Wednesday, April 26, 2006

PICATRIX

Para uma história da alquimia, muito completa tendo em consideração a data em que foi publicada a primeira edição, 1957, a minha sugestão de leitura é ALCHEMY, de E.J.HOLMYARD, (reed. Dover, 1990 ).Dá-nos um resumo da alquimia grega, chinesa, islâmica, ocidental, e informa ainda sobre os laboratórios dos primeiros alquimistas, o que é interessante para uma história da química, apresenta os símbolos, e termos secretos e envereda depois pela vida e obra de alguns dos mais importantes alquimistas, como Paracelso, Helvetius e outros.
Temos em Holmyard um excelente guia, o que não impede que se exija a leitura directa das fontes citadas, ou posteriormente divulgadas,para obtermos um conhecimento verdadeiro e mais aprofundado.
Vem isto a propósito do PICATRIX, tratado islâmico dos sécs. X/XI, do qual só recentemente se tornou acessível uma tradução em língua inglesa, da qual darei conhecimento.Holmyard refere alguns dos grandes cultores árabes da alquimia, refere Senior, por ex. (o IBN UMAIL de que já falei no Blog ) e refere ainda este tratado, que já fora conhecido de Rabelais, no seu tempo, que o define como "diabólico" .
Sob o califato de AL-HAKAM II, que reinou em Espanha de 961 a 976, floresceu um notável grupo de eruditos hispano-árabes, entre eles Al-Majriti ( que significa de Madrid, embora na realidade, diz Holmyard, ele fosse nativo de Córdova).Mas viveu muitos anos em Madrid e assim adquiriu esse nome.Educado no oriente, conheceu os "IRMÃOS de PUREZA", sábios cujos conhecimentos ele terá trazido para o ocidente.
É um grande especialista de astronomia, traduz e comenta Ptolomeu, e as suas obras rapidamente circularão em latim. São-lhe atribuídos um tratado de alquimia, "Os Passos do Sábio", e um outro de magia, " O Objectivo dos Sábios". Esta obra de magia será traduzida em espanhol em 1256, por ordem do Rei Afonso X, o Sábio, rei de Castela e Leão, de 1252 a 1284. A versão latina, com o nome de Picatrix, tornou-se então muito célebre;( o nome é uma corrupção de Hipócrates,um dos muitos autores citados no tratado).
Rabelais, no Pantagruel, refere-se ao " reverend père en Diable Picratis, recteur de la faculté diabolologique" de Toledo. Assim, brincando, nomes e ideias iam passando de mão em mão.
A atribuição a Al-Majriti, diz Holmyard, deve ser falsa, mas como era usual, o tratado pode ter sido copiado, alterado e aumentado a seguir à morte, em 1007 deste autor.
Quanto ao tratado de alquimia, revela-se de grande interesse pelas instruções que dá ao adepto: estudo da matemática em Euclides e Ptolomeu, e das ciências naturais em Aristóteles e Apolónio de Tyana.O estudo devia ser "aplicado", operando no laboratório, e "teórico" reflectindo sobre as reacções das substancias químicas que utilizasse.
Estava a nascer a ciência química, ainda que sob a forma de um sistema filosófico, por vezes intrincado nas suas formulações.

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