular das imagens), no outro o despojamento da ideia condutora e da imagem-força que lhe induz.
Num, o permanente excesso, no outro a subtil contenção que permite que a luz entre, na sua linha infinita. Apela, deste modo, a uma mesma mística, quem sabe mais e melhor vivida, porque não permite olhares mais distraídos?
Um arquitecto é um criador que refaz o mundo à sua volta.
Contempla, imagina, desenha, projecta. Num universo em expansão é natural que a obra  reflicta, ou mesmo busque, esse espaço infinito. 
E serve-o melhor que a linha curva, a linha recta. E que um espaço fechado, um espaço aberto.
Rasgado, mesmo que, por vezes, como Gaudí, o erga para o céu.
Agora surge a pergunta: porquê falar em alquimia?
Porque no caso de Gaudí, a estrutura do seu imaginário apontava para a fase da cauda pavonis, a colorida "cauda de pavão" significando, no trabalho dos adeptos, o momento em que a materia prima se desmultiplicava numa feérica abundância de cores, que mais tarde seriam sublimadas na albedo, a côr branca, indicadora da perfeição a alcançar. Aqui entraria um outro imaginário, o de Manuel Mateus, dos brancos espaços infinitos.
II
Associação de ideias, de que Breton tanto gostava, foi em parte o que me aconteceu: ouvir a intervenção de Manuel Aires Mateus na RTP 2, no programa de Anabela Mota Ribeiro ( o segundo já da nova série, que recomendo) levando, como ela pede, uma ou duas sugestões que se prendessem de algum modo com os seus interesses e sua inspiração, sendo ele um arquitecto de mérito nacional e internacional, mais do que reconhecido. E ele, com a maior simplicidade levou um romance, o romance de Tommaso di Lampedusa, o Príncipe da Sicília que nessa obra magistral que é O Leopardo, retrata um tempo, o da grande mudança "para que tudo ficasse na mesma", como lhe diz o sobrinho que será seu herdeiro. Esse tempo, que o autor retrata, de ascensão de uma nova classe, burguesa, boçal, como se vê no filme que o livro inspira, ao mesmo tempo o desgosta e lhe dá uma sabedoria que é só própria de quem sabe olhar e ver ao longe, na distância, o que nas civilizações foi sempre marca distintiva : a mudança, a dada altura a imperiosa mudança. Chama-se evolução.
Daqui partimos para a mudança de épocas, de gostos, de prioridades, de estilos. Assim se faz a evolução das sociedades, e assim se fez, na nossa sociedade ocidental, também na arquitectura, com os seus criadores. A palavra chave, na intervenção de Manuel Mateus, como nas longas reflexões de Lampedusa foi, por um lado o tempo, mas por outro e talvez mais sublinhada, como se poderia no espaço (Lampedusa falava de casas, não gostava de dizer palácios, enquanto com o caseiro contemplava a infinita paisagem dos seus campos...) capturar o tempo: o antigo, o actual, o do futuro.
Gaudí (não me esqueci dele) procurava o futuro na convulsão reiterada de um passado arquitectónico que seria irrepetível, como foi. Não dava espaço, não deixava respirar, concebido para que se admirasse e se continuasse adiante, em busca de outra coisa. Essa outra cosia não estava lá, surgiria mais tarde, num adiantado século XX em que a relação entre artes se tornava marcante, buscada e praticada, e também, como Manuel explicou, na arquitectura, depurada e liberta, já num espaço infinito.
Falei em coincidências e aqui está a outra, a que me quero referir, e fez para mim, o pleno da semana:
a apresentação, no Festival de Quartetos de Cordas da Gulbenkian, do Memorável Jack Quartet, que (eu ia dizer me deslumbrou) me deixou pregada à cadeira onde há já uns anos eu não me sentava, naquela sala de concertos. Tocaram, de Andreia Pinto Correia, uma peça intitulada Unvanquished Space (dedicada, nas suas quatro partes, a cada um dos membros do Quarteto, seus amigos de longa data).
Partiu, como contou na conversa prévia com o público, de um texto literário de autor americano conhecido, em que prevalecia um olhar sobre a sociedade e os seus modos, presenças e ausências, de que não falarei aqui, para não me perder. O interessante é de novo esta relação, neste caso da música, com a criação literária, seu tempo próprio e sobretudo seu espaço: algo invencível.
Traz um conceito que merece muita reflexão: na era em que o espaço cada vez mais se abre, e se procura, num limite infinito, ( com a ajuda também, sem dúvida, das novas descobertas trazidas por astrofísicos e outros sábios que se ocupam do espaço ) este conceito de um espaço invencível: mas que interpela os criadores, os desafia, e aguarda as novas soluções que nos venham propôr...Neste espaço invencível Andreia introduz "periferias da luz". 
O que me permite recuperar a reflexão de Manuel Mateus, sobre as linhas, puras, o branco, que atrai e devolve a luz, no espaço que se abre às casas.
O mesmo se verifica na peça deAndreia, onde os sons se abrem até, quando preciso, ao ruído, os ecos da ponte de Brooklyn, tão conhecida no mundo, por fim dando lugar ao suave mergulho no silêncio que foi rompido, e tal como nas casas brancas projectadas permite que se caminhe pelo misterioso infinito que nos aguarda lá fora.
Lá fora, onde a inspiração ( a respiração) é livre e consentida.
Já estarei um pouco perdida, nestas locubrações, mas é-me importante agora parar, levada por estes criadores, a novos conceitos, como o de liberdade e infinito.
Somos livres? Ou somos determinados, logo à nascença, como Lampedusa tenta dizer a um sobrinho que já viajou, já limpou a cabeça de preconceitos e a quem o novo modelo social (ainda que injusto, não assusta? ).
E que limites, na sociedade e na arte ainda se nos impõem? Com que linhas, que sons, que casas, podemos ainda sonhar?
Os infinitos lugares da nossa infância, do nosso crescimento, do nosso amadurecimento.
Onde fica a alquimia, de que parece que me fui perdendo? Nos quatro andamentos da peça de Andreia, que se completam:
Um labirinto submerso - nigredo
Os cantos reluzentes de um espaço por conquistar - cauda pavonis
Periferias da luz - albedo
Para dentro do silêncio- rubedo
Confuso? 
A explicação noutra altura, noutro lugar... 





Wednesday, January 10, 2018

Deus, Adão e as suas Evas

Les Mythes Hébreux, de Robert Graves e Raphael Patai (Fayard, 1987) são um cuidadoso levantamento de várias fontes, de mitos e símbolos que estão na origem das várias civilizações do médio-oriente e tomaram forma mais definida no Antigo Testamento como o conhecemos hoje em dia. No post anterior falei de Lilith, a grande-mãe, primeira mulher de Adão, que a repudiou. Deus fez então mais algumas tentativas. Mas comecemos pela criação de Adão, visto que Eva foi criada em especial para ele, para lhe agradar, ao contrário do que sucedera com Innanna. Passo a descrever:"Ao sexto dia, por ordem de Deus, a terra pariu Adão. O fogo, a água, o ar e as trevas, - todos estes elementos se combinaram nas entranhas da terra para produzir os seres vivos que foram surgindo ao longo do terceiro dia, do quinto e do sexto, em que junto com o homem foram criados os animais terrestres e os répteis. "Deus não usou uma terra qualquer, mas escolheu um pó de grande pureza, para que o homem pudesse ser a coroação da Criação. Agiu verdadeiramente como uma mulher que mistura a farinha com a água, e de uma parte da massa criou o homem, que se tornou a primeira das oferendas do mundo". Há outras versões, sobre o local e o tipo de terra que foi usado por Deus, na criação do homem. O nome Adão derivaria da argila vermelha de que foi feito, segundo alguns, segundo outros o nome significa Homem porque a matéria de que foi feito é do Monte sagrado no qual Abraão mais tarde se dispôs a sacrificar o seu filho Isaac, estabelecendo assim um elo sagrado com a humanidade inteira. Outra versão: Deus terá utilizado duas espécies de pó para a criação de Adão: uma do monte Moriah ( o monte sagrado, umbigo do mundo), e a outra uma mistura retirada dos quatro cantos do mundo e molhada com água de todos os rios e mares existentes. E para garantir a saúde de Adão usou um pó macho e uma terra fêmea. Ao usar o pó de todos os cantos do mundo Deus garantiu que fosse qual fosse o país em que morressem os descendentes de Adão seriam sempre recolhidos pela terra. Adiante na descrição do processo de criação deste primeiro homem, conta-se que era ele de tal modo grande que quando se deitava cobria a terra de uma ponta a outra; e quando se punha de pé a sua cabeça tocava no trono divino. Era de uma beleza estonteante, de tal modo que a seu lado Eva, ainda que bela, mais parecia um macaco. Contudo Adão, ao pé de Deus,  embora tivesse sido feito à sua imagem, parecia ele mesmo um macaco.Todos os seres vivos que rodeavam Adão julgaram que ele fora o seu criador e lhe prestaram homenagem. Este foi um dos mitos, e uma das primeiras versões do que ia acontecendo no Éden, quando Anjos e animais conviviam com o primeiro homem (Graves, pp.77-79). Não deixa de ser interessante, contudo, verificar que para além dos quatro elementos que o formam é referido um quinto, a treva: uma treva primordial que é também substância do seu corpo moldado. Há logo ali um indicação do negro da alma, uma imperfeição que se revelará depois como uma quase maldição imposta ao ser humano. Segue-se então a série de companheiras com  que este Adão foi sendo confrontado, a seu pedido. Para que Adão não fosse o único dos seres criados a não ter uma companheira Deus mergulhou-o num sono profundo, tirou-lhe uma costela a que deu forma de mulher e fechou a ferida. Adão acordou e disse: esta criatura será chamada "mulher" porque foi extraída do homem. Homem e mulher serão uma única carne. Eva significa "Mãe de todos os vivos". Em algumas versões diz-se que Adão pediu a Deus que lhe desse uma companheira depois de ver que todos os seres tinham um par, de ter tentado unir-se às fêmeas que passavam diante de si, mas sem prazer algum.Deus criou primeiro Lilith, de que já falei noutro post. Aqui criou-a com lama e lixo em vez de terra pura. Desta união, que seria depois desfeita, nasceram demónios como Asmodeu e outros, que atormentam a humanidade. Lilith acabou expulsa para o que se definiria como região das trevas. Deus fez então uma nova tentativa: "moldou perante Adão o corpo de uma mulher usando ossos, tecidos, músculos, sangue, e secreções glandulares, cobriu o todo de pele, e colocou tufos de pelos em algumas partes. Ao vê-la Adão sentiu um tal nojo que mesmo quando ela se ergueu na sua plena beleza diante dele a repugnância foi invencível. Então Deus percebeu que mais uma vez tinha falhado e levou esta primeira Eva embora. Para onde foi? Ninguém sabe ao certo" (pp.82-83). Deus fez uma terceira tentativa, mas agiu com mais cuidado. À costela que retirou de Adão, adormecido, deu a forma de uma mulher. Fez-lhe umas tranças e ornamentou-a, como se fosse uma noiva, com vinte e quatro jóias, antes de acordar Adão. Este ficou deslumbrado. Noutras versões diz-se que ao princípio Deus tinha pensado em criar dois seres humanos, macho e fêmea;  mas acabou por desenhar um único,  rosto masculino virado para a frente, e um rosto feminino virado para trás. Depois mudou de ideias tirou o rosto que olhava para trás e fez para este último um corpo de mulher. E há mais: há versões em que se julga que Adão foi criado como um andrógino, cujos corpos, masculino e feminino, estavam unidos pelas costas:"Visto que esta posição tornava difíceis as deslocações, e não tornava cómoda a conversa, Deus dividiu o andrógino e deu a cada uma das metades umas costas novas. Colocou estes dois seres, separados, no Éden, proibindo-os de copular" (Graves, 83). Deus encheu as suas criaturas adâmicas de proibições. Seriam para ser quebradas e justificar assim o mal da existência? A verdade é que foram quebradas, por incitação de uma serpente que por ali andava, junto delas, com um grande à vontade. Como se fosse um terceiro membro da família...
Gilbert Durand explicava que um mito era "uma narrativa fundadora". Através do mito adivinhava-se um corte, uma mudança civilizacional, antecipando modelos que deixavam de parte os antigos existentes até aí: transições do paganismo politeísta para um monoteísmo de rituais próprios, dedicados a um só Deus, por exemplo; ou abandono do sacrifício humano em prol da imolação de animais como oferendas; ou reflexão sobre a mortalidade do homem, com a Queda de Adão e Eva expulsos de um Éden perfeito, de luz e pedrarias, em que não seria permitido procriar - com a expulsão surge o castigo infligido a Eva de parir em dôr e sofrimento. Deus criador, neste fragmentos antigos, está muito próximo do homem que criou: engana--se, repete as tentativas de acertar com o gosto de Adão ao moldar a mulher, um corpo que o complete e que lhe agrade...e finalmente, ao descansar no sétimo dia, também se engana, pois o seu Éden tinha ab initio, junto com Adão (no sexto dia) criado uma serpente que se tornou íntima companheira, conversando, interferindo com as ordens do criador, e levando por fim a que caíssem na tentação de comer  do fruto da árvore proibida, o que causou a sua expulsão do paraíso. Eva foi a culpada: mulher curiosa, desafiadora, querendo saber mais, quase forçando um Adão mais ingénuo a cometer o pecado. Nestas versões antigas o jardim do Éden é algo de maravilhoso, jardim de luz, árvores cujos frutos são pedrarias, e colocada entre elas a Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal. O primeiro homem depois de Adão a ter entrado vivo no paraíso, segundo outras versões que Graves vai citando, foi Hénoch (p.87). Viu a Árvore da Vida, à sombra da qual Deus muitas vezes descansa. Feita de "ouro e carmim, ultrapassa em beleza todas as outras coisas criadas; frondosa, cobre o jardim inteiro, e há quatro rios- de leite, de mel, de vinho e de azeite- que saem das suas raízes. Um coro de trezentos anjos ocupa-se deste paraíso, do qual há quem diga que não se situa na terra, mas no terceiro céu. Isaac, que foi o visitante seguinte, estudou lá durante três anos; e mais tarde o seu filho, Jacob, teve licença para lá entrar. Mas nem um nem outro contaram o que lá tinham visto" (p.87).Estas descrições mais se parecem com visões, ou revelações dadas aos eleitos, do que descrições de uma espaço divino em que os fiéis pudessem de facto acreditar. Moisés também é referido, mas levado a este Éden pelo seu Anjo da Guarda, Shamshiel, que lhe mostrou, entre outras maravilhas, setenta tronos cravados de jóias, destinados aos Justos e pousados em pés de ouro fino, flamejantes safiras e diamantes. No maior e mais rico estava sentado o Pai Abraão.A seguir a Moisés mais nenhum mortal foi julgado digno do Paraíso, excepto o Rabbi Jehousha ben Lévi, Mestre de excepcional piedade, que entrou graças a uma artimanha, que é a seguinte: quando o Rabbi já estava muito velho, Deus ordenou ao Anjo da Morte que lhe inspirasse o desejo de morrer ; então Jehoshua pediu que lhe mostrassem o lugar que lhe estava reservado, mas antes de se porem a caminho pediu ao Anjo que lhe desse a espada- pois podia, de caminho, haver algum acidente que o fizesse morrer de medo. O Anjo deu-lhe a espada, e quando chegaram ao paraíso sentou o Rabbi no alto do muro e mostrou-lhe o lugar que lhe estaria reservado. Jehoshua saltou abaixo do muro e declarou que ia ficar ali. Os Anjos queixaram-se a Deus: este homem tomou de assalto o paraíso! Mas Deus permitiu que ele ali ficasse, por nunca ter faltado a um juramento, durante a sua vida (Graves, p.88). Esta narrativa continua, mas  o que nos interessa aqui é verificar como havia comunicação entre Deus, os homens, os Anjos, e que ora um, ora outros, podiam ser perturbados nas suas decisões, revelando ou alguma inocência ou alguma ignorância que viriam a determinar a continuação do que era suposto acontecer.O que se discute? Qual o poder de Deus, e dos seus Anjos, sobre as suas criaturas? Abençoadas ou malditas?Um poder afinal limitado, porque contornável pela astúcia, neste caso, de um Rabbi Santo, ou por uma serpente malvada, no Génesis. Um conquista um lugar no paraíso, os outros são miseravelmente expulsos e castigados, embora Deus tenha, ao sétimo dia, louvado a sua obra e descansado, confiante.Como Robert Graves aponta nas suas notas (é uma obra que recomendo não apenas pela leitura directa, mas sobretudo pela riqueza de informação que acrescenta nas notas finais),há muitos elementos da Queda do homem que remontam a épocas muito mais antigas do que os relatos do Antigo Testamento como o conhecemos. Só que a sua sistematização é mais tardia, e até contém, por vezes, elementos de influência grega. A epopeia de Gilgamesh - de que eu já me ocupei em posts anteriores deste blog - datada de 2000 A.C. numa primeira versão, descreve como a deusa suméria do amor, Aruru, fez com argila um selvagem de nobre porte, Enkidu, que cresceu entre gazelas e animais selvagens, até ao momento em que uma sacerdotiza enviada por Gilgamesh o levou para a cidade de Uruk e o iniciou nos mistérios do amor (Graves, p. 94). Irmãos de sangue, os dois heróis não voltam a separar-se e a narrativa segue com a busca de uma planta da imortalidade que lhe será depois roubada por uma serpente, no fundo mar, fazendo com que Gilgamesh acabe por aceitar a sua mortalidade.Estas e outras narrativas, que Graves refere , todas se ocupam da questão da mortalidade do homem e do erro, ou abuso e arrogância, que levou à expulsão do paraíso oferecido. Curioso é ver que em outros mitos, um cretense, outro lídio, contado por Plínio, é dito que as serpentes possuíam uma "erva da imortalidade" (Graves, p. 95).Neste conjunto que estivemos a ler, pela mão de Graves, uma transição se verifica, nas lendas e mitos hebreus: a passagem de um matriarcado politeísta, do culto das deusas em grutas escondidas ou templos misteriosos a um patriarcado monoteísta, de julgamento severo sobre o papel da mulher na sociedade, um papel que a reduzia a uma função menor e de quase anulação.
Os mitos são o que são: memórias de um imaginário antigo, em que permaneceram até aos nossos dias figuras e temas fundamentais. Porque sumarizam mistérios ainda não desvendados: o do mal, o da morte, o da esperança de alguma ressurreição. Que uma serpente seja veículo, um par primordial remeta sempre para o feminino o negativo do mito, e Adão seja a vítima perpétua - quem diz Adão diz, como se sabe, o Homem, a Humanidade criada - o ser que nos primórdios tinha um corpo que cobria a terra inteira, quando se deitava no chão...tudo isto nos interpela, ainda hoje, sobre o nosso destino e o destino do mundo, causa ou efeito do que nós outrora, com ou sem Deus teremos praticado...A caixa de Pandora, (que é um Vaso) que tem inspirado múltiplos artistas, permanece aberta, ou mal fechada e deixando sair todas as vilezas possíveis e imaginárias. Só muito lá no fundo uma esperança, que mal se vê, ou adivinha.Que mão poderá, algum dia, selar de vez a tenebrosa caixa?Nos mitos o castigo surge como a quebra de uma ordem, um juramento, uma promessa feita. Uma desobediência, em suma.O que deseja o mito, na sua lição, ensinar? Que a ordem não pode ser quebrada? Que se tal acontecer o regresso ao caos será irremediável?E de que ordem e de que caos se fala então nos mitos?Ainda não temos resposta.



Sunday, September 24, 2017

Alberto Pimenta, A BALADA DO VELHO MARINHEIRO



Poucos saberão talvez, hoje em dia, desta rara faceta de Alberto Pimenta, poeta, tradutor, grande erudito, vanguardista da Poesia Concreta e Experimental, na senda dos irmãos Campos (Haroldo e Augusto, no Brasil) e que entre nós, desde o seu tempo juvenil e glorioso do Teatro Clássico, em Coimbra, a dada altura mais conhecido se tornou pelo seu intervencionismo culto, mas sempre militante, nas Performances com que nos mais variados espaços (desde salas pequenas a uma jaula do Jardim Zoológico) nos surpreendia e deleitava! 
Destas, o HOMO SAPIENS foi editado em livro, mas outros há, anteriores, e cada vez mais actuais, ainda circulam por aí, aguardam quem sabe uma sessão de leitura seguida, que os jovens, se não forem já dos formatados aguardando lugar nas filas dos Partidos, saberão apreciar tanto quanto nós, os da antiga geração, na altura apreciámos. Refiro-me ao Discurso do Filho da Puta.
Embora eu saiba que num grande poeta o seu passado é presente e futuro, é da sua mais recente edição que pretendo falar, desta belíssima, tão intensa e comovente balada do Velho Marinheiro, de S.T. Coleridge (1772-1834), que Alberto recupera numa tradução como aquelas a que nos habitou, de excelência de domínio da língua na tradução que faz. 
Alberto é um erudito, como não tem havido igual nas nossas Academias, mas discreto nas aparições que faz, ao editar o seu trabalho, que pode demorar anos até que surja. A sua Arte é paciente, como se deve, nos grandes autores.
Por isso me debruço sobre esta sua tradução, tão poética quanto o original de que parte, e tão carregada de simbolismo, que vou chamar de alquímico.
Quem me conhece sabe que ao falar de alquimia falo, como Rimbaud, de alquimia do Verbo, de alquimia da Alma.
Muitas das baladas que conhecemos, desde as de Goethe, por exemplo, nos ensinaram que há nelas um tom, um destino que é trágico e respeita à condição humana.
A Balada do Velho Marinheiro não foge à tradição. Dividida em sete partes (seriam os dias da criação? ) conta que um velho marinheiro se cruza com três cavalheiros que iam para uma boda, e fica com um deles, a quem interrompe o caminho, pedindo-lhe que oiça a sua história. A noiva já está a ser anunciada, pela música de um oboé, mas o marinheiro não interrompe o seu contar. O barco em que navegava é levado por uma tempestade em direcção ao pólo sul; daí a pouco se abatem sobre os marinheiros blocos enormes de gelo " Só gelo em todos os lados".
De repente, no meio de tanto "estertor" com uivos já de prenúncio de morte, surge então um albatroz.
A ave é acolhida com um espírito fraterno (cristão) e saudada "em nome de Deus". 
Mas na última estrofe eis que surge a traição cruel, feita à ave inocente que lhes trouxera o bom tempo: 
Com o arco e uma seta
Eu matei o Albatroz. 
Chegamos à Parte II com esta revelação que marcará daqui em diante o curso da narrativa.
A "acção infernal" praticada pelo marinheiro agoirava o pior, para aquela viagem que agora a todos metia medo.
A viagem ia transformar-se, para todos, e não apenas para ele, numa longa e penosa travessia - uma travessia de vida, a expiar os seus pecados. Na última estrofe é descrito o momento em que, em desespero, os marinheiros penduram ao pescoço do velho, "em vez da cruz", o corpo do Albatroz.
Percebemos por aqui a relação do pecador, e do seu pecado, com um Albatroz que é Cristo e é também ao mesmo tempo, o marinheiro que o matou e agora o leva atado...
Na Parte III, descrita a continuação de uma travessia infernal, perigosa, assustadora, e que já nem comporta esperança, surge de súbito uma forma: de um barco e de uma mulher, quase forma apocalíptica:
Então a tripulação é uma Mulher isolada?
É um Espectro de mulher? E há outra além da primeira?
Mas então será a Morte que ela tem por companheira?
....
Ela era a Morte-em-Vida, o Pesadelo sombrio 
Que empasta o sangue do homem que ela embebeu do seu frio.

Estamos perante um navio-fantasma, dos muitos que assombraram  o imaginário antigo e agora se recupera. A Morte joga aos dados a vida dos marinheiros, ganha a todos, que em breve um a um sucumbirão, e escapa sozinho o Velho.
Na Parte IV, o convidado da boda que o Marinheiro interpelou, interrompendo o seu caminho, já se declara assustado, receando que ele não seja um homem mas sim um espírito renegado.
O Velho continua a descrever o sofrimento que é o seu castigo eterno: sempre vivo, sempre vivo, sem o descanso da morte, que seria o seu perdão.
Mais uma vez é na última estrofe que se dá um passo em frente, fazendo avançar o mistério do todo da narrativa:
Nesse instante eu orei:
Como se fosse de chumbo,
Despendeu-se o Albatroz
E sumiu-se no profundo.

A Parte V descreve como ao Velho Marinheiro é concedido de novo o sono, a benção do sono, que é prenúncio do perdão.
Parecia ter acontecido um milagre: o que sonhara tornava-se realidade: chuva, que o corpo sedento bebia, sopro de um vento que não atordoava, estrelas a dançar no meio do céu, e uma grande nuvem negra, que tinha a Lua a seu lado.
Dá-se a transformação dos corpos caídos, no navio. Erguiam-se, sem falar, "tripulação fantasma que ali estava reunida". Mas tranquilizando o receio do convidado que ainda ali estava a ouvi-lo, explica então o Marinheiro: 
...
Não Convidado, descansa,
Que as almas dos condenados
Não tornaram aos seus corpos,
Mas sim uma legião de espíritos abençoados.

Assim, rodeado de sons melodiosos, voga o navio sozinho, levado por misteriosa corrente.
Ate´que tudo se altera: "o sol a prumo no mastro tinha pregado o navio/ À sua extensão de mar".
O balançar torna-se ameaçador, o Marinheiro desmaia e ouve, quando volta a si, que uma voz o acusa de ter morto o Albatroz. Mas também lembra que esse velho pelo seu crime nefando já muito tinha penado.
 E chegamos à Parte VI, em que o poemas se desdobra num diálogo a duas vozes. A primeira pergunta o que acontece com o mar, o que é que move o navio; a segunda explica que aquele mar não se move, está fixo perante a Lua, e deixa uma observação misteriosa: " É a busca de saber qual o rumo a seguir" / Pois é ela que o guia, ou suave ou tenebrosa".
Ficaremos a saber que o Marinheiro é assim conduzido à sua terra natal, tem no seu percurso lunar a visão dos espíritos angélicos que abandonam os corpos dos mortos, revestidos das suas vestes de luz, conjunto de Serafins - como nas visões que os Evangelhos relatam.
A última estrofe desta sexta parte descreve a chegada do santo Ermitão, que irá absolver o Marinheiro do pecado cometido, lavando-o do sangue do Albatroz.
E na Parte VII acompanharemos o Ermitão do bosque, no erguer do seu canto, nas suas orações do meio-dia e da tardinha, no convívio com outros marinheiros. 
Afundado com estertor o navio onde estava ainda o Marinheiro, este implora ajuda, ser ouvido em confissão. 
O santo homem, benzendo-se, como se ali se tivesse incarnado o diabo, pede ao Marinheiro que lhe diga quem é, e este conta então a sua história, enquanto o seu corpo se revolve numa "agonia infinda" que por fim o liberta de si mesmo, e da memória terrível. 
Mas...tem um preço.

Esta agonia retorna
Desde então a hora incerta:
E antes de a história contada abrasa-me o coração
E só depois me liberta.

Vou errante como a noite, errante de terra em terra.
Tenho este dom de contar.
O rosto me dá a saber
O homem que devo escolher
Para lhe esta história ensinar.

Estes aparentes pequenos detalhes são talvez o fio que procuramos para entender melhor o significado desta narrativa que nos prende, pelo ritmo do verso, mas sobretudo ( para lá das pinceladas intensas da descrição de paisagens ora sombrias ora por vezes excessivas de tanta luz,  a luz da Razão que ofusca ) neste caso, dizia eu, a imperiosa necessidade de contar uma história que contém um ensinamento, e a quem a oiça permite uma iniciação: num outro tempo, num outro espaço; despido do real (que seria a boda a que iria assistir como convidado) ascende o ouvinte a uma esfera de espiritualidade revelada no dito  do Marinheiro, Velho e iniciador.
Uma voz imperiosa, que força o dizer, para que de novo se possa uma e outra vez, ser redimido.
Há uma lição no fim: a do amor universal, pelas criaturas que povoam o universo criado. E quanto aos homens, a lição é também de amor que se partilha desde o Santo ao Pecador:
...
Tanto os seres das alturas como os ínfimos da lama,
Que Deus que nos ama a nós
Todos fez e todos ama.

Esta é a lição do texto, como se de um sermão se tratasse. Mas lendo com mais cuidado, repare-se: foi melhor ficar ali, naquela companhia, do que ir participar na boda que tinha lugar na Igreja.
O que a balada sublinha é que importa mais a companhia do que o cumprir um ritual. Rezar é uma forma de amar, e só aprendeu a amar quem aprendeu que amar é amar a todos (ama o próximo como a ti mesmo). Do maior ao mais ínfimo dos seres existentes.
O Velho é um Velho do mar: a sua vida é errante, tem uma lição a propagar.
Haverá qui alusão ao Judeu Errante, ao Judas que matou Cristo, pois que o marcou para matar?
O vasto mar é a vida, o vasto mar é  a morte, o navio o seu inferno, o seu eterno penar.
Podia trazer à nossa reflexão o Bateau Ivre, de Rimbaud, e a explosão  do seu grito: ô que ma quille éclate, ô que j 'aille à la mer! Mas Rimbaud não procurava a redenção, e sim o aniquilamento brutal.
Quanto a Baudelaire, de que modo tratou ele a figuração poética do albatroz  de asas largas, de vôo alto, mas que uma vez pousado ou caído no convés de algum barco mais parecia um tosco e diminuído animal do que uma ave de grande beleza e nobre porte?
O albatroz de Baudelaire é a figuração do Poeta: o seu vôo livre nos céus permite o Dizer perfeito, expressa o Verbo necessário. Mas caído nas tábuas de um quotidiano real, puxa a troça, a indiferença, sublinha-se a imperfeição das asas grandes demais para o que humano olhar suporta...

O Poeta assemelha-se ao príncipe do ar

Que busca a tempestade e troça do arqueiro;
Exilado no solo no meio dos apupos
As asas de gigante impedem-no de andar

Mas em Coleridge a questão é mais ética do que poética: o Albatroz é morto por uma seta que o apanha, desprevenido, no ar. Crucificou-se um inocente amável, cuja visita alegrava o navio. É como que o pecado mortal na viagem da vida que se iniciará...

Cruzam-se nesta balada três motivos
o do pecado  contra um ser inocente, natural 
o do navio fantasma, cuja raiz se encontra na história do Holandês Voador
o do Judeu errante
e o do Poeta que só nas alturas pode sobreviver com a sua arte

Em Coleridge a análise conduz mais ao motivo do Holandês Voador, como podemos ler em Elisabeth Frenzel, no seu Stoffe der Welt Literatur (Kroener, 1988). A lenda surge na primeira metade do século XIX, com uma edição de 1821 em que o capitão holandês de um navio é descrito como tendo feito pacto com o diabo, para conseguir vencer o Cabo das Tormentas ( depois Cabo da Boa Esperança) . Quando o seu fantasma aparece no mar é sinal de maldição.
Um outro relato, de 1841, de Barend Fokke, que se baseia no anterior, descreve o capitão como tendo feito ainda em terra um pacto com o diabo, o que faz dele uma espécie de emanação das forças destruidoras do Mal. Quando um dia não regressa de viagem, logo se conclui que devido ao pacto feito, nunca mais se libertará do eterno castigo e maldição que o ligam à travessia do Cabo, não podendo voltar a atracar seu barco em nenhum porto de abrigo. Transformou-se em alma errante.
Elisabeth Frenzel, nesta sua linha de investigação refere ainda outra obra, de 1832, de A. Jal, uma edição bretã (quem sabe a mais interessante, para os futuros estudiosos) em que surgem motivos misturados: o do capitão desalmado que, apesar dos pedidos da tripulação, os obriga a a atravessar o Cabo, e deita ao mar os que não obedeciam. Surge então das nuvens uma forma sobrenatural que o amaldiçoa de modo a que só venha a navegar em tormentas, afligindo com grandes males todos os navegantes.
Ora bem, nota a autora, a maldição e o terror causado pela travessia do Cabo da Boa Esperança, já tinha uma história antiga: encontra-se no relato da descoberta, de 1497, de Gaspar Correia (Lendas da Índia) em que se conta como Vasco da Gama, o nosso herói dos Lusíadas, contra a vontade da sua tripulação força a travessai do Cabo, ameaçando de morte quem lhe não obedecesse.  Manda prender o timoneiro, deita ao mar as cartas de navegação, e declara que é agora Deus quem será  o timoneiro.
A lenda fará desta narrativa a matriz da lenda do pacto maléfico, pois só um pacto assim poderia ter permitido o sucesso que Camões glorifica nos versos da epopeia dos Lusíadas (em 1572): do Cabo tenebroso ergue-se o espírito que ameaça com vinganças terríveis, e na forte personagem de Gama se esboça já aquele que virá a ser o Holandês Voador futuro.
O Romantismo, dado ao culto de lendas e fantasmagorias, depressa se apropria desta matérias, de uma memória de terrores que seduzem, envolvendo, conforme os casos, a questão do Bem e do Mal (do pecado, da ambição, do pacto, e da redenção, nem sempre possível, mas que no Fausto  II de Goethe, por exemplo, é concedida, e aqui se abrem novo tópicos de discussão) .
Assim veremos em Coleridge, na sua visionária Balada do Velho Marinheiro (1798) a renovação e recuperação destes motivos, alargados por obras como o romance de Hauffs, de gosto orientalizante , Das Gespensterschiff  (1825)  e o de Marryat , The Phantom Ship (1839).
Omito, porque vai longo este excurso, a ópera de Wagner (de 1843), a partir de um rascunho de Heine, pois entram aqui um factor novo, o do amor, e do sacrifício que o amor exige para redenção do amado.
Em Coleridge, há de facto uma Boda que vai ter lugar, mas o Velho Marinheiro, que interpela o convidado, faz-lhe ver com detalhe, no decurso da narrativa, que melhor do que participar num ritual é rezar a um Deus que perdoe, uma vez confessado o pecado...
Mas Coleridge não prescinde da áurea de mistério: o Marinheiro tem ainda, e nunca me momento certo, a necessidade imperiosa de contar a sua história: se não conta, rebenta. E por aqui se levanta a questão do dizer do poeta, essa pulsão tão forte, que o leva pelos caminhos do mundo, o seu e o dos outros, que interpela, interrompe, e faz comunicar com outra esfera. Um Além feito de sombra e luz, as energias da Alma.
Matar o Albatroz foi o pecado original, gesto que nasce dum impulso gratuito. 
Terá perdão, a Alma?

ao Alberto Pimenta, de coração sempre aberto, dadivoso, nas Obras que dá a ler.
(Lisboa 2017)


















Wednesday, September 13, 2017

Flower and Song

Flower and Song - Flôr e Canto
É uma selecção de poemas aztecas com tradução e prefácio de Edward Kissam e Michael Schmidt (Anvil Press Poetry, 1977).Tinha este livro na estante, ao lado do Popol Vuh, o livro fundador da civilização dos Maias, e já um pouco esquecido por outras leituras que se foram impondo.
Mas o poema do Discurso do Cacto levou-me de novo - os livros são assim, ora se deixam esquecer ora de súbito se impõem - a esta imagem, também ela fundadora, da flôr e do canto, que figura o nascer da poesia, do poema inicial e iniciático, como no caso do Orfeu ocidental, com o seu canto, a sua flauta ou a sua lira.
No poema n.49 (p.62), encontro a Canção de Mimixcoa, que completa de forma inspirada, numa civilização ainda misteriosa e tão distante da nossa (em parte fomos nós, no século XV, os culpados da sua destruição), a visão que temos da origem do Verbo criador, do poema, da poesia que depois se expande em múltiplas florações....
Eis o poema, que traduzo aqui do inglês:
Vim das sete cavernas,
o primeiro lugar em que reinava a magia.
As minhas pègadas é daí que conduzem
 ao lugar onde as tribus começaram.

Nasci. Já nasci.
Nasci com as minhas setas de cacto
do cacto que nos embebeda.

Nasci. Surgi como canção
com o meu tambor de rede já pronto.
Nasci com o meu tambor.
Nasci com a minha rede.

Seguro-o com uma só mão, com uma
só mão o seguro, com a minha mão.
Oh, com a sua mão
ele encantará.