Thursday, May 04, 2006

O OLHAR DE OUTROS : Anselm Kiefer



Este é um óleo de 1973, intitulado Parsifal, referindo-se à obra de Wagner, pois este alterou, como conta nos diários, o título de Eschenbach, que era Parzival; a razão que deu foi a de querer salientar diferenças de concepção entre uma e outra obra, considerando a sua mais mística do que a medieval, e deixando uma alusão aos "parsi", persas, e aos "fol", "fous", loucos. Não são razões muito claras, mas aceitamo-las, não há outro remédio.
Muito interessante, neste óleo contemporâneo, é o modo como o espaço é tratado : escuro, aprofundado até ao ponto onde um discreto brilho de coroa feito das palavras redentoras, "o mais santo milagre"e" salvação ao salvador" ( Hochsten Heiles Wunder! Erlosung dem Erloser ! ) paira sobre uma taça larga ( não um vaso ) pousada sobre uma mesa quadrada, como que aludindo ao círculo inscrito no quadrado das gravuras alquímicas mais conhecidas.O despojamento é total, não há maneirismos, nesta exposição, também ela secreta, do Graal.
O percurso de Kiefer é feito de uma paixão pela história alemã e seus mitos que ele justifica com a data do seu nascimento: 1945. A Alemanha precisava, de facto, de ser redimida de um presente terrível, o que só poderia ser feito através da dignidade e da nobreza do passado longínquo.
O Parsifal surge numa altura em que se desentende de Joseph Beuys, com quem tinha estudado até aí. Na opinião de alguns dos seus críticos, mais do que interpretar a obra de Wagner, interessou-lhe o fenómeno da utilização das figuras, míticas ou históricas.
A luz discreta do Graal atravessava o tempo, transformava e desse modo "redimia"o espaço, mesmo o mais negro e mais contaminado: " zum Raum wird hier die Zeit" ( aqui o tempo transforma-se em espaço ).

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