Thursday, May 04, 2006

o Calice



Vem isto a propósito do lançamento do livro de Mestre LIMA DE FREITAS, PORTO DO GRAAL ( ed. Ésquilo, 2006 ), de que vemos
como ilustração o quadro que pintou da donzela que transportava o vaso sagrado.

Conhecedor, como poucos, da simbologia profunda desta lenda, colocou sabiamente na taça (emblema do feminino) o dragão cuja força permitia dar a entender que mistério ali se processava: o de um casamento mágico, ritual, do feminino e do masculino, do par de opostos, que ao longo dos tempos tinha sofrido muitas transformações e passado por multiplas e confusas designações.
Das obras que melhor estudam estes rituais destaco as de Jessie l. Weston, FROM RITUAL TO ROMANCE (1920 ) e THE QUEST OF THE HOLY GRAIL ( 1913 ) .

A Lima de Fretas não escapa a lição do mito, como diria GILBERT DURAND, seu amigo e amigo de Portugal e sua vocação graálica e mística:

"Irrompendo do inconsciente dos povos, os mitos são as 'notícias' que nos chegam dos arquétipos inexprimíveis".
(Lima de Freitas)

A sua princesa do Graal é sem dúvida a personificação do feminino, da natureza-mãe, que dispensará vida e bem estar ao cavaleiro a quem entregará a taça, que no fundo é ela mesma.
E é ainda, pois no mito tais interpretações são possíveis, a Anima de que o herói adquire consciencia e desse modo se redime, bem como à terra "gasta", morrendo à sua volta.
Com ela a terra voltará a verdejar, daí a importancia do dragão que a taça contém. No esboço do cenário para a ópera de Wagner também estava presente, embora enquadrando o espaço em torno do altar, sem fazer parte dele.

Encontro, no espírito místico de Fantin-Latour (Preludio de Lohengrin, óleo de 1892), ou ainda de Dante Gabriel Rossetti (A Virgem do Santo Graal, 1857 ) uma fonte de inspiração para Lima de Freitas- o que só mostra a continuidade e permanencia do mito ao longo dos tempos.
Mas cada qual com sua marca. A Rossetti falta a vibração da natureza, em todo o seu esplendor. A princesa do nosso Mestre ergue em veneração uma taça que é um símbolo de algo maior do que ela, um casamento do ceú e da terra, como se via outrora nos mais antigos papiros do Egipto.

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