Tuesday, November 03, 2020

O PINTOR (ao modo de Jacques Prévert)

 

O Pintor (ao modo de Jacques Prévert)

 O pintor acabou o quadro.

Deu uns passos atrás

para assim ver melhor.

Pousou o pincel

ou seria espátula

ou raspadeira

ou tinta explodida

de tiro de caçadeira?

Olhava

Mas não sabia.

Teria dito

o que queria dizer?

E se ainda não tivesse dito

agora que tinha acabado

o que podia fazer?

Olhou mais uma vez

mais uns passos atrás:

dissera

“para mim a pintura é resolver problemas” .

Estaria ali o problema primeiro resolvido?

Ou dessa primeira solução nascera

outro problema,

pedindo uma nova solução?

Uma solução-outra

de um nada nunca dito?

Afinal, concluiu ele cansado,

(pintara a noite toda

até de madrugada)

sentado no sofá e de copo na mão

não é melhor um livro

que posso pôr de lado?

 


 

Wednesday, October 07, 2020

 

Mignon no Jardim do Limoeiro

 

Será sonho ou realidade

ver Mignon naquele Jardim

o limoeiro florindo

ela tecendo flores

coroando o seu Amado?

 

-Vem comigo, vem comigo

a terra é de maravilha, feita de luz

tão brilhante

que mesmo o que é escuro brilha...

 

O Amado foi com ela, ela já ia pronta

ia mostrar o palácio de que lhe tinha falado:

estátuas de belo mármore finamente trabalhado

tectos altos, céus pintados, e estranhos dragões ocultos

por outros anjos criados...

 

Eram seres de magia,

sussurravam ao ouvido

aqui vivereis para sempre,

na sombra do limoeiro

ou juntos ou separados.

 

Lisboa, 7 de Outubro, 2020

( para a Ana Maria Pereirinha, Na Galeria Monumental)

Tuesday, October 06, 2020

 


O Pintor e a tela branca

(para o Pedro Chorão, no atelier desmanchado...)

 O que viu ele na tela branca

naquela manhã de sol

em que acordou sem sonhar?

Pequenos rasgões de luz,

pequenos rasgões de negro

e matérias variadas

ali a desafiar.

 Pega no pincel

e pinta

pega na tesoura e corta,

ou na faca da cozinha,

que lhe faltava afiar...

 Aquela matéria branca

ali escondia de tudo, farrapos

meio cozidos

nuvens por descarregar

e um certo azul magoado

que se deixava ficar...

 Difícil seria o dia

em que a tela não falasse

nada lhe chegaria

nem que essa luta o matasse.

 Y.Centeno

(Lisboa, 6 de Outubro, 2020)

Sonhos

 Para o Sérgio...

Para mim, desde sempre, o sonho que se fixou, ao acordar, é algo mais do que um sonho. Ou é aviso, ou é chamada de atenção para algum caminho que devemos procurar, pois a nossa vida não é senão esse caminho, nem sempre revelado e que temos de ser nós a descobrir, a percorrer, ou ignorar. Ignorar tem o seu preço: alguma coisa em nós ficará incompleta, será consciência mutilada. Em regra é no meio da vida que estamos em melhores condições de entender o que nos diz essa narrativa, oriunda de um imaginário oculto, mítico e arcaico cujas raízes provêem do inconsciente pessoal, ou colectivo. De uma outra esfera que ignoramos até que surge. Diante de nós, estendem-se então situações, paisagens, reacções ou silêncios que nos deixam confusos. Pedimos opinião a algum amigo, ou nos limitamos apenas a contar do nosso espanto. Eu gosto de abrir um sonho como quem abre um poema, ou um fruto maduro. Demoro a meditar nas imagens mais fortes. No caso a que me vou referir são estas: a visita a uma herdade de família, de uma madrinha que foi segunda mãe, e concluir que não conhecia ninguém. É importante a memória da infância, cheia de perfumes e sabores que depois se perdem já na vida de adulto. Esse é o primeiro passo em direcção ao inconsciente, onde ficam guardadas, noutra esfera, imagens que desejam ser recuperadas. Porque esse era um tempo feliz, que nem sempre na vida adulta se voltará a viver. Mas ali estão, para que um dia se lembrem, quando menos se espera. A madrinha era mãe: haverá lição mais clara? Não é a mãe o princípio, não é dela que se nasce e se cresce para o resto da vida? A mãe-primeiro princípio, a mãe arcaica, primordial, a Grande-Mãe de que nada se sabe, e hoje em dia cada vez menos? Por isso o nosso viajante sonhador verifica com espanto que não conhece ninguém. O que lhe diz o sonho é muito simples: está na hora de procurar conhecer...Ou fica ali, rememorando o passado, ou parte, em busca de outra aventura, outra vida que possa ser vivida por estar à sua espera. Onde? Nas caves mais fundas do seu próprio inconsciente, no escuro das confusões que terá de aclarar, até que de novo se libertem mais sonhos, alguma luz se faça, e dessa luz nasça o poema, a Obra que ali estava ainda de reserva à sua espera.

Ficarei por aqui, aguardo que floresça o seu poema.



Monday, September 28, 2020

 

 

O AMOR O ANJO e  O CÃO

Havia amor por ali,

uma entrega tão subtil

que não podia ser dita

cortava a respiração

só podia ser vivida

em segredo

e só de dia

quando o Anjo os protegia...

 

Ainda assim havia a noite,

a floresta e o jardim,

um cão amigo a brincar

um céu com novas estrelas

acesas para o amor

que seria amor sem fim

 (dedicado à Ana Maria Pereirinha, 2020)

 

 

Tuesday, September 22, 2020

 Pedro Chorão

AZUIS

 É tanto azul...

a que pico de alta montanha

foi ele buscar essa côr

ainda não conhecida

feita de céu e de mar

e que o milénio escondia

 Nuvens rebeldes

de vez em quando surgiam

ou uma nave aguardando

pronta para zarpar

 Dunas de areia ferviam

em praias quase desertas

era novo o horizonte

que o novo azul descobria

 Y.Centeno

(Galeria Monumental, 2020)