Monday, September 17, 2007

Libro del Tesoro


Libro del Tesoro. fecho por mi D. Alonso que soy de España.

Esta é uma cópia desconhecida, até à data, que se encontra na Biblioteca da Ajuda, incluída numa miscelânea manuscrita juntamente com outros textos alquímicos.
Para melhor compreensão devemos ler, como disse num post anterior, os estudos de Luanco e de Juan Garcia Font.
Das notas ao Libro del Tesoro ó del Candado, o primeiro texto que ele aborda no volume de 1889, escreve que são conhecidos dois códices, indevidamente atribuídos ao Rei D.Afonso o Sábio: um está guardado na Biblioteca Nacional e foi descrito por D.Tomás António Sánchez; e o outro está na Academia Sevilhana de Buenas Letras, divulgado por D.José Amador de los Ríos.
Luanco faz uma transcrição anotada de ambos, colocando-os lado a lado na página para que se vejam as diferentes variantes .
Já no volume de 1897 um terceiro tratado é acrescentado a estes, e igualmente transcrito: o do códice de Palomares, sendo que neste encontro as semelhanças que farão do nosso ou uma cópia sua ou uma primeira versão, algo que merece ser estudado.
A D. Francisco Javier de Santiago Palomares pertencem os três tomos en folio, manuscritos "com a formosa letra espanhola do calígrafo Palomares..."em que se encontra outra versão do Livro do Tesouro, juntamente com uma preciosa quantidade de outros tratados alquímicos de autores de renome. Luanco considera esta a mais copiosa colecção alquímica jamais encontrada entre as espanholas que conheceu.
Luanco observa ainda que os volumes não foram numerados e é possível que não sejam os únicos saídos da mão do copista:"No están señalados los tres volúmenes con los números ordinales y acaso no séan los únicos que salieron de la mano del pacientísimo copista".
O mais interessante é ainda verificar o interesse que o copista demonstrou pela matéria alquímica ao copiar e traduzir, do latim e do francês para castelhano, os outros textos constantes destes volumes.
Tendo sido o autor de uma Arte Nueva de Escribir, foi-lhe fácil, nalguns casos, pôr em verso a matéria traduzida.

Deste modo veremos Luanco transcrever, para melhor comparação de variantes, o códice de Palomares, que ele considera o mais completo, contendo descriçoes e estrofes que faltam nos de Madrid e de Sevilha. Ao todo contam-se 77 oitavas, número muito da preferencia do Rei Afonso X (mas não esqueçamos que se trata de uma atribuição, ou como tal considerada até à data pelos especialistas).
Segundo Amador de los Rios o autor deste livro do Tesouro foi o famoso D.Enrique de Aragão, Marquês de Vilhena.

Quanto ao noso códice, é proveniente da Biblioteca do 2.Conde de Redondo, D. Tomé de Sousa (o que se vê pelo sinal da guarda).Esta biblioteca foi vendida pela sua viúva, depois do terrmoto, ao Rei D. José e integrada na Biblioteca Real.

Logo de início, e como era habitual entre os adeptos, para se resguardarem de possíveis acusações, o autor agradece a Deus as grandes misericórdias que lhe concedeu, a sua santa fé e e o alto bem do conhecimento da "pedra dos filósofos". Citando Salomão, recorda que não há Sabedoria sem bondade- daí que, mercê da Pedra, se tenha dedicado a muitas obras de caridade. Para que os segredos do Livro não caissem em mãos indevidas escreveu o autor em versos :
" Porque yo dixe ca syendo comun llegaria a manos de homes no buenos; y porque sepades en como fuy sabido deste alto saber, yo vos lo diré en eroicas, ca sabed que el verso face excelentes y mas bien oydos los casos".
Ainda nesta apresentação comenta que com este grande Tesouro aumentou os seus bens, guiado pelo seu Mestre. A referencia aos bens materiais proporcionados pela Pedra Filosofal aumentaria certamente a curiosidade de todos os que viessem a ler este Tratado. Mas o bom tom mandaria que o "trabalho" fosse iniciado em nome de Deus:
" En el Nome de Dios face principio la obra".
Das terras de Egipto chegou a notícia de um sábio astrólogo e bom profeta de feitos vindouros.O rei envia-lhe um mensageiro, convidando-o para a sua corte:
" aberes,faziendas, y muchos dineros
allí le offreci con sana intencion".

Vem então de Alexandria o sábio generoso, que avisou não querer ouro, nem prata mas apenas servir com boas graças o rei que o procurava. E diz o rei:
"La piedra que llaman philosophal
sabia facer, y me la enseño
ficemosla juntos; después solo yo
con que muchas veces crecio mi caudal
e viendo que puede facerse otro tal
de muitas maneiras mas siempre una cosa
yo vos propongo la menos penosa
por más excellente, y mas principal".

De notar que há muitas maneiras de fazer a Obra, tal como haverá muitas cores a marcar os sucessos, e muitos nomes a designar a Pedra.
Em seguida refere-se que os ensinamento não provieram de caldeus, nem de fenícios, nem de árabes, egípcios, sírios, indianos, sarracenos- nenhuma das gentes do Oriente. Talvez para afastar fantasmas de magia, que sempre acompanharam o imaginário relativo à Arte alquímica. Explica então:
"Ficieran mi obra, yberos tan buenos
Que honran las partes de nuestro occidente".

O segredo será transmitido em verso e em cifra, sendo esta a maior dificuldade que o adepto terá de vencer. Até hoje ninguém entendeu a cifra com que se fecha a primeira parte do tratado.
De estrofe em estrofe vai o autor resumindo a essencia da sua Arte.
Os vários nomes da Materia Prima da Pedra, com as várias qualidades que lhe são conhecidas, sempre desenhadas em pares de opostos: húmido e seco, representando as duas vias possíveis, que formam o um e o todo: "ca en un singular/contiene dos cosas de una vegada".
Assim encontramos o quente e o frio, o homem e a mulher, a água e a terra, - e de todos estes contrários a imagem de um "matrimónio" que já Hermes definira como sendo de Céu e Terra.
Chega-se à Quinta-Essência que é "essencia de todo /porque esta materia es en tal modo/ ca todas las cosas viene à componer".
Materia prima, "antigo caos", quinta-essencia : a Pedra resulta da sublimação desta primeira massa confusa da qual tudo,vegetal, mineral, animal, no universo criado, se origina.Este é o primeiro dos olhares dos sábios sobre o mistério da criação do universo.

A descrição dos utensílios é a que normalmente se encontra desenhada, ou apenas referida:
um vaso esférico de vidro ( que muitos denominam de útero,de ventre ou de matriz ), um tacho de barro onde o vaso é metido, um forno de barro, um fogo lento, de lenha, para a cosedura secreta.
No vaso de vidro foi colocado mercúrio: é ele, o produto lunar ( a matéria húmida da obra ) que terá de ser unido ao enxofre solar e seco em posteriores operações.
A esta primeira parte de trabalho da materia chama o autor "tierra/ sulfur,muger, calido y seco...Penélope,...viuda palida y flaca". Por uma razão, terá de dar-se logo a conjunção com os outros elementos ( opostos ) que a completem, em partes iguais.
Teremos então a marca da nigredo, o negro, indicativo da "corrupção" da materia primeira, a larva que se transformará em borboleta alada ( as várias cores, e a representação da Pedra sublimada, pois ganhou asas que a elevam da terra ou da água, conforme o caso ):

Veredes la obra en la su negrura
Trocando aquel ser de como nació
ca no será ya la cosa que obró
en su principio la Madre Natura.
....
Non vistes la carcel que fiço de seda
para si el gusano adonde murió
e alli su cadaver por muerto fincó
en fuesa que fiço adonde se enreda
ca la corrupcion en este non veda
de le resurgir en forma distinta
de la su primera, pues naçe y se quiere
vivo, e con alas en forma mas leda".

Na vida da Obra nasce um espírito novo a partir de uma nova substância, marcada pela côr negra.
Surgirão em seguida muitas outras cores, designadas pelo termo de cauda pavonis e que o autor descreve deste modo:

" Despues de pasada aquesta color
vereis otras muchas en sus diferencias
ca son semejantes en sus aparencias
al Argos, y al Iris en su resplendor
Ca la sequedad del liquido humor
face ser esto de varia pitura
fasta llegar à cierta blancura
adonde aumentad un poco el calor".

Da nigredo e da cauda pavonis à albedo, o branco da sublimação desejada, indicando a perfeição da Pedra:

" Ca à la fizacion entonces se obra
e no puede ser jamas desunida
aunque mil años fuese escondida
porque la Union entonces se cobra".

A transmutação continua, indicada pelas cores amarelo-citrino (citrinitas) e vermelho, ou neste caso "roxo muy puro (rubedo), terminando a Pedra por fixar-se no corpo de um rubi.
Outras indicações foram deixadas, mas significam o mesmo processo de transmutação da albedo à rubedo: elixir de prata, para o branco, pedra citrina para o ouro que se deseja obter no fim.

Se desejar a continuação da sua Obra, deve então o adepto prosseguir calcinando a Pedra, agora colocada em vasilha de barro tapada por outra igual ed eixada a cozer em fogão de lenha.
Como se tudo voltasse ao princípio, da Pedra se regressa ao pó (da calcinação), às cinzas, cujo poder terá sido aumentado de tal forma que a materia se torna divina, quinta essencia "que a todo se aplica,e todo es potencia/ e ser de la cosa a do se encamina".
Mágica qualidade a deste princípio da Natureza transfigurada pela mão do alquimista:

" En este principio de Naturaleza
no es oro, ni plata, ni otro metal
ni forma sujeta a algun vegetal
mas disposición que a todo endereza.
Si al oro se aplica,del toma firmeza
para convertir en oro las cosas.
Si al home lo mismo por obras famosas
le da sanidad con suma entereza".

Mudou-se então a matéria em Elixir de longa vida, a outra variante tão procurada, tão ambicionada quanto a riqueza acrescentada do ouro pelo toque do ouro.
Ao caminhar para o fim da lição, deixa o autor a indicação da Pedra, como tal, do Elixir, se essa fôr a escolha, e mais um último segredo: o da projecção, a saber do aumento proporcional da quantidade de Elixir, ou de Pedra calcinada que se deseje obter.
Basta um grão para garantir saúde, sorte, fortuna...

"A todo se aplica, e todo convierte
en un natural bien complesionado
un grano partido deaquesto es tomado
por boca le face al home ser fuerte
al flaco, e debil le pone de suerte
que tanta salud no tuvo ninguno.
Si el tiempo que à todos es importuno
a este le lleva sano à la muerte.

Finis laus deo "

Repare-se na fina ironia do último verso, recordando que a morte a todos levará, quando chegar a hora, estejam doentes ou muito bem de saúde...Findo o exercício alquímico o que o autor nos lega é o mistério de sempre: o da utopia de que ao homem é permitido "mudar" a natureza, interferindo ( ainda que para o melhorar, o "redimir", como diziam alguns) no projecto da criação divina.

Seguem-se no manuscrito um conjunto de considerações ilegíveis, incluindo o tal discurso cifrado, e apresenta-se de seguida a 2a. Parte del Rey D.Alonso.

Sunday, September 02, 2007

Biblioteca da Ajuda

Na década de 80, ao longo de vários anos, procurei na Biblioteca da Ajuda obras de filosofia hermética que a meu ver teriam de existir, pois Portugal nunca esteve alheado do que se passava no resto do mundo culto e oculto da Europa medieval e renascentista.
Ainda no século XVIII Anselmo Caetano dava testemunho da existência desses conhecimentos e dessa cultura, no seu tratado da Ennoea.
Anteriormente a ele Duarte Madeira Arraes, médico de Dom João IV, no tratado do Vitriolo philosophorum mostrava não ignorar a medicina paracélsica.
O caso não é diferente com Dom Franciso Manuel de Melo, ilustre homem de letras.A ele se deve o Tratado da Ciência Cabala, onde todos os aspectos da Cabala judaica são abordados com grande erudição, exceptuando a Gematria, a ciência numérica, condenada por ser de magia, devendo por isso (e por muito temor à Inquisição) ser posta de parte pelo autor . Mas não duvido que até essa parte da matéria o nosso erudito conheceria.
Procurando recuar no tempo, apresentei a dada altura na Academia das Ciências uma comunicação em que tentava mostrar como na época do Humanismo as matérias gnósticas e herméticas circulavam, em meio restrito, é certo, mas a cultura sempre foi apanágio de meios restritos e isso em nada diminuiu a importância que de facto teve, influenciando o pensamento e a obra de muitos autores celebrados à época (Dante, por exemplo, seria um deles).
Pude então afirmar que alquimia e humanismo foram marcas do Portugal Renascentista ( Publicações do II Centenário da Academia das Ciências de Lisboa, 1988 ).
Na "Rellação" da Livraria de Frei Vicente Nogueira, que encontrei em Paris, no fundo português da B.N.P., podemos ler uma lista grande de autores, medievais e não só (muitas obras de Paracelso ali se encontram citadas), o que justificava a apreensão que foi feita pela Inquisição.
De igual interesse, no nosso século XVI, é a obra de Frei António de Beja, estudada pelo Prof.José V. de Pina Martins, que detecta a influência de Pico della Mirandola e através dele do Corpus Hermeticum, traduzido por Marsilio Ficino.
Diz Pina Martins:" Não temos elemntos para poder documentar a existência em Portugal de textos herméticos, anteriormente à citação de Fr.António de Beja..."
E ainda que " o pensamento de Marsilio Ficino se insinuou na poesia europeia e portanto também na portuguesa do Renascimento, de Sá de Miranda a Camões, e no pensamento humanístico português, através do influxo directo ou indirecto de alguns dos seus discípulos, como Pietro Bembo, Leão Hebreu e outros".
Continuando ainda no século XVI, iremos encontrar em João de Barros, na Ropica Pneuma, a prova provada de tais conhecimentos. No discurso que a Razão faz ao Tempo, e na resposta deste, encontra-se referenciado o processo alquímico. Só que se trata de uma "má alquimia", de uma inversão de processos, e não do modo justo de seguir o caminho da virtude e da sabedoria que a boa alquimia permite ( ver João de Barros, Ropica Pnefma, edição do INIC,vol. II, pp. 135-36) .

E chego então ao ponto que interessa, da Biblioteca da Ajuda.
Dois códices, de manuscritos inéditos de matéria alquímica e profética, sebastianista, aguardam os estudiosos.
Um deles contém as Profecias de Merlin sobre as Espanhas, e deve-se à Prof.Rita Costa Gomes a datação (c.1650) e a transcrição do mesmo.
As profecias de Merlin foram compostas entre 1366 e 1370, havendo os seguintes impressos:
El Baladro del Sabio Merlin ( 1498 )
El Baladro ( 1535 )
Prophecias ( 1500 )

Como primeira bibliografia em português para estas matérias sugiro W.Entwistle, A Lenda Arturiana nas Literaturas da Península Ibérica, Imprensa Nacional, 1942.
Em língua espanhola, A.B. y San Martín (eds.) La Demanda del Santo Graal ( contém o Baladro, ed.Sevilha de 1535 ), Nueva Biblioteca de Autores Españoles,tomo VI,Madrid 1907.
E de B. Balaguer, Los Textos Españoles y Gallego-portugueses de la Demanda del Santo Grial, Madrid,1929


No mesmo códice se encontra um ms. de maior dimensão, do Livro do Tesoro atribuído a Afonso X.
Fiz eu a transcrição que, tal como a de Merlin, se encontra inédita.
Para este tratado e suas variantes conhecidas ver :
José Ramón de Luanco, La Alquimia en España (fac-simile de los dos tomos de 1889 y 1897 ), Barcelona, 1998

Na Biblioteca da Ajuda é grande e interessante o repositório dos textos alquímicos.
Basilio Valentino, em tradução francesa ( o que ajuda quem não saiba latim);
Livre de la vraie pratique de la noble science d'alchimie (tem desenhos dos utensílios que se usam);
La Fontaine des Fontaines composée par un frère de Rose Croix...
e outros, aguardando estudiosos com disponibilidade e empenho.

Quanto à matéria profética, temos ainda na Ajuda O Incuberto, de Anonymo Utopiense...( 1649 );
e uma Colecção de Profecias e Vaticínios sobre el-Rey D.Sebastião ( 1808 ).

Muitas outras obras de igual interesse se encontram em Évora, na bela colecção de Incunábulos que contém, por ex., de Raimundus Lullus, a Arbor Scientiae (1482 );
o Herbarius de Arnaldus de Villa Nova (1499 ); as Opera de Picus de Mirandula (1498), só para dar alguns exemplos.
Numa época em que o Esoterismo parece despertar de novo, por boas ou más razões,um renovado interesse, é um desafio para os estudiosos dedicar parte do seu tempo a estas investigações. Os materiais estão aí, à sua disposição.

Wednesday, August 29, 2007

Maria Profetisa


A cmondim, esta gravura de Maria Profetisa.
Leia nos comments o 5, onde lhe dou alguma informação sobre o tema.
E pergunte sempre.
Na gravura Maria indica o segredo da Obra: união do inferior e do superior, do céu e da terra, como quinta essencia (as cinco flores dentro do círculo de fogo). Por outras palavras, a união de opostos como figuração do andrógino primordial, em que o filosofo adepto se revê.

Monday, July 23, 2007

Maria Profetisa



Esta é uma descoberta, feita numa das nossas bibliotecas, que dedico e disponibilisarei, com tempo, aos verdadeiros amantes da alquimia.
Trata-se de Livro Abreviado de Maria Profetisa, constando de dois folios e verso.
Aqui fica, enquanto parto, por um tempo.
Mas podem contactar-me, para mais informações; há mais, na biblioteca de onde este proveio...

Monday, July 09, 2007

Sunday, July 08, 2007

Wednesday, June 06, 2007

Comentarios aos Sete Cantos de Taut


O leitor mais atento percebeu com certeza que são Cantos dedicados a Thot, o deus Hermes dos antigos egípcios, pai fundador da arte alquímica.
Os poemas são colocados sob a égide de Virgílio e Dante- os grandes condutores da experiência mística e mítica da alma.Pois é dessa experiência profunda que se trata, por meio de uma imaginário que pode ser descrito à luz do modelo de Bachelard, entre outros.
Logo no prelúdio é celebrada a Terra, como Grande-Mãe, e de seguida a Água, como fonte de vida jorrando do seu seio.
Terra e Água serão as propiciadoras da grande transformação. Mas também fica apontada a utopia, a retomar no último dos Cantos, de uma cidade onde se poderá erguer a voz num cântico de estrelas.

Escolhi para ilustrar o Canto I a gravura VIII da Atalanta Fugiens em que o adepto ergue, para abrir o ovo da vida, o glaivo endurecido ao fogo da lareira (da alma) alquímica. Esse é o gesto que permite iniciar o trabalho da Obra.
A legenda reza " pega no ovo e e bate-lhe com um glaivo de ferro" ; este gesto, com esta espada, permitirá que nasça o pássaro que vence a dureza do ferro ( a alma endurecida ) e o excesso de calor do fogo ( a pulsão ainda não sublimada ).
Poderia ter escolhido outra gravura, a X, dedicada exclusivamente ao elemento fogo e seu papel na transformação necessária.

Aqui a legenda reza: " Dá fogo ao fogo, mercúrio a Mercúrio e isso é suficiente". Vemos o adepto junto à lareira acendendo o fogo e dois Mercúrios ( Hermes ) com o caduceu na mão, contemplando o trabalho.

No Canto II são reforçadas as imagens da água ( o mar ) e do fogo num novo casamento de opostos, desenvolvido melhor "nas bodas do sol e da augusta Terra" da terceira estrofe. Essa é a mensagem: a das Bodas Químicas, narradas por J.Valentin Andreae num célebre tratado que fez furor na época da sua publicação, continuando pelo tempo de M.Maier.

Mas esta primeira união ainda não é a definitiva, é um vislumbre apenas do que poderá ser, se bem sucedida a Obra de sublimação, o futuro do adepto como fundador e construtor da cidade da paz.

As imagens mais fortes são a do negro chumbo, do mau cheiro da podridão de cadáver que tem de ser decomposto - a "obra ao negro, enfim- a descida ao abismo da "massa caótica" de um inconsciente descontrolado, entregue às suas pulsões mais baixas- veja-se a referencia ao "porco"chafurdando na lama, como parte do bestiário desta poética hermética. Há um eco de Rimbaud - Le Bateau Ivre - no apelo do mar, da descida ao abismo, da visão do inferno.

A evocação de Dante, no Canto III, recentra o tema do homem no coração do mundo, o homem no centro da esfera da criação, conduzido à luz pela energia positiva do amor "num rodopio eterno". A experiência do negro permitiu esta nova fase em que a cidade ideal se aproxima , fraterna. O poeta exclama:" mundo, nada está fora de mim" - visto o mundo, descoberta a esfera da cadeia dos seres, a alma roda como uma estrela que cintila.

A sementeira faz-nos regressar ao elemnto terra, sua fecundidade, ouro na espessa treva.
E descreve-se, no Canto IV o templo, obra das próprias mãos, a arca com o tesouro, o hino eterno que sublima os ares.Mudou-se de fase, a presença dos elementos espirituais que o templo representa permitem um grande avanço no caminho.

O Canto V proclamará a santa Liberdade: noite vasta/ dia abençoado (conjunção de opostos, sempre desejada, sempre repetida) o adepto segue, vai com o vento ligeiro e aqui ficaria bem reflectir de novo com M. Maier noutra sua gravura, cuja legenda reza : "E o Vento levou-o no seu ventre" ( aludindo ao embrião da Pedra Filosofal, a matéria da Obra a sublimar ).


O embrião contido no ventre poderá depois ultrapassar os heróis pela força do seu braço, do seu espírito, do seu corpo, da sua arte.
Quando o poeta exclama: " Morte, atravessei-te.Meu domínio é sem fim", fez entrar a dimensão do espaço na dimensão do tempo que vivera. E o espaço é amigo, o espaço concretiza, fixa o volátil na " ordenação medida" com que o circunda ou enquadra.A vivência do tempo místico é vertical, espiralada, mas a "ordenação" do espaço é o que permite imaginar a quadratura impossível do círculo. Ainda que descrito como espaço sem fim vemos pelos restantes versos que esse espaço é o da natureza, a terra aberta ao infinito do céu (nas Bodas já citadas).

Os cantos VI e VII são o fecho de glória de um caminho percorrido : vazio fecundo, terra firme, ponto no centro do Todo, rosa ( a de Dante no Paraíso, mas também a que dá o mel às abelhas, no Rosário dos Filósofos...).
O indefinível é cantado com emoção e agora afirma-se o glaivo de ouro ( antes fora espada de fogo ), o véu rasgado (deixando ver a luz), o silêncio quebrado (revelando a palavra): " le dedans est dehors, o interior está no exterior", na conclusão final.

A alma dissolve-se no ar em pó de diamante e eis a combustão : a palavra francesa, embrasement, permite um aprofundameno em embrassement ( o abraço dos amantes, a fusão ) que o trocadilho anterior entre Aimant , Íman , e Amant, Amante, já vinham indicando.

Termina-se de novo com Dante e Virgílio, egrégios antepassados.E glorifica-se a Obra do Poeta:

"Poeta, tu bem sabes: a morada do homem
É uma teia tecida em ouro pelo Espírito.
Tem piedade, comigo, desses reis sem domínios:
No seu deserto que oiçam o meu grito.

Ergueremos então sobre as ruínas antigas
Uma cidade, espelho da ordem verdadeira
Onde a sombra e o sol, brincando sob os pórticos
Ofereçam às almas a imagem da paz".

Thursday, May 31, 2007

E. Perrot, L'Invocation




Dante, le jonc sacré que te montre Virgile
Et qui t'ouvrit les portes du soleil,
Daigne en ceindre aujourd'hui ce beau vase d'argile,
Vide mais pur au sortir du sommeil.

Le silence du gouffre a chatié ma langue,
Les mots anciens ont perdu leur éclat.
Brûlés, devenus plomb, j'ai tiré de leur gangue
Des flèches d'or qui ne se perdent pas.

Maître archer, comme moi pèlerin des trois mondes,
Guide mon bras, rends audacieux mon front.
Que l'enfer et le ciel, que ce siècle répondent
Lorsque ma voix a dit leur juste nom.

Poète, tu le sais: la demeure de l'homme
Est un réseau tissé d'or par l'Esprit.
Prends avec moi pitié de ces rois sans royaume:
Dans leur désert, qu'ils entendent mon cri.

Nous bâtirons alors sur les ruines antiques
Une cité, miroir de l'ordre vrai
Où l'ombre et le soleil jouant sous les portiques
Offrent aux coeurs l'image de la paix.

E. Perrot, Sept Chants de Taut, VII


VII
L'Insaisissable

Qui cernera les bornes de cette âme ?
Qui saura de ses mains emprisonner le vent ?
Qui pourra contenir le cours de cette flamme
Et te dicter sa règle, universel Aimant ?

Suivant le bon plaisir de ta jeune Sagesse,
Tu plonges, tu jaillis, clarté tu te fais nuit,
Tu places des fruits lourds aux branches d'allégresse
Ou laisses l'arbre vide en un désert d'ennui.

Mais cessons d'invoquer, car il n'est que présence:
Dans ma secrète main j'ai pris le glaive d'or.
J'ai déchiré le voile et brisé le silence:
Tout bouge, tout vrombit; le dedans est dehors.

Où donc est cet amant ? Où donc est l'âme en quête?
Dissous dans l'air ténu! poudre de diamant!
Le mur qui les créait en suspendant la fête
A croulé, vermoulu: voici l'embrasement!

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E. Perrot, Sept Chants de Taut, VI



VI
Cantique des Aigles

Des quatre vents de l'univers,
De vos retraites ignorées,
Rouges aigles, accourez vers
Ces carcasses humiliées.

Engouffrez-vous de toutes parts,
La place est béante et déserte:
J'ai découronné ses remparts,
Mes mains ont fabriqué sa perte.

L'oeil mortel ne pourra le croire:
Vous étiez là depuis toujours,
Fondus en un soleil de gloire,
Sphère vibrante et sans contours.

Vide fécond, Terre affermie,
Réseau d'or animant le Tout,
Infime point, rose, cadmie,
Merveille vive au coeur du fou !

E. Perrot, Sept Chants de Taut, V


V
Cantique de l'Immortel

Comment te chanterais-je, ô sainte Liberté ?
Tous les mots pour te dire abandonnent ma plume:
Ta gloire est infinie, entière ta clarté,
Nuit vaste, jour béni, Saison sans amertume.

Je ne sais d'où je viens, où je vais ne m'importe:
Au plus léger des vents je cède sans efforts,
Qu'à la cime du monde il m'invite et m'emporte,
Qu'il m'aspire en l'abîme où sommeillent les morts.

Trépas, je t'ai franchi.Sans borne est mon domaine.
J'ouvre et ferme en riant les demeures du ciel.
Triomphant moissonneur de cette haute plaine
J'engrange le blé d'astre au goût divin de miel.

Mère qui me portas, sein tiède, face obscure,
Val humide et profond où je dormis longtemps,
Le voici donc ton maître et ton époux, Nature,
Ce ver informe et vil, dernier de tes enfants.

Wednesday, May 30, 2007

E. Perrot, Sept Chants de Taut, IV



IV
Cantique des Semailles

Esprit du monde, artisan de beauté,
Anime cette voix qui te célèbre:
Ta gloire emplit mon coeur: viens en jeter
Les graines d'or dans l'épaisse ténèbre.

Le temple pur ouvrage de tes mains,
L'arche parfaite aux vivantes colonnes
S'offusque, en proie aux injures de nains
Qui pour leur front ravirent ses couronnes.

Ecrin de choix rempli de tes trésors
L'homme, ton fils bien-aimé, ton vicaire
Verse un oubli le plus noble des sorts:
Nul chant de source en cette morne terre.

Fais refleurir les sables du désert!
Peuple de tours les villes dévastées !
Et que ruisselle, aux demeures de l'air,
L'hymne éternel des gorges visitées!

E. Perrot, Sept Chants de Taut, III



III
Hymne au Monde
Danti

O sphère dont je suis le coeur
Seul Fils à l'image du Père,
Vivant parfait, durable fleur,
Couronne heureuse de lumière,

La ronde où t'entraîne l'Amour
Ne connaîtra jamais de cesse,
Montrant et voilant tour à tour
Les présents de l'auguste Liesse.

La nuit m'a livré tes secrets:
En elle j'ai saisi les pôles.
Cloué sur l'axe dur, je sais
Répondre au chant de tes corolles

Et lire le poème écrit
Dans le volume que déroule
Pour le seul oeil du coeur guéri
L'Année en sa paisible houle.

Sourires du ciel mon foyer,
Cités proches et fraternelles,
Astres, ici vont se noyer
Et luire en retour vos prunelles.

O monde, rien n'est hors de moi:
Amas de biens, je te résume!
L'ayant vu, je cède à la Loi
Et tourne, étoile qui s'allume.

E. Perrot, Sept Chants de Taut, II



II
Saturnia Regna
in finem.Pro iis qui commutabuntur.
( Ps. XLIV, 1 )

O furieux amant, desserre ton étreinte:
Je suffoque, noyé dans le nuage d'or.
Aurais-je trop osé quand j'écartai la crainte
Pour consentir à toi, hâtant l'heure de mort.

Ta présence m'accable et disloque mon être
Comme la mer s'engouffre au coeur d'un vieux voilier.
J'appelais ce naufrage, et maintenant, ô maître,
Le feu noir de l'effroi ronge ce corps lié.

Les noces du soleil et de l'auguste Terre,
Le jeu divin, les hymnes du jour, les couleurs,
Tout a cessé d'un coup. Le temps n'est plus: j'adhère
A l'abîme, pays nouveau, maison des pleurs.

Le froid, le plomb, la puanteur sont mon partage.
Je vais tel un cadavre au milieu des vivants.
Leur parole ne m'atteint plus dans cette cage
Qui dérobe à mes bras ses murs tissés de vents.

Est-ce donc là le rendez-vous que tu désignes
Lorsque dès le matin tu presses de partir ?
Le cellier bienheureux, l'enclos pourpre des vignes
Figuraient cette tombe où je vins m'engloutir.

Suprême dérision: ce chercheur de merveille
Dans la boue enlisé grogne comme un pourceau.
Son front lourd de stupeur ne sait rien qui l'éveille:
Pierre muette, il gît, hébété, sous le flot.

- Il lui faut s'impregner du fiel de cette eau grasse,
Etreignant son destin, qu'il s'occupe à pourrir!
Qu'il s'accoutume à n'être plus qu'informe masse
Et laisse tout espoir de voir l'enfer s'ouvrir !

E. Perrot, Sept Chants de Taut, I



I
Liminaire Pour Epiménide

Epiménide de Gnose, étant sorti dans les champs,
entra, dit-on, dans une grotte et s'y endormit.
Le sommeil ne le quitta pas avant quarante ans.
Après quoi il écrivit des poèmes et purifia des villes,
au nombre desquelles Athènes.
( Pausanias: Descriptio Graeciae, I, XIV )

Lumière de l'automne, or souriant du soir
Où la branche en jouant répand sur moi des signes,
Tu m'annonces la paix et, douce, me désignes
Des jardins baignés d'eaux, mon nouveau reposoir.

J'ai durement peiné pour gagner ce royaume:
De mille vieilles peaux j'ai marqué les chemins.
Mais le grand vent des dieux brassa ces parchemins,
Nu comme les héros, sans traces, je suis l'homme.

O Terre des parfums et des fruits, Terre acquise
Par mes pleurs et mon sang, dis, que veux-tu de moi ?
Libre de tout devoir, recevrai-je ta Loi
Pour la porter en cet enfer où tout se brise ?

Le goût du paradis m'a quitté dans la mort,
Pierre durcie au feu j'ignore le plaisir.
D'une frêle herbe en moi tu fis un glaive fort:
Il est prêt pour ta main, si tu veux le saisir.

E. Perrot, Sept Chants de Taut, Prelude



Da autoria de Étienne Perrot, cuja obra foi pioneira nos estudos de divulgação da alquimia da alma, transcrevo estes poemas que ele escreveu na década de sessenta já a caminho do que seria o seu futuro de grande estudioso e divulgador destas matérias. Pela sua mão li eu, como tantos outros frequentadores do seu seminário de psicologia junguiana, a Atalanta Fugiens, Atalante Fugitive, de Michael Maier, de que ele tinha feito a tradução francesa para uma edição bilingue (agora de novo reeditada).

Prelude Virgilien

Grande Mère des fruits, grande Mère des hommes,
Je te salue, ô Terre de Saturne : j'ose
Entrer pour ton amour dans l'antique domaine
De gloire et libérer les sources d'eaux vivantes.
Dans des cités de fer je chante un chant d'étoiles.

Thursday, May 03, 2007

Arte da Paciencia



A alquimia é a arte da paciência.
Segundo Fulcanelli, esta representação que podemos ver na catedral de Notre-Dame de Paris contém a lição dos alquimistas sob forma de alegoria:
a cabeça da figura toca as nuvens
está sentada num trono
na mão esquerda segura o ceptro do poder
na mão direita um livro fechado e outro aberto
(o conhecimento esotérico e o exotérico)
a escada é a imagem mesma da paciência
(indispensável a quem deseje progredir no caminho)

Thursday, April 26, 2007

Mundo arquetipico I



Da universalidade do mundo arquetípico.
Dois quadros de Anselm Kiefer, inspirados em poemas de Paul Celan, levam-nos mais longe, atravessando o tempo e a memória arquetípica da condição humana.Das antigas raizes bíblicas, com a árvore de Jesse, somos conduzidos à leitura alquímica da obra da vida humana, simultâneamente dividida e una, à imagem e semelhança de um Criador interrogado e que nem sempre responde.
Vejam-se as ilustrações de um manuscrito anónimo do século XIV, que coloco em primeiro lugar e veja-se depois o conjunto de Kiefer sobre os textos de Celan.
A árvore que enraiza na cabeça é a do Conhecimento, a que enraiza no sexo é a da Vida. Da primeira o par primordial, Adão e Eva, comeram o fruto, ainda que proibido. (Re)conheceram-se a si próprios como "distintos" do resto da criação, ao adquirirem conscência da efemeridade da vida (simbolizada pela caveira). À segunda, da Vida, não tiveram acesso, sendo expulsos do Paraíso.Contudo, segundo lendas antigas, roubaram um pequeno ramo que levaram consigo e plantaram mais tarde, fazendo de uma árvore "seca" em aparência uma árvore verdejante e viva.
As duas árvores, com as suas raizes, constituem afinal o que é próprio da matéria humana, o ser corpórea e espiritual ao mesmo tempo.

Mundo Arquetipico II




E agora os quadros de Kiefer, meditando Celan, o incoformado com o silêncio da Deus.
Ambos datam de 1995: o primeiro, a grande flor na cabeça,tem por título Sol Invictus- ironia máxima, aludindo a um mundo que perdeu e talvez continue a perder a luz da razão (da racionalidade); o segundo tem por título Ash Flower, flor de cinza- aproximando-se então da essencia mesma da trágica poética de Celan, o que olha, vê e interroga permanentementa as cinzas, os restos, do que tinham sido as promesas de um Criador que não parece cumprir.
Como observa Andrea Lauterwein, no seu magnífico estudo " A divina promessa foi subvertida, pois embora a semente de Abraão seja numerosa como as estrelas, não brilham estrelas na noite escura, o contrato com Deus foi quebrado,'em nenhum lado/ se pergunta por nós' ".
( A.Lauterwein: Anselm Kiefer,Paul Celan, Myth Mourning and Memory,Thames and Hudson, 2007 )

As flores são girassóis, por dolorosa ironia. Não brilha o sol, apenas se elevam as cinzas que o sopro do vento espalhará sobre a memória do mundo.Inverte-se aqui o simbolismo alquímico da árvore de Jesse, que Celan refere num dos seus poemas ( RADIX MATRIX, 1961 ):
....
Quem
quem era, aquela
raça, a que foi assassinada, aquela
que negra se ergue no céu:
testículo e pénis -?


(Raiz.
Raiz de Abraão.Raiz de Jesse.Raiz
de ninguém -oh
nossa. )

Leia-se ainda outro poema em que a mesma presença, invertida, do símbolo se manifesta. Escrito em 1970, será um dos últimos que envia a uma amiga e confidente:

MUDANÇA DE LUGAR

Mudança de lugar entre as substâncias:
vai tu para ti, junta-te
à luz telúrica
desaparecida,

dizem-me que fomos
uma planta celeste,
terá de ser provado, a
partir de cima, ao
longo das nossas raizes,

há dois sóis, ouves,
dois,
não um-
sim, e depois ?

Nunca neste poeta se realizará a desejada Conjunção feliz, o corpo sofreu damasiado para que o espírito se liberte. Com Celan , nesta alquimia invertida, a Obra que é a Vida regressa à mais profunda Nigredo.

Monday, April 23, 2007

O Templo de Pessoa



Pessoa e a destruição do Templo.
Agora que estão na moda todos os esoterismos possíveis e impossíveis convém de vez em quando lembrar vozes, como as de Fernando Pessoa, que em toda a sinceridade alertavam para o que há de perigoso em todo e qualquer mistério. É no espólio, nos fragmentos (alguns que publiquei,com o título de O Pensamento Esotérico de Fernando Pessoa, ed.ETC. 1990 ) que iremos encontrar considerações que nascem de uma cuidada reflexão, por muito estranha que hoje nos possa parecer. Paulinho Assunção diria que somos todos "voltaireanos" -veja-se o texto do seu blog. Talvez tenha razão. Já ficam longe as utopias, deste Templo pessoano ou de outros, mais interventivos, mas em que também já poucos acreditam e ainda menos se dispõem a fazer por eles qualquer espécie de sacrifício.
A moral relativista matou a utopia no homem.
Mas não havia ainda relativismo no tempo de Pessoa e a marca esotérica, sendo forte, alimentava a chama. Eis Pessoa, em parte das considerações de que simplifiquei apenas a escrita para facilitar a leitura:

"A Destruição do Templo
( Introdução à história moderna)

A simbólica da destruição do templo nos fenómenos da crucifixão no Quarto Evangelho.O 'sangue' e a 'água' que correm da ferida.
A destruição do Templo quer dizer a 'ruina' dos mistérios , e o desastre que foi o derramar pelo mundo e pela humanidade das doutrinas esotéricas, que por natureza se não destinam a ser divulgadas.(Divulgar é destruir, porque a doutrina oculta, divulgada, passa para quem não a pode compreender e que portanto (1) a deturpa na interpretação; (2) a deturpa ainda mais na acção.)
As duas 'divulgações' são a da esotérica como exotérica (ex.o Crisitianismo e sobretudo o Cristianismo bíblico, pois a Bíblia é ininteligível e absurda sem a chave 'alquímica', por assim dizer que a interpreta) e a da exotérica como falsa esotérica, nas irmandades secretas, etc. que já não eram depositárias da verdadeira doutrina esotérica, mas de fragmentos muitas delas.
A reconstrução do Templo, a segunda vinda de Cristo (os dois símbolos significam o mesmo sentido) dada pela mística cristã sob as duas formas de 'fim do mundo', ou 'fim da fé (?)', ou ainda 'Juizo Final'.
Das sociedades herdeiras (?) dos antigos detentores da Ciência sobrehumana só uma, cohecida vulgarmente por a Rosa-Cruz, verdadeiramente herda a verdadeira Ciência. Esta misteriosa Fraternidade, de quem ninguém pode ao certo afirmar nada, tampouco sequer sonhar que coneheceu um dos seus adeptos, vela-se por completo da realidade, veio através das épocas ocultas em meio da vida e dos povos.
A iniciação nas sociedades secretas é uma mímica deteriorada,uma figuração em plano inferior da iniciação verdadeira.-O ceremonial maçónico, por exemplo, como o trabalho alquímico, é 'simbólico' ; não significa nem mesmo o que os 'iniciados' neste nível supõem que ele significa.
Ao homem vulgar, que queira entrar as portas do Oculto, diremos uma só coisa: não tentes ! O oculto é que nos procura, não nós a ele; pois, desde a Queda, não há livre-arbítrio. Não somos nós que olhamos para a Matéria; ela é que olha para nós.Colocando-se na passividade chamada mediumnica pode julgar que atinge outro mundos; não faz senão aprofundar a Ilusão, que, como é contínua com o mundo, é para nós verdadeira.
Esta frase é para quem a entende: a 'sublimação é pelo mercúrio'. Toda a iniciação está nisto."

Saturday, April 21, 2007

Meyrink, as doutrinas e os romances


Entre os grandes pensadores do esoterismo que Meyrink não só leu como conheceu, encontram-se G.R.S.Mead e Rudolf Steiner.
Com Mead correspondeu-se durante anos.Estes autores encontram-se também na biblioteca de Pessoa, o que mostra como era universal a cultura e a busca do nosso poeta e como o esoterismo era a "moda" para não dizer a tónica principal dos meios artísticos mais relevantes.Se algumas doutrinas descambaram em utopias milenaristas reprováveis, outras pugnaram por um discreto caminhar, de distanciamento das correntes visíveis e de entrega a caminhos pessoais, críticos, lúcidos ainda que em permanente interrogação. Também nisto Pessoa e Meyrink se encontram, sem saber.
Dos ocultistas que Meyrink apreciou salienta-se ainda BÔ YIN RÂ, embora mais uma vez, no fim dos seus anos, o nosso autor o tenha declarado má influência na medida em que muito do que verificou ser a sua doutrina não passasse de ilusão, de discurso vago e de tão vago sem substância e sem sentido.
Formalmente Meyrink não reconhece o que os seus romances contêm: cada um, um modelo de iniciação.É certo que este motivo, da iniciação, é sempre o mesmo. Mas o conteúdo que transparece no percurso do herói, sempre um inciando,varia conforme as doutrinas expostas:
Em Das gruene Gesicht ( O Rosto Verde) a doutrina é a do Yoga;em Der Golem ( O Golem, que dará nome e inspiraçao a um dos grandes filmes do Expressionismo) a doutrina é a da mística da Kabala; em Der weisse Dominikaner ( O Dominicano Branco) a doutrina é a do Tao mágico chinês com elementos da mística cristã; em Der Engel vom westlichen Fenster ( O Anjo da Janela do Ocidente ) a doutrina é a da transmutação alquímica.
Podemos apreciar mais ou menos, no estilo da Meyrink, a "marca" de época: alguma elaborada sofisticação que um leitor de hoje não apreciará. Mas há que chamar a atenção para a qualidade da prosa, sobretudo na descrição dos espaços: as suas cidades, seja Praga ( a Praga de Kafka) seja Amsterdão,ou outra tornam-se vivas e visíveis aos nossos olhos, a descrição é
cinematográfica, apelativa, envolvente.
Pondo de parte algum preciosismo, e last but not least, o facto de as figuras femininas servirem apenas para modelos sacrificiais que permitam ao herói uma "Conjunção" no além, um Casamento Químico, evitando no tempo e no espaço terreais a "contaminação" do impulso físico, não poderemos esquecer a lição que em cada romance é apresentada, e levaria um leitor mais atento a estudar ele próprio os complexos assuntos que o autor aborda.
Meyrink não facilita a vida ao seu leitor, dizia ao tempo alguma crítica.
É certo, mas os leitores devem merecer o que lêem...
BÔ YIN RÂ , voltando a ele e ao esfriamento de relações que se foi dando, foi capaz ainda assim de escrever em 1933, um ano após a morte de Meyrink: que tudo o que este escrevia resultava de "experiência própria" afastando a ideia de que só literariamente a escrita do seu ex-amigo e seguidor devia ser entendida.
A cadeia dos "Vivos" era longa e de longo magistério: tinham vencido vida e morte os seguintes: HU-TSU; ELIAS; HENOCH; MANI; APOLLONIUS; JOÃO EVANGELISTA; CHAITANYA; NOSTRADAMUS; CHRISTIAN ROSENKREUTZ; NICOLAS FLAMEL; etc.
Pela lápide no cemitério onde Meyrink foi enterrado supõe-se que o tenham considerado um deles.

Friday, April 20, 2007

Gustav Meyrink



Meyrink, um alquimista da alma.
Foi preciso chegar à decada de 90 para que a sua obra voltasse a ser divulgada. Para quem não leia alemão, a primeira tradução deste texto fundamental para a gnose moderna que é O DOMINICANO BRANCO data de 1994, e está disponível para quem deseje ler.
Neste romance, que decorre sob a égide de um monge catalão do século XII, Meyrink explora e explica um conjunto de tradições místicas, esotéricas,de cuja sabedoria se apropriou ao longo de muitos anos. A mais importante e talvez mais universal, pela antiguidade e simplicidade da "lição" é a do Taoismo. O Tao como Via de transmutação que permite ao indivíduo integrar-se na cadeia dos seres imortais cuja existência reconhece e a cuja revelação e identidade aspira, ainda que tendo de enfrentar múltiplos sofrimentos e perigos que a temível Medusa representa.
" O que em mim era corruptível foi consumido pelo fogo, transformado pela morte numa chama de vida".
" Dissolvido para sempre com cadáver e espada".
A quem já tenha lido o alquimista Zosimo este final se tornará muito mais claro. Ou o livro do Picatrix, outro texto de iniciação.
Naturalmente ler também o Tao Te Ching e ainda O Segredo da Flor de Ouro (estudado por Jung ) onde a magia do Tao se torna mais explícita.
De todo o modo será sempre de ler esta obra de Meyrink. O olhar de um ocidental sobre as antigas culturas e práticas orientais ajuda ao entendimento que possamos ter delas, sendo nós também produtos de um ocidente em busca de caminhos. Meyrink deixa o recado: não há utopias redentoras no imaginário do colectivo; só há caminhos individuais, cada elo da cadeia universal é forjado a par e passo, pelo esforço e pela escolha de cada um no seu momento.
A melhor biografia de Meyrink é de Frans Smit, Gustav Meyrink, auf der Suche nach dem Uebersinnlichen ( EM BUSCA DO SOBRENATURAL ) ed.Langen Mueller, 1988.
Nasce em 1868, vinte anos antes de Pessoa (que nasce em 1888) e morre em 1932 (Pessoa morrerá em 1935). Vivem na mesma época tendo as mesmas preocupações culturais, filosóficas e místicas, sob influencia do teosofismo de Blavatsky e Besant, do misticismo mágico da Golden Dawn,com os seus cabalistas, e procurando no imaginário da alquimia renascentista, de que John Dee é um expoente, a revelação mais ansiada.
Data de 1917 uma primeira edição completa da obra de Meyrink em 6 volumes. O Dominicano Branco, posterior, é publicado em 1921. Em 1923 publica o seu ensaio NA FRONTEIRA DO ALÉM e em 1925 o volume de contos HISTÓRIAS DO ALQUIMISTA.
Numa entrevista de 1922 afirma: " Estou cada vez mais convencido de que não sou "eu" quem escreve mas alguma coisa dentro de mim". Eco bem pessoano de muitas afirmações : há um espírito do tempo naquele período de entre as duas guerras que se manifesta em muitos criadores ainda que sem se conhecerem uns aos outros. Comungam da mesma inquietação, da mesma ansiedade de saber mais, de empurrar as fronteiras do conhecimento do além dentro de si.
Meyrink repudiará, a dada altura, a busca e a prática da mediumnidade, da magia, seja branca ou negra, até do Yoga a que se entregou anos e anos a fio. Pediu que não se iludissem com a ideia de um mantra de auxílio; dizia: em todas as religiões há mantras, derivam do poder da palavra e não de outra força qualquer; a palavra amén, no crisitianismo, é um mantra tão poderoso como os outros.
De olhos abertos preparava já a sua morte, que desejava entregue e tranquila.

Wednesday, April 04, 2007

Kiefer-Celan, Das Einzige Licht



Este poema de Celan, A ÚNICA LUZ, escrito em Bucareste em 1946, inspira Kiefer nesta obra que é já, a seu modo, uma transmutação do negro, uma sublimação da matéria que assim se inscreve num espaço alquímico, simbólico, mítico, no sentido bachelardiano do termo.
Andrea Lauterwein exprime deste modo a sua percepção da obra de um e outro, Kiefer e Celan:
" A literarização do campo metafórico das obras de Kiefer encontra paralelo na materialização da fenomenologia poética de Celan. Os dados físicos dos paradigmas celanianos- a escuridão, o fosso, o resíduo, a profundidade, a pedra, a terra, o cabelo, a areia- oferecem uma estrutura de acolhimento que Kiefer transfere para a concepção do quadro...É com esta imaginação da matéria, no sentido Bachelardiano. que a poesia de celan inventa uma nova categoria de sublimeqie permite exprimir o horror...A partir desta dimensão mnemotécnica destes materiais Kiefer inventa a suas alegorias privadas: a palha, o chumbo e a areia...A palha transforma-se em cinza, o chumbo é purificado e a areia não arde." ( pp.225-6 , in Anselm Kiefer et la poésie de Paul Celan, Éditons du Regard, cit.infra).
Vale a pena falar do chumbo sublimado que é o segredo da obra, de ambos os artiatas: um dando voz ao horror, outro recuperando a memória.O que se procura na obra de Celan não é a biografia, embora ela não possa ser esquecida, mas o SENTIDO que a move e orienta, essa luz única, ora clara ora negra,que se materializa na espessura da matéria do poema. Se o Deus de Jacob se retirou só a palavra do homem poderá preencher o seu vazio, só a palavra que o interpele, como fez Job, no auge do sofrimento.

Paul Celan em português:
SETE ROSAS MAIS TARDE,trad.João BARRENTO/Y.K.CENTENO,ed. Cotovia
A MORTE É UMA FLÔR, trad.João BARRENTO,ed.Cotovia
ARTE POÉTICA, trad.João BARRENTO,ed.Cotovia

Kiefer e Celan



Continuando com esta relação entre Kiefer e Celan vejamos os quadros mais recentes, de 2005, na série que foi dedicada ao poeta. Um dos mais belos óleos tem por título O SANGUE CELESTE DE JACOB ABENÇOADO PELAS ACHAS-PARA PAUL CELAN.
Sobre as achas de lenha que alimentarão o fogo do sacrifício, do extermínio, ergue-se o LIVRO , negro, ele próprio queimado e tornado ilegível no seu conteúdo antigo, prometido.
Negro, esse Livro das Promessas falhadas aguarda transformação.
Mas num primeiro momento o que é preciso é recordar.A memória do tempo, feita espaço, como no reino do Graal wagneriano, obriga Deus ao confronto consigo próprio, interpelando-o-pela palavra e pela imagem, obriga a consciência a confrontar-se com o seus impulsos mais profundos, operando a mutação necessária no inconsciente que lhe dá forma e suporte.

Celan e Anselm Kiefer



De Andrea Lauterwein a belíssima edição em francês ( Éditions du REGARD,Paris,2006) do que foi inicialmente a sua dissertação de Doutoramento sobre a obra do pintor Anselm Kiefer e a poesia de Paul Celan que ela, como tantos de nós, considerou um dos grandes do século XX.
Kiefer trabalha por grandes ciclos poetico-simbólicos os temas que foram fundadores de uma nova maneira de dizer. Contrariando os que entendiam que depois do holocausto não mais se poderia escrever, ainda menos " sentir " o impulso do poema, Celan veio mostrar que o Dizer era imperativo, pois dizendo relia-se a história ( a vida ) e a humanidade nesse confronto consigo mesma, seus percursos de negra contradição, poderia talvez nalgum futuro distante vir ainda a ser salva.
Não espantará o estudioso que Kiefer tenha sido também, nos seus quadros, um intérprete do mistério wagneriano, interrogando a lição mais profunda que tanto se encontra na Tetralogia como no Parsifal : a do sentido do mito. Também o que encontramos na obra de Celan é essa dolorosa e permanente interrogação. Wagner tenta decifrar a alma pagã (dita mais pura) para chegar a uma ideia universal de cristianização, Celan debate-se com a promessa do Deus do Antigo Testamento, promessa feita a Jacob, na escada de mediação entre o céu e a terra - e Anselm Kiefer interroga ambos os criadores, um que foi o "pai mítico" de uma geração enganada e outro que foi a vítima inocente dessa mesma geração.
No capítulo da "Mémoire des Mythes" lemos em epígrafe a nota de Kiefer:
" O meu pensamento é vertical
e um dos planos era o fascismo.
Mas vejo todas as camadas."

Ou ainda: "A minha biografia é a biografia da Alemanha".

Anselm Kiefer nasceu a 8 de Março de 1945 em Donauschingen, num país aniquilado, que em 1949 será a República Federal da Alemanha.Ficando do lado ocidental, Kiefer fará parte da "segunda geração" que vai crescer com a memória da derrota e da culpa, embora não tenha já crescido sob a influência do regime nazi.
Nesta geração, os artistas transitam da herança do mito germânico da arte para o mito da herança da arte ocidental, muito sob a influência dos Estados Unidos. Mas Kiefer entende defender o direito à especificidade da arte e da cultura de cada nação e também, como é óbvio, da sua. Assim se demarca dos caminho dos outros e segue o seu caminho, difícil como o caminho que ele desenha para Siegfried, na busca de Brunhilde.
Não veremos nele a marca da arte do Bauhaus, o movimento fundador do modernismo alemão, e ainda menos qualquer marca do "Formalismo" vigente, mais próprio do design do que de outra coisa, na sua opinião. Para ele era imperioso ultrapassar essa "hora zero".
E o mito veio então preencher esse vazio, enterrando a sua raiz profunda na pintura e na poesia, da mais ambiciosa à mais modesta palavra proferida.
Em 1989, numa instalação que intitulou PAVOT ET MÉMOIRE/ L'ANGE DE L'HISTOIRE, inspirada em Walter Benjamin e em Paul Celan, Kiefer inscreve, nas palavras da sua estudiosa, A.Lauterwein, " a simultaneidade histórica da Shoah no coração do mito Beuysiano" (p. 51 ). Lembro que Beuys era à época o artista que trouxera à arte o elemento do quotidiano banal como realidade suprema. Kiefer não aceita a banalização da arte, como Celan não aceitará a banalização da palavra poética.

Friday, February 23, 2007

Celan o Branco e o Todo

Continuando com este percurso feito ao de leve pelos poemas de Paul Celan, detenho-me no Branco, que ao invés do que se esperaria (mas nada na sua obra corresponde ao que se possa esperar) nos atira para a ferida da fragmentação, da alma quebrada como o cântaro de Pessoa.
Não admira que Celan se tenha interessado pela obra de Pessoa, a ponto de traduzir alguns dos seus versos.É a mesma fractura inultrapassável que os consome a ambos.
Eis o branco de que falo:

QUANDO O BRANCO NOS AGREDIU,de noite;
quando do púcaro das esmolas saiu
mais do que água;
quando o joelho esfolado
fez sinal à campaínha do sacrifício:
Voa!-

Então
estava eu
ainda inteiro.

A data atribuída a este poema é 15.2. 1964, para a última estrofe.No mesmo dia escreveu HELLIGSKEITHUNGER, FOME DE CLARIDADE.
Em versões posteriores, talvez por gralha depois aceite pelo poeta, temos em vez de Opferglocke,campaínha do sacrifício,a palavra Opferlocke, caracol do sacrifício- o que nos remeteria para o "caracol de judeu" de um outro poema, como Mandorla, por exemplo, onde escreve "caracol de judeu,não envelheces " (referindo-se ao modo de entrançar o cabelo que os judeus ortodoxos mantêm ainda hoje).
Contudo o sentido de "du wirst nicht grau", não envelheces, amplia-se lendo o poema ÁLAMO (ESPENBAUM) onde a morte cruel e prematura da mãe nos é contada, usando a mesma imagem do cabelo que não chega a poder branquear com a idade; tal não foi permitido...

ÁLAMO

Álamo,a tua folhagem espreita branca na escuridão.
O cabelo da minha mãe nunca foi branco.

Dente-de-leão, verde como tu é a Ucrânia.
A minha loura mãe não voltou para casa.

Nuvem de chuva, demoras-te nas fontes?
Minha mãe silenciosa chora por todos.

Estrela redonda, atas o nó de ouro.
O coração da minha mãe foi ferido com chumbo.

Porta de carvalho,quem te desengonçou ?
A minha suave mãe não pode vir.


Escrito em 1945, em Bucareste, relembrando a mãe, assassinada na Ucrânia, no campo de concentração alemão Michailowka de Gaissin, no Inverno de 42-43.
A ler com Mandorla, que também aqui trarei em breve.

Tuesday, February 20, 2007

Chymisch, Alquimico

Alquímico este poema, escrito em 1961, onde a marca mais forte é a da BODAS QUÍMICAS de Christian-Rosenkreutz... manifesto fundador do Rosicrucismo alemão e europeu, cujo autor, Johann Valentin Andreae, durante algum tempo se escondeu em anonimato tranquilo. Na realidade é uma obra do século XVII que conheceu grande sucesso, imediata divulgação e foi, já nos séculos XVIII- XX estudada e recriada por adeptos e poetas que nela bebiam a sua inspiração: Goethe foi um deles, Pessoa também citou, talvez em segunda mão V.Andreae, mas houve muitos mais, sobretudo os praticantes do surrealismo bebido em Freud ou na teosofia em moda.
Yvan Goll terá sido uma das influências que neste campo Paul Celan sofreu. Magia e alquimia faziam parte da experimentação, da alquimia do Verbo, Breton não esquecia o seu Rimbaud e todos bebiam num imaginário mais luminosos ou mais obscuro, conforme a sensibilidade de cada um.
Em Celan não é de admirar que a sombra brilhe mais do que o sol.
Para completar o nosso entendimento desta alquimia da alma, que nada tem a ver com a transmutação do chumbo real em ouro possível, será útil ler ainda poemas como GELO, EDEN ; SOLVE,COAGULA e alguns outros em que elementos como o fogo e a água tomam parte, metaforica e simbolicamente.
Mas passemos a Químico, ou Alquímico, como prefiro agora. Faz parte do conjunto intitulado A ROSA DE NINGUÉM, onde se incluem os referidos acima, e outros de igual valor, como TERRA NEGRA ( sendo a terra negra a materia prima da Obra alquímica, como se sabe ).

ALQUÍMICO

Silêncio, derretido como ouro, em
mãos
carbonizadas.

Grande, cinzenta,
próxima como tudo o que se perdeu
forma-irmã:

Todos os nomes, todos aqueles
nomes queimados
em conjunto.Tanta
cinza para abençoar.Tanta
terra ganha
sobre
os leves, tão leves
anéis
da alma.

Grande. Cinzenta. Sem
escórias.

Tu, outrora.
Tu com a pálida
flôr mordida.
Tu na torrente de vinho.

(Não é verdade que também a nós
nos despediu este relógio?
Bem,
bem, como a tua palavra morreu passando por aqui.)

Silêncio, derretido como ouro, em
mãos
carbonizadas, carbonizadas.
Dedos, finos como fumo. Como coroas, coroas de ar
em--

Grande. Cinzenta.Sem
rasto.
Ré-
gia.


Deixo que o leitor abra o texto e o respire, lembrando que pode ainda ler mais, em A VIA RÉGIA,do ciclo "A Cerca do Tempo".
Verificará que o caminho de sublimação da via alquímica é aqui impedido por uma dissolução ( do ouro que se derrete) nas trevas, nas cinzas das mãos carbonizadas. Nigredo poderia ser o outro, verdadeiro nome do poema.

Monday, February 19, 2007

Paul Celan


O eco do Génesis, no poema EINMAL de Paul Celan fez-me pensar num verso de um outro poema, CELLO EINSATZ em que conclui que "tudo é menos/ do que é/ tudo é mais".
Em EINMAL, que vou traduzir por UM DIA, podemos ler:

Um dia,
consegui ouvi-lo,
estava a lavar o mundo,
sem ser visto, durante toda a noite,
de verdade.

Uno e Infinito,
aniquilado,
feito eu.

E fez-se luz. Salvação.


Ponderei bem a escolha dos termos nesta versão que implica, como em tudo, uma margem de interpretação ou escolha mais livre e pesoal do que outras existentes.
O que é, ou parece menos, neste poema, devido à condensação própria da poética de Celan é, na verdade, muito mais.
Por uma vez temos aqui um movimento próximo do que podemos denominar "teologia positiva" em contraposição ao sofrimento do silêncio e distância que caracteriza a relação do poeta com o seu Deus, o Deus do Antigo Testamento, que deixou desabar sobre a humanidade flagelos ainda piores do que aqueles com que afligiu Job a dada altura.
A obra de purificação que o gesto de lavar implica leva-nos a todas as imagens que na alquimia permitem ler/ver o processo da transmutação. Por um lado a lavagem é dita "obra da mulher", mas por outro vemos em inúmers gravuras, ao longo dos séculos, como é na água que se dá a conjunção de opostos, como é da água que sai o coral vermelho da perfeição, como no mar se figuram em união o corpo, o espírito e a alma do adepto.

A Água, pois, como elemento primordial : fala-se no Génesis da criação dos céus e da terra, esta como vazio informe, coberto de trevas, e do espírito de Deus pairando sobre as águas.
E logo no primeiro momento o que Deus ordena é: Faça-se luz, e fez-se luz, que Deus separou da escuridão das trevas; assim nasceram o dia a noite - o primeiro dia.
Adiante Deus surgirá arrependido de ter criado o mundo, o homem, todas as criaturas vivas, e por meio do dilúvio decide apagar o seu primeiro gesto do princípio dos tempos.Mas Noé comove o seu coração, e será concedida uma última oportunidade à sua geração e de todos os seres que ele transporte na arca.
O Antigo Testamento abunda em episódios de amor, lamento, castigo e redenção de um Deus em litígio e sempre aberto à esperança de uma humanidade melhor que não se vê chegar.

Tal como JOB, Celan interpela o Senhor uma e outra vez: não o vê, não o ouve, espera um sinal que o redima, também a ele, no meio de tão grande tortura, a do negro da alma, que o afundará anos mais tarde.
Este poema, de uma única vez, de um dia, em que conseguiu ver Deus a lavar o mundo, como se lavasse a Pedra da Perfeição para dela extrair o ouro da perfeição humana, é dos poucos em que a Redenção é proclamada, junto com o Fiat da luz.

O "fazer-se eu" do poema inaugura um outro, novo, momento da existência: Deus fez-se carne, fez-se homem, passou a habitar entre nós, incarnou também com a sua luz na alma do poeta destroçado.
Mas a passagem do Antigo para o Novo Testamento não foi fácil, neste caso, e durou só o instante do poema, de tal forma foi pesada a marca que a perseguição nazi deixou por todo o lado.
A metáfora alquímica em Celan funciona sempre ao contrário da Obra conseguida. Mão tremenda a interrompe, a que encontramos nas LAMENTAÇÕES:


"Eu sou o homem que conheceu a miséria
sob a vara de seu furor.
Ele me guiou e me fez andar
na treva e não na luz;
só contra mim está ele volvendo e revolvendo
sua mão todo o dia".
(2-3)

A leitura de Celan implica que se leia o todo na parte, sempre o Todo, para chegar a um mais profundo entendimento.
EINMAL data de 1965. Em carta a Gisèle Celan-Lestrange escreve o poeta que este é um dos textos que, junto com TODESFUGE, pode formar um ciclo.
Haverá ainda outro EINMAL:

Einmal, der Tod hatte Zulauf,
verbargst du dich in mir.

Um dia, a morte tinha grande procura,
tu escondeste-te em mim.

Este é um poema datado de 1967, que Celan refere ter escrito na mesma altura que SINK:

À letra, poderia ser traduzido assim o primeiro verso:" Afunda-me bem no teu sovaco..."
Mas tomo a liberdade de escolher outra via:

Esconde-me
debaixo do braço,

leva também
o bater do pulso,

esconde-te nele,
lá fora.


Os críticos sugerem que se relacione este verso, esconder-se, com o que vimos acima, em "Einmal".
Mas devemos ir mais longe, neste caminho de inversão alquímica: é Deus "feito eu", ou seja, incarnado no homem de que foi criador e parece ter abandonado, que precisa de esconder-se, bem fundo, afundando-se no bater do pulso (do corpo) que lhe é oferecido lá fora, no espaço do sofrimento.
Noutro poema do mesmo ciclo ( LICHTZWANG, A FORÇA DA LUZ )podemos ler como o "tu" que é Deus vai morrendo no homem:

Afasta de vez
os cones de luz:

a treva guarda
a palavra balbuciante .


Poesia terrível, de fim de ciclo, de fim de mundo, de utopia adiada que nem a leitura do LIVRO permite que se aguarde: Celan "comerá " o Livro, com as suas insígnias, esta é a marca do seu Apocalipse.

Agora que os genuflexórios ardem,
como eu o Livro
com todas as
Insígnias.

Os estudiosos podem hoje mais facilmente aceder à Obra Completa de Paul Celan, por ex. nesta edição de que me servi: Paul Celan, die Gedichte, Kommentierte Gesamtausgabe, Suhrkamp, 2005.
É uma excelente edição num só volume, editado e comentado por Barbara Wiedemann.
Refiro ainda, para quem deseje um estudo histórico-crítico aprofundado, a edição de Bonn:
BONNER AUSGABE,Werke.Historisch-kritische Ausgabe, 1. Abteilung:Lyrik und Prosa ( estão publicados 10 volumes e seguem-se outros )

Tuesday, January 23, 2007

Alchimie et Imagination Active


Alquimia e Imaginação Activa.
Mais uma lição magistral de Marie-Louise von Franz, a discípula de Jung, fazendo desta vez a análise a par e passo de uma obra de Gerhard Dorn, autor do século XVI. Seguidor de Paracelso, Dorn tenta conciliar no seu tratado as doutrinas místicas do cristianismo com as meditações hermético-alquímicas do seu tempo.
Claramente dá a entender que todos os processos de transformação desejados e obtidos se reportam ao homem, na carne e no espírito, embora possam ser contemplados na matéria, em laboratório.Quer se procure ouro, quer o elixir salvífico, quer a adivinhação pelos quatro elementos, é sempre de projecções da alma que se trata, de imagens do inconsciente que na psique do adepto se revelam como formas em primeiro lugar exteriores para depois serem entendidas como formas profundas do seu ser. Não renegando o espírito cristão em que foi educado, Dorn salienta, sempre que vem a propósito, a necessidade da fé, da prática de uma vida virtuosa, que só ela poderá conferir o Poder de Transformação ambicionado.
" Quando a conjunção entre o exterior e o interior é produzida positivamente, em vez de uma explosão do consciente o que acontece é uma união do consciente com o inconsciente colectivo, um alargamento do consciente em simultâneo com uma diminuição de intensidade dos desejos do complexo do eu. Quando isso se produz o eu retira-se a favor do inconsciente colectivo e do seu centro, o Em-Si" ( le Soi, que traduzo aqui deste modo, pag. 152).
Conclui M-L von Franz que atingir o ponto em que realidade interior e realidade exterior se unem é o objectivo para o qual tende o processo de individuação; aquilo a que Jung chama " o saber absoluto", que reside no inconsciente.

A edição original desta obra de M-L von Franz data de 1978: Active Imagination and Alchemy.
A edição francesa é de 1989, com reedição de 2006.
A tradução francesa é de autoria de Francine Saint-René Taillander-Perrot, de formação junguiana ela também, editora durante largos anos das colecções de LA FONTAINE DE PIERRE, agora retomadas pelas edições Jacqueline Renard.

Reguengos


Afloramentos rochosos
de granito e de xisto
as ossadas da terra.
No meio dos arbustos
trevos de quatro folhas.

Wednesday, January 17, 2007

O seu a seu dono



"Atire a primeira pedra...

A uma certa distância julgamos que sabemos e percebemos a realidade
que nos é dada a ver.
Mas, quando chegamos mais perto, percebemos que fomos enganados.
A imagem, como mero reflexo do objecto que o representa, traiu e atraiu-nos.
Ao aproximar, o nosso olhar é guiado para dentro (do quadro, quadrado).
A seguir é atraído aínda mais para dentro (no círculo, sem início nem fim),
mantendo-se cativo do jogo de luz e de sombra, de cor e de forma, num
equilíbirio aparente entre o cáos e a ordem.
Aqui encontra-se a porta para um outro mundo, desdobram-se os significados,
analogias e conceitos.
Viramos o nosso olhar para aquilo que se reflecte por detras do espelho.
Entra-se nas entrelinhas.
Ao entrar para o interior, o quadro abre-se para o exterior, torna-se uma obra
aberta, que aponta para várias leituras em várias direcções. Iluminadas,
como os raios de sol em leque, as analogias e simbologias.
Assim, suspenso entre o que é e o que parece ser, no reflexo do conteudo na
forma e da alma no corpo, existe a comunicação e encontra(m)-se significado(s)."

( Inez Wijnhorst )

As Pedras de INEZ W.


Ou melhor, as Pedras no caminho de Inez.
Foi Gerhard Dorn, alquimista, quem na senda de Paracelso mais contribuiu para divulgar a visão simbólica da Arte e da Pedra Filosofal, com o seguinte apelo: " transformai-vos em pedras filosofais vivas ! "
Acabava assim a ideia de uma pura e simples magia operativa, laboratorial, que já Zosimo, o mais interessante alquimista do círculo de Alexandria, no século III da nossa era, tinha tentado combater.
A via hermética era apresentada como um caminho mais secreto e mais íntimo ( e também mais lento e mais difícil ) de aperfeiçoamento individual. O homem era a Pedra, e as transformações teriam de dar-se no seu espírito e na sua alma, talvez também com a esperança de que viessem a iluminar de algum modo o corpo.
Símbolos lendários como o da Taça do Graal, da Pedra Filosofal, do Elixir de Vida deviam ser entendidos como modelos ou arquétipos de transformação e não mais do que isso. Imagens ou ideias-força que ajudam a seguir caminho. Como dizia Gurnemanz a Parsifal ( na ópera de Wagner ) o caminho faz-se caminhando, afirmação que deixou perplexo o jovem herói mas não o impediu de progredir.
As pedras que Inez foi reunindo ao longo do seu caminho não são as marcas do pequeno polegar que deseja antes de mais um feliz regresso a casa ( o regresso à infância ).
Com as pedras que reuniu, Inez constrói um MANDALA: um objecto místico e mágico, um círculo de meditação, centrípeto na sua dinâmica, que se oferece ao nosso olhar para que nele "fixemos", usando linguagem alquímica, tudo o que em nós se dispersa e distrai, volatilizando as energias que nos constituem.
A concentração nas pedras - que são, no dizer de outros hermetistas, os ossos da terra - é a concentração no corpo da vida, na manifestação do mundo criado que ali, naquele círculo, se condensa e revela.
No coração das pedras bate ocultamente a vida, organiza-se a memória profunda da espécie, liberta-se o espírito das cargas mais pesadas.
O Mandala é um círculo de perfeição. Evoco o dizer de Nicolau de Cusa, em A Douta Ignorância:
" O círculo é a figura perfeita da unidade e da simplicidade". Nicolau de Cusa diz linha, triângulo, círculo, circumferencia, esfera, -diz o Todo em Um, não lhe repugnando citar no seu tratado o antigo Hermes (cap.24, 75. ). É esta a imaginação activa a que as pedras de Inez também nos convocam.
E concluo com Nicolau de Cusa:
" Quem pode, pois, entender a unidade infinita, infinitamente anterior a qualquer oposição, onde todas as coisas são complicadas, sem composição, na simplicidade da unidade, onde não há o outro ou o diferente, onde o homem não difere do leão, e o céu não difere da terra, e onde, todavia, cada uma destas coisas é verdadeiramente ela própria, não segundo a sua finitude, mas ( enquanto é ) de um modo complicado a própria unidade máxima ? " (77, trad. de João Maria André, ed. Gulbenkian ).
Entender não é possível, por esforço do intelecto, a unidade da criação do mundo e do homem - inscritos na unidade maior da divindade que em simultâneo se oculta, se manifesta e se revela.
Mas contemplar no finito o infinito para que aponta, descobrir na pedra a pulsação da terra, a Grande-Mãe, o corpo primordial, é esse o desafio de Inez..

Friday, January 12, 2007

INEZ WIJNHORST a Mutus Liber for our century



A propos JACOBS LADDERS , I quote the words of Inez herself, presenting the series of drawings she created in 2005:
"Since Jacob woke up, his ladder connecting heaven earth no longer exists. Humans have no longer acces to the higher spheres and the winged angels dare not surpass the ever growing distance.
These drawings are an attempt to reestablish this lost connection. They are objects to climb and help you up.The trip is difficult, maybe unstable or dangerous, but the less fearful might get to the top and the even braver ones, the ones that are not afraid of the fall, dare to jump from there and grab a cloud or a slip of an angels dress and see a glimps of destiny".

Poetical description of a mystical, alchemical vision, such as the one given in the old 1677 MUTUS LIBER, printed in La Rochelle.
The process is described as "solve et coagula" - a dissolution and coagulation taking place in the soul, transforming feelings,dreams, images, intuitions into something more than words could describe. We have here, in this artistic transmutation, a true mute book in the sense that the message it conveys is kept in the secret of the images. Images are our Art of Memory, as Frances Yates has so well explained. But images are also the way of expressing our deepest search, our Quest for a world that is "other " in many senses, the "otherness" hidden in our Unconscious, the Eyes described by alchemists when they say we have acquired new eyes: oculatus abis ( you leave with eyes) .
This magical opening of the eyes is something we get through Inez's experience of the ladders. Mystical, mythical, and also everyday ladders.
As she put in another painting-poem:

" a thread of Spring
a sort of shadow,
of the being of what I am."

( in Uma história mal contada)

To discover what we are, the mission (im)possible, the occult sense of those beautifully described ladders.

El Escorial



Entro em 2007 com uma prenda de uma amiga espanhola que se transformou em rei mago e me trouxe, das edições Siruela, esta magnífica obra. O autor é René Taylor, e faz neste volume as suas considerações sobre a Ideia que presidiu à construção de El Escorial.
Depreende-se que a ideia é a de que o edifício foi imaginado "nas pedras, nos frescos e na planta de construção" como um memorial dos conhecimentos ocultos da época, dando testemunho do que o rei Filipe II desejou que fosse uma obra de construção e significados mágicos.
O rei possuía na sua biblioteca a MONAS HIEROGLYPHICA de John Dee, mago e alquimista, astrólogo da rainha Isabel I de Inglaterra, a quem deveu a protecção que lhe permitia, na sua quinta dos arredores de Londres, desenvolver em sossego as suas ideias e experiências, que vieram a culminar nesta obra, celebrada em todo o lado como matriz de reflexão alquímica e mística, pondo a descoberto os segredos da criação do universo e do mundo.
A Monas é um tratado relativamente breve, que apela à imaginação contemplativa, exercida sobre a imagem que detém o segredo e consta de rectas, círculos e pontos.
Dee afirmava ter encontrado a síntese do universo.
Devidamente contemplada, a imagem que nos oferecia ficaria gravada na mente, seria assimilada pelo intelecto e provocaria na psique uma transformação do homem nessa mónada contemplada. Para Dee, alquimista místico, o milagre da revelação dar-se-ia tanto no laboratório como no espírito do homem iniciado. ( Ver René Taylor, p. 32).
De grande interesse é a listagem das obras herméticas, clássicas e medievais que se encontram na biblioteca do rei, tanto quanto alguma correspondencia que revela o seu paciente patrocínio da arte do ouro, embora sem resultados conclusivos. O seu secretário Pedro de Hoyo ia narrando as experiências de transmutação, com a esperança de que o denominado mestre alcançasse a boa transmutação do chumbo e da prata em ouro. O rei aceitou com magnanimidade os insucessos. Saborosa é uma das cartas em que Hoyo informa que "...el que sabe aquel negocio se había ido a su casa con una buena xaqueca" .
(p. 146 )

Saturday, December 16, 2006

Fogo e Agua



A imagem representa a união dos opostos; trata-se de uma representação indiana da conjunção do fogo e da água, tendo as figuras quatro mãos cada uma, mais um sinal da quaternidade perfeita.

A chama sobre o lago:
fogo e água.

Friday, December 15, 2006

George Ripley



Na Inglaterra do século XVI o pensamento hermético floresceu de modo intenso e livre, talvez porque os sucessos e atribulações do reino no tempo de Isabel I despertassem na rainha como nos seus súbditos uma curiosidade maior sobre os seus destinos e os destinos do mundo.
John Dee fora astrólogo real, para além das suas muitas outras qualificações.
George Ripley foi de igual modo influente, no pensamento como na acção, não se coibindo de descrever em pormenor o elixir de longa vida cujo segredo lhe foi revelado numa visão que descreve.
A obra que apresento aqui recupera a edição de 1591, para a tradução francesa, com introdução e notas de Bernard BIEBEL,ed. GUY TRÉDANIEL, 1992.
Contém as DOZE PORTAS DA ALQUIMIA, A VISÂO DO CAVALEIRO GEORGE e o TRATADO DO MERCÚRIO.
Na VIsão conta como um sapo se transforma diante dos seus olhos passando o seu corpo pelas três fases indicativas da obra: a nigredo, a cauda pavonis, a albedo e por fim a rubedo, côr que se fixa não se alterando mais; a partir daí, diz Ripley, preparou a sua Medicina, "que mata e que cura o que se arrisca a tomá-la".

Frances Yates, em THE OCCULT PHILOSOPHY IN THE ELIZABETHAN AGE (impres. digital 2006 ) chama a atenção para a herança medieval ( com LULL) e renascentista com Pico della Mirandola nesta paixão pelas matérias ocultas que se verifica na Inglaterra do século XVI. John Dee, o mago da corte será a figura mais marcante, mas Ripley é outro dos autores a salientar.
A marca do imaginário hermético pode encontrar-se em Shakespeare, no seu Próspero ( The Tempest ) ;
o gosto ( ou o medo) de feitiços e bruxas também é testemunhado no dramaturgo, e Yates dedica um capítulo do seu livro precisamente a " Shakespearean Fairies, Witches, Melancholy: King Lear and the Demons".
Os pactos com o diabo ou suas feiticeiras são conhecidos desde as aventuras de Fausto, de que Marlowe se ocupará;
os alquimistas serão tema da comédia paródica de Ben Jonson ( The Alchemist );
e em Spenser (The Faerie Queene ) Frances Yates encontra também a simbólica hermética neo-platónica de que Shakespeare e outros davam testemunho.
Na Europa vivia-se igual momento.Não é por acaso que Duerer grava a sua Melancolia 1 (1514 ), e Lucas Cranach pinta a sua bruxa melancólica ( 1528 ).
No quadro de Cranach vemos a jovem bruxa sentada a olhar para 4 crianças ( os quatro elementos ) no chão a brincar com um cão (sendo que o cão é o "fiel companheiro" da obra).

Dr. Dee


THE HIEROGLYPHIC MONAD.
Apresentação de Diane di Prima, expondo o que define como "memória criativa", tradução do latim e Introdução de J.W.Hamilton-Jones que considera John Dee e Edward Kelly, seu colaborador, como profundos conhecedores da ciência hermética. Na biblioteca de Dee encontravam-se obras de Roger Bacon, Alberto Magno, Arnaldo de Villa Nova, Avicenna entre outras, fazendo jus ao seu saber filosófico e alquímico.
A Monada transmite uma locubração matemática que permite igualmente uma meditação de carácter filosófico e hermético, sobre as transformações da materia prima . Escrita em treze dias, foi começada em Antuérpia a 13 de Janeiro de 1564 e terminada no dia 25 do mesmo mês.
Teve fama imediata e várias edições. O título da edição de Frankfurt, traduzido, reza assim :
" A Monada explicada hieroglifica- matematica- magica- cabalistica e anagogicamente". Ou seja, contendo nessa imagem da recta, do ponto e do circulo a possibilidade do entendimento do mistério do universo e do homem.
Bons cálculos e boa meditação aos amantes da arte.
Recordando a legenda do frontispício: " quem não percebe deve aprender ou calar-se ".

Tuesday, December 05, 2006

Alquimia e Misticismo




O alquimista.
Notre-Dame-de-Paris.

A Alquimia.
Baixo -relevo do grande pórtico de Notre-Dame-de-Paris.
Hierática, a figura sentada numa cadeira que a mandorla circular protege tem numa das mãos os livros da sabedoria, na outra o ceptro e apoiada no seu peito a escada que, tal como a escada de Jacob, permitirá chegar à esfera do conhecimento divino.

Ver Fulcanelli, Le Mystère des Cathédrales, Paris 1964
G.J.Witkowski, L'Art Profane à l'Église, Paris, 1908

Monday, December 04, 2006

The Art of Memory



O Silêncio Hermético.
Achilles Bocchius, Symbolicarum quaestionum...libri quinque, Bologna 1555.
Reproduzido em Frances Yates, THE ART OF MEMORY:
" The aim of the memory system is to establish within, in the psyche, the return of the intellect to unity through the organization of significant images".

( cap.9, Giordano Bruno, The Secret of Shadows )

Interessante será recuperar, para esta mesma ideia, a imagem do Anjo de Portugal com o mesmo gesto do silêncio, no Convento de Cristo de Tomar.

Sunday, December 03, 2006

Fortuna


Fortuna ( Tyche among the Greeks ) is "Chance deified and personified in a feminine deity. She was represented with the horn of plenty with a helm, because she is the one that 'steers' man's life, sometimes sitting, sometimes standing, almost always blind".
(Pierre Grimal)

Pequena estátua da Fortuna, do séc.1 d.C. encontrada em Torres Novas, Santarém.

Pode ser vista na exposição das Religiões da Lusitânia , nos Jerónimos.
A não perder.

Saturday, December 02, 2006

Cruzeiro Seixas


Cantemos os poetas enquanto estão vivos, ler os seus versos é como ver-nos ao espelho !


" Ali mesmo paredes meias com o fogo
estava talvez eu
olhando o tecto como se olha um prado
com rapidíssimos malmequeres descendo a abismos profundísimos
onde incessante murmurava uma fonte de trevas
de sangue de horror
verde-bronze.

Olho-me em função do que vejo nos outros
quero dizer
que os outros são o meu espelho.
Sou por compensação e por reacção
e assim espelho de feira
o desequilíbrio cósmico
não me é dado.

A minha problemática parte daqui.
Evidentemente que deveria ser o contrário disto
não ouvir não olhar não comparar
ser eu ainda
um oceano desconhecido.

Mas pelo contrário sei que sem os outros
não seria movimento;
tudo o que faço é como uma reacção à chicotada
que é minuto a minuto
o dia-a-dia.

Escrever ou pintar
não parecem forma de me encontrar
de me esconder de te encontrar.
....
Tudo o que faço e o que não faço
transcende de muito no entanto
o visível o palpável
o imaginável.

Entre mim e mim
há o infinito da proximidade.
...
Será que os espelhos
agem por medo
em estado de pânico ?

Cada peito uma rocha
e tudo espelhando a dissonancia
como uma jangada enquanto esperamos da chuva uma qualquer verdade
- qualquer serve-
para enganar as fomes em equilíbrio instável
entre dois continentes incontinentes
um a vida como um mineral
outro a morte esse vegetal eternamente desconhecido
no mar
como num leito em fúria ".

( Artur do Cruzeiro Seixas, OBRA POÉTICA, vol.I,
organização de Isabel Meyrelles, ela mesma poeta e tradutora
Quasi ed., 2002 )

A Morte Alquimica



Motto:

What is death to another is life to me.

À autruy mort, à moi vie.

O que é morte para alguns
a mim dá-me vida.

Lema que pode bem servir para a obra de alquimistas :
a salamandra faz parte do bestiário secreto da transformação da materia em ouro ou elixir ou simplesmente energia.