Saturday, April 21, 2007

Meyrink, as doutrinas e os romances


Entre os grandes pensadores do esoterismo que Meyrink não só leu como conheceu, encontram-se G.R.S.Mead e Rudolf Steiner.
Com Mead correspondeu-se durante anos.Estes autores encontram-se também na biblioteca de Pessoa, o que mostra como era universal a cultura e a busca do nosso poeta e como o esoterismo era a "moda" para não dizer a tónica principal dos meios artísticos mais relevantes.Se algumas doutrinas descambaram em utopias milenaristas reprováveis, outras pugnaram por um discreto caminhar, de distanciamento das correntes visíveis e de entrega a caminhos pessoais, críticos, lúcidos ainda que em permanente interrogação. Também nisto Pessoa e Meyrink se encontram, sem saber.
Dos ocultistas que Meyrink apreciou salienta-se ainda BÔ YIN RÂ, embora mais uma vez, no fim dos seus anos, o nosso autor o tenha declarado má influência na medida em que muito do que verificou ser a sua doutrina não passasse de ilusão, de discurso vago e de tão vago sem substância e sem sentido.
Formalmente Meyrink não reconhece o que os seus romances contêm: cada um, um modelo de iniciação.É certo que este motivo, da iniciação, é sempre o mesmo. Mas o conteúdo que transparece no percurso do herói, sempre um inciando,varia conforme as doutrinas expostas:
Em Das gruene Gesicht ( O Rosto Verde) a doutrina é a do Yoga;em Der Golem ( O Golem, que dará nome e inspiraçao a um dos grandes filmes do Expressionismo) a doutrina é a da mística da Kabala; em Der weisse Dominikaner ( O Dominicano Branco) a doutrina é a do Tao mágico chinês com elementos da mística cristã; em Der Engel vom westlichen Fenster ( O Anjo da Janela do Ocidente ) a doutrina é a da transmutação alquímica.
Podemos apreciar mais ou menos, no estilo da Meyrink, a "marca" de época: alguma elaborada sofisticação que um leitor de hoje não apreciará. Mas há que chamar a atenção para a qualidade da prosa, sobretudo na descrição dos espaços: as suas cidades, seja Praga ( a Praga de Kafka) seja Amsterdão,ou outra tornam-se vivas e visíveis aos nossos olhos, a descrição é
cinematográfica, apelativa, envolvente.
Pondo de parte algum preciosismo, e last but not least, o facto de as figuras femininas servirem apenas para modelos sacrificiais que permitam ao herói uma "Conjunção" no além, um Casamento Químico, evitando no tempo e no espaço terreais a "contaminação" do impulso físico, não poderemos esquecer a lição que em cada romance é apresentada, e levaria um leitor mais atento a estudar ele próprio os complexos assuntos que o autor aborda.
Meyrink não facilita a vida ao seu leitor, dizia ao tempo alguma crítica.
É certo, mas os leitores devem merecer o que lêem...
BÔ YIN RÂ , voltando a ele e ao esfriamento de relações que se foi dando, foi capaz ainda assim de escrever em 1933, um ano após a morte de Meyrink: que tudo o que este escrevia resultava de "experiência própria" afastando a ideia de que só literariamente a escrita do seu ex-amigo e seguidor devia ser entendida.
A cadeia dos "Vivos" era longa e de longo magistério: tinham vencido vida e morte os seguintes: HU-TSU; ELIAS; HENOCH; MANI; APOLLONIUS; JOÃO EVANGELISTA; CHAITANYA; NOSTRADAMUS; CHRISTIAN ROSENKREUTZ; NICOLAS FLAMEL; etc.
Pela lápide no cemitério onde Meyrink foi enterrado supõe-se que o tenham considerado um deles.

4 comments:

Jose Antonio said...

Ivette, el Golem de Meyrnk, tiene poco que ver con la leyenda judía del Golem.
Realmente sólo es un pretexto para esa novel centrada sobre todo en el ocultismo y cuyo eje verdadero es el descenso de Athanasius Pernath en su propio yo.

De hecho, ni siquiera evoca una vez a la figura principal de la leyenda, el Maharal Rabbi Yehudah Loew ben Betsalel.

http://safed-tzfat.blogspot.com/

Yvette Centeno said...

Jose Antonio,
I know that, I have read the novel, but you probably also know that a writer does not always disclose his sources. He was a member of the Golden Dawn, he knew Mac'Gregor Mathers and his Kabalah, he was well aware of judaism, being himself a jew (although not liking to acknowledge that ). He knew all major ocultists of the time as well as thinkers belonging to the tradition.
But I agree that the most important in his work is the Way he points in every doctrine presented in each novel.I have read them all.
Thank you for your comment, you are very welcome here.

isa blumberg said...

E sobre Rudolf Steiner? Que livros de r. Steiner consta da biblioteca de F. Pessoa, já ouvi dizer que era apenas um (um ou dois) !!
um abraço .

Yvette Centeno said...

Cara Isa:
Rudolf Steiner na biblioteca de F.Pessoa:
L'esprit de Goethe d'après Faust et le conte du serpent vert; trad G.Claretie,Paris 1926.
Hoje em dia a biblioteca está catalogada é fácil de consultar.
O interessante é ver como era vasto o panorama de informação que Pessoa procurava obter, de todas as matérias, literárias, psicológicas, ocultistas, etc. e como deste ponto de vista respirava plenamente o ar do tempo.
Tinha Freud e tinha Joyce entre os seus livros...isso diz qualquer coisa sobre o seu espírito atento e aberto.
Tinha Mac'Gregor Mathers e tinha Saint Martin, com tinha Crowley, o mago (Mestre Therion ).
Mas tinha Goethe, o Fausto, que o leva a criar o seu próprio Fausto, que ficou incompleto.Criou um mito ara o séc.XXI