Tuesday, June 06, 2006

Wagner, a Ponte


Sublinhando ainda a importância das referencias simbólicas existentes no texto wagneriano, veja-se como a PONTE, tão importante no Conto da Serpente Verde de Goethe, assume aqui um importante papel, de FORMA INICIÁTICA, CONDUTORA para a qual Donner chama a atenção dos deuses ainda assustados com o efeito perverso do anel:
" ...
Irmãos, por aqui!
Que a ponte vos indique o caminho!
(A nuvem desaparece de repente, fazendo surgir de novo Donner e Froh; a seus pés nasce, com cintilante esplendôr, um arco-íris que forma uma ponte sobre o vale até ao castelo, agora reluzindo iluminado pelo crepúsculo...)
Froh (dirige-se aos deuses, após ter indicado com a sua mão o caminho sobre o vale que o arco deve traçar)
A ponte conduz-nos ao castelo,
leve e segura
para os vossos pés:
confiantes e sem medo,segui o vosso caminho!"

(trad. de João Paulo Santos para o libreto de 2006)

Embora subtil, para quem não estude o símbolo no seu contexto, a diferença entre as duas pontes é grande e significativa: a ponte de Goethe, feita do corpo da serpente transfigurada e oferecida a uma causa maior, une as margens do rio (da alma pacificada finalmente, com a série de conjunções que se verificam no progresso da Obra) permitindo o acesso do povo ao Templo que se ergueu das águas . A ponte adquire uma dimensão FELIZ, como diz Goethe a respeito dessa imagem, de esperança e de realização plena, colectiva.
Ao contrário deste autor que certamente o inspirou, Wagner faz da ponte um elemento de puro acesso ao PODER que o castelo representa ( a oposição templo/castelo é aqui pertinente); o coração dos deuses não se comove com a ponte, embora ela seja "transportadora", isto é, pudesse ajudar à modoficação.Ficam absortos na contemplação do castelo:

"O sol,ao esconder-se,
doura dos seus raios
sumptuosos o castelo.
...Assim te saúdo, ó castelo."

(trad.João Paulo Santos)

Só Loge fica para trás, enquanto os outros avançam para o castelo, com a clarividencia do crepúsculo que se abaterá sobre eles.
É de grande interesse, neste caso, estudar a figura mítica de Loge, ( é o deus Lug da Germânia, aparentado ao deus Hermes dos gregos ); é um deus que inicia, profetiza, acelera a transformação,nem sempre positiva.Eis o que diz, no fecho desta ópera, toda ela cheia de prenúncios e de indicações para um futuro ameaçador e já presente, pois no Eterno Viver dos deuses tudo o que será já é,como Erda lembrou.

Loge (ficando para trás, observando os outros deuses)
Precipitam-se para o seu fim,
os que crêem a sua vida tão segura.
Quase tenho vergonha de me dar com eles;
de me transformar de novo
numa labareda crepitante,
sinto um desejo irresistível:
para consumir
os que me conseguiram dominar,
em vez de me afundar
com eles estupidamente,
sejam eles os mais divinos dos deuses! "

(trad.J.P.Santos)

Sendo o fogo (no Conto de Goethe ) uma das forças SUBLIMADORAS não o consegue ser na ópera de Wagner: o comportamento insensato dos deuses (a humanidade, como Wagner a vê) não o permitirá.
E finalmente a ponte, uma vez atravessada, servirá apenas para reforçar, no castelo que tanto tinha sido desejado, um isolamento e um egoísmo cegos.
Os deuses riem, enquanto as filhas do Reno choram o ouro ( a alma) perdida.

Nota: Nos Altos Graus da Maçonaria a Ponte tem uma função maçónica,sendo um símbolo importante.
Se é certo que Goethe não desconhecia tal facto, no caso de Wagner podemos apenas suspeitar que a simbólica maçónica lhe fosse acessível. Mesmo não sendo maçon, certamente teria conhecido "Irmãos", teria nas conversas de salão aprendido o suficiente, e nos autores mais em voga ( como Zacharias Werner, entre outros, para não repetir Goethe ) completado os seus conhecimentos.
Em PARSIFAL veremos desenvolver-se todo um processo iniciático simbolicamente conduzido na perfeição, se me é permitida tal linguagem.
Gilbert Durand, wagneriano assumido, não descarta a hipótese de Wagner também ter sido iniciado; tanto na corte, como entre as élites artísticas, era frequente o interesse por essa marca de distinção e superioridade. Recordo Lessing, e a importância que os seus escritos maçónicos tiveram nas gerações posteriores.

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