A Chave, da imagem ao arquétipo.
(relendo Joana Emídio Marques, Ritornelos)
Vem esta ideia a propósito de um livro de poemas, Ritornelos, de Joana Emídio Marques, publicado pela editora Abysmo neste ano de 2014. Perguntam-me às vezes: um livro é bom porquê? Depende de cada um, a opinião?É bom porque se vende muito, porque se fala dele na crítica?
Para mim um bom livro é aquele que abrimos, ainda que ao acaso, e nos prende por determinada frase lapidar, ideia, imagem, e nos desperta o desejo de ler mais. Ler mais e ler melhor, ou seja, ler o livro do princípio ao fim.
No caso de um livro de poemas algo mais me atrai, a dimensão do seu imaginário, seja ele mais contido (como na poesia oriental) deixando um espaço de emoção que será só nosso, ou também nosso, seja ele um imaginário mais discursivo e intencionalmente aberto, para que o leitor seja mais conduzido do que condutor, ao longo da leitura.
Ainda melhor será para mim o livro que depois de lido me faz voltar a ler o que já li, parando neste ou naquele verso que por qualquer razão me intriga mais.
Dou como exemplo (era o que faria, num dos meus seminários de outrora, de escrita criativa) o poema seguinte, em que uma determinada imagem, a das "chaves" se amplia à dimensão de arquétipo ( a saber, de imagem universal, transversal ao tempo e aos tempos):
38.
Mostra as mãos-chave
da porta do abismo
aí, onde o corpo
encontra a suspensão da noite imortal
e a carne desfaz-se aro
e o sangue desfaz-se aço
....
Dá-me essas mãos-chave
essas mãos-porta
essas mãos-abismo!
Dá-me essas mãos
para que eu possa entrar-te.
(p.83)
Este poema está colocado entre dois outros, um de que a luz é elemento essencial de revelação e um outro em que o elemento é o fogo, sendo que nenhum deles permite que o poema se abra a um sentido "que acolha". Há o desejo, expresso, mas falta a chave, a mão condutora de que se fala no poema 38.
São muitas as significações simbólicas da Chave, ou das Chaves: São Pedro tem nas mãos as Chaves do Reino dos Céus, na tradição cristã, outros santos ou profetas têm igualmente a Chave (o Segredo) da beatitude eterna, em certos rituais de iniciação a Chave é a do Templo, nos contos infantis a Chave é do tesouro que se busca, uma Chave é também dada a Alice para abrir a porta que a levará ao País das Maravilhas, enfim, o poder da Chave é duplo, de abrir ou de fechar e daí a força de que se reveste este símbolo: liga ou desliga, actuando sobre as energias humanas e /ou divinas, ou, usando uma linguagem mais próxima da busca de realização de um Eu sempre em transformação, actualiza, na nossa psique consciente, as pulsões de um inconsciente que carece de ser reconhecido , entendido e aceite como existindo em si mesmo, por si mesmo, para si mesmo. No escudo papal podemos ver duas chaves, uma de ouro, outra de prata, o que do ponto de vista alquímico significa o acesso às fases últimas da Obra de Perfeição, sendo que prata e ouro são os metais que, a partir do chumbo da matéria negra, só os Iluminados conseguem obter. Basílio Valentino, célebre alquimista medieval, monge de Erfurt, tem um tratado que se intitula precisamente As Doze Chaves da Filosofia.
O seu "Paradigma da Grande Obra" tem como legenda, inscrita num círculo, "Visita o Interior da Terra e Rectificando Descobres".
Rectificar é aqui Sublimar, como no solve et coagula alquímico dos sábios: dissolve e fixa; isto é, dissolvendo na água das emoções as energias físicas mais negras, fixa-as, coagulando, para que ao tornarem-se visíveis, apreensíveis também pela Razão, fortaleçam o Eu ( o Em-Si) e a Consciência mudada, sublimada, tornada universal.
As mãos-chave de que se fala no poema, pedindo que se mostrem, que se deixem ver, são mãos excessivamente carnais: do corpo, da carne, do sangue; as imagens fortes são da noite, do abismo, e do apelo a um "tempo suspenso" em que os opostos "horror" e "harmonia" se reconciliem.
É este apelo à intemporalidade que afinal nos dá a Chave da leitura simbólica do poema.
Suspendido o tempo, segue-se a "suspensão da matéria" que é a existência limitada. Abrem-se, com ambas as mãos, os portões desejados. A partir daí, o infinito.
Monday, March 17, 2014
Thursday, February 13, 2014
La Dame à La Licorne
Para A Teresa Horta e sua bela Dama
Quando visitei o museu de Cluny, em Paris, com a bela colecção das tapeçarias da Dama e o Unicórnio, sempre me intrigou a sexta, A Mon Seul Désir, que ora traduzo por "ao meu único desejo" ora por "só ao meu desejo".
Ao meu único desejo: e qual é ele?
Satisfeitos os cinco sentidos, do gosto, do tacto, do olfacto, da visão só talvez um desejo imaterial a que se faça apelo poderá ser esse que falta.
Só ao meu desejo: seduzido o unicórnio, que simboliza a pureza que se conservou ou a que se aspira, esse é então o desejo, o úinco e assim é celebrado, nesse lema que é de brasão, tanto como de coração.
Há algo de oriental, nestas tapeçarias: uma tenda aberta num deserto ou num oásis, num jardim de alma, e cá dora, exposta mas com reserva natural, a Dama com a sua aia.
Rodeiam-na alguns animais também eles emblemáticos, o cão, companheiro fiel dos alquimistas, em tantas gravuras conhecidas; o macaco, figuração de Hermes, o deus Thoth dos egípcios (mítico pai da alquimia), para não falar do leão e do unicórnio, os animais que ladeiam a Dama, como que em protecção.
É na sexta tapeçaria que ela tem diante de si um cofre, que a aia segura, e de mão estendida parece estar a guardar a jóia que usou nas outras; ou estará antes a retirar alguma mais bela, diferente?
Não poderemos saber.
Mas a legenda inscrita ao alto da tenda está ali bem à vista para que seja lida e entendidada. De que modo? Aconselhamento? Aceitação? Pura referência de identificação, como num Brasão de Armas?
A Dama que ali se encontra, em tenda tão ornamentada, não poderá simbolizar a Pedra Filosofal, a perfeição da Pedra?
Teríamos então de permanecer na língua original, sem traduzir, e ver o leão como emblema masculino, solar - que assim é na simbólica alquímica- e na licorna, mantendo o feminino do francês, la licorne, o emblema lunar e feminino, ambos compondo então o par primordial da Obra, em Conjunção.
A narrativa expressa nas peças seria então o caminho do material (os sentidos) para o espiritual (a pomba que voa sobre a tenda) e esse seria o desejo, o único, o perfeito.
Carl Gustav Jung, em Psicologia e Alquimia (Psychologie und Alachemie, 1952, " Das Einhornmotiv als Paradigma, pp.585-634) estudou com cuidado as origens do mito, ou da lenda, da Licorna, que terá chegado ao ocidente por via da Índia, ou do Egipto antigo em que se encontram referências a esses animais estranhos, munidos de um único chifre a que se atribuíam poderes mágicos, de cura ou de veneno mortal, conforme os casos.
Aponta também a licorna, ou se se preferir o unicórnio, como um dos motivos fulcrais da produção do imaginário alquímico, transitando desde os gregos, como Zosimo, no século III da nossa era, até aos adeptos que na Idade-Média já o cristianizam como emblema de pureza, nos vários tratados conhecidos.
Para melhor se acompanhar o estudo de Jung temos de regressar ao significado do mercúrio simbólico, no processo de elaboração da Obra que conduzirá à Pedra Filosofal - emblema da absoluta perfeição, e também ela, posteriormente, identificada ora a Cristo ora à Virgem Maria.
Mercúrio, neste contexto, é o elemento da mutação, da metamorfose, que surge durante o trabalho sobre os outros princípios, que são o enxofre e o sal. Assim é desde a tradição gnóstico-pagã e cristã já referida e são estas as qualidades de que se reveste a licorna, descrita como animal de fábula, podendo surgir como cavalo, burro, peixe, dragão, escaravelho, etc. (Jung, p.587). Essa capacidade de mutação é o que distingue o unicórnio, e deste modo já o veremos, nas Bodas Químicas de Christian Rosencreutz, 1459, narradas por J.V.Andreae.
Sabe-se que o autor verdadeiro é de facto Valentin Andreae, teósofo alemão do século XVII, e é deste século, de 1616, e não do século XV que é datada a obra.
Para todos os efeitos o que se nota é que é conhecio na tradição o motivo emblemático da licorna ou do unicórnio, como se queira chamar.
Pessoalmente, para os efeitos das considerações que faço, e também para o caso do livro de Teresa Horta, que irei enquadrar adiante, prefiro o feminino, como já escrevi no post anterior ( em literatura e alquimia).
Nas Bodas Químicas surge uma licorna, branca como a neve, que faz uma reverência perante um leão. Segundo Jung, "licorna e leão são ambos símbolos do mercúrio". Contudo, mais adiante na narrativa, a licorna transforma-se em "pomba branca", outra figuração do mercúrio, volátil, devido ao seu vôo. que também permite que se identifique ao Espírito Santo, nas tradição cristã.
O mercúiro volátil é comparado, em alguns tratados, como por exemplo o de Lambsprinck, a pelo menos uma dezena de animais, ilustrando a obra com essas gravuras belíssimas ( Lambsprinck, La Pierre Philosophale, ed. bilingue, latim -francês, Archè Milano, 1971). Nas antologias, ou recolhas, como o Theatrum Chemicum, de 1602, a natureza mutável de mercúrio é apontada, junto com a do leão, a águia e o dragão, como submetida ao ouro superior.
São muitos os exemplos que se poderiam buscar.
Importante é o sinal dado: mudança e submissão a uma ordem perfeita, seja natural seja divina.
No tratado apócrifo atribuído a São Tomás de Aquino, citado por Jung (p.590), o Tractatus qui dicitur Thomae Aquinatis de Alchimia (ms. de 1520) vemos então a licorna a ser amansada, que é como quem diz, recebida por uma virgem vestida de negro.
Poder-se-ia jogar com os opostos negro e branco, a nigredo e a albedo, no decurso da Obra, mas basta que se tenha em mente que estamos perante uma transformação, que tocará tanto a quem a permite, ou a concede, ( a Dama) como a quem a sofre, ou precipita, aceitando (a licorna).
Da cristianização do motivo os exemplos são tantos que não se exige continuar.
Jung percorre o resto da memória do mundo, com os textos antigos dos hindús, dos chineses, dos judeus, dos persas, dos primitivos cristãos em todos apontando que a energia animal está bem presente, e propicia o nascimento de deuses e heróis - que operam as mudanças, como em mágicos ritos de passagem, em cada memória, cada civilização nascente.
Mas o que eu suponho sentir, nas tapeçarias da Dame à la Licorne é algo de mais antigo (dir-se-á, é próprio das imagens arquetípicas, guardadas no inconsciente), a saber que há ali marcas oriundas de um oriente longínquo, talvez da alma, sim mas talvez igualmente de um imaginário que na Idade-Média circulava por força das guerras contra o Islão, dos tesouros do Templo, da sabedoria que os Cavaleiros Templários traziam consigo de Jerusalém, a cidade perfeita.
Na haveria ali, na figura tranquila de uma mulher na sua tenda, sentada com a sua aia, algo do eco profundo dos Cânticos de Salomão à Amada perfeita, a Sulamith, uma alusão a novo paradigma, o da reconciliação de opostos, Leão e Licorna, ambos triunfantes, porque submetidos a uma Ordem maior, erguendo bem alto os seus belos estandartes? E sendo assim, tanto faz, para a nossa relação com este mito, que este mercúrio alquímico mutável seja licorna ou unicórnio, pois que em ambos os casos o que se figura ali é uma das nossas energias (pulsões) do inconsciente.
Deixo só a pergunta.
Esta tapeçarias ocuparam o pensamento de uma grande poeta, Teresa Horta, que em finais de 2013 publicou os seus belos poemas, com um profundo sentido do mistério que as rodeava.
Teresa intitula a sua obra A Dama e o Unicórnio, optando pelo lado masculino da figura, e fazendo da Dama o centro fulcral da sua meditação.
E como poeta que é, e numa relação intuitiva com todo o potencial simbólico que o unicórnio, como se viu, transporta consigo, Teresa fecha o seu ciclo, tão misterioso quase como o das tapeçarias, com uma interrogação, que as interpela, mas nos interpela, sobretudo a nós todos:
"O que faço da minha eternidade"? pergunta abrindo nova estrofe, uma e outra vez, procurando resposta, sempre incompleta (como a vida) até ao ponto final. Porque tudo é mudança, mercúrio está ali, sob uma forma que podia ser outra, mas não, é mesmo aquela, e é aquela que, ao escolher-nos, nos obriga também a escolher ( a dar resposta...).
O que faço da minha eternidade?
Pergunta de novo a si mesma.
Enquanto impassível nos fita, imobilizada
na trama armadilhada das tapeçarias
com aquele travo mudo, com aquele
brado surdo, com aquele olhar sem fundo
Numa fala sem mundo
Nós somos aquele espelho que ela estende à licorna, o nosso olhar é cego, mas na nossa mudez (e na nossa nudez, já despidos do mundo) iremos depois mais longe, iremos depois mais fundo - numa fala sem mundo - quando, como se diz no célebre Mutus Liber nos forem dados "olhos para partir".
Para A Teresa Horta e sua bela Dama
Quando visitei o museu de Cluny, em Paris, com a bela colecção das tapeçarias da Dama e o Unicórnio, sempre me intrigou a sexta, A Mon Seul Désir, que ora traduzo por "ao meu único desejo" ora por "só ao meu desejo".
Ao meu único desejo: e qual é ele?
Satisfeitos os cinco sentidos, do gosto, do tacto, do olfacto, da visão só talvez um desejo imaterial a que se faça apelo poderá ser esse que falta.
Só ao meu desejo: seduzido o unicórnio, que simboliza a pureza que se conservou ou a que se aspira, esse é então o desejo, o úinco e assim é celebrado, nesse lema que é de brasão, tanto como de coração.
Há algo de oriental, nestas tapeçarias: uma tenda aberta num deserto ou num oásis, num jardim de alma, e cá dora, exposta mas com reserva natural, a Dama com a sua aia.
Rodeiam-na alguns animais também eles emblemáticos, o cão, companheiro fiel dos alquimistas, em tantas gravuras conhecidas; o macaco, figuração de Hermes, o deus Thoth dos egípcios (mítico pai da alquimia), para não falar do leão e do unicórnio, os animais que ladeiam a Dama, como que em protecção.
É na sexta tapeçaria que ela tem diante de si um cofre, que a aia segura, e de mão estendida parece estar a guardar a jóia que usou nas outras; ou estará antes a retirar alguma mais bela, diferente?
Não poderemos saber.
Mas a legenda inscrita ao alto da tenda está ali bem à vista para que seja lida e entendidada. De que modo? Aconselhamento? Aceitação? Pura referência de identificação, como num Brasão de Armas?
A Dama que ali se encontra, em tenda tão ornamentada, não poderá simbolizar a Pedra Filosofal, a perfeição da Pedra?
Teríamos então de permanecer na língua original, sem traduzir, e ver o leão como emblema masculino, solar - que assim é na simbólica alquímica- e na licorna, mantendo o feminino do francês, la licorne, o emblema lunar e feminino, ambos compondo então o par primordial da Obra, em Conjunção.
Carl Gustav Jung, em Psicologia e Alquimia (Psychologie und Alachemie, 1952, " Das Einhornmotiv als Paradigma, pp.585-634) estudou com cuidado as origens do mito, ou da lenda, da Licorna, que terá chegado ao ocidente por via da Índia, ou do Egipto antigo em que se encontram referências a esses animais estranhos, munidos de um único chifre a que se atribuíam poderes mágicos, de cura ou de veneno mortal, conforme os casos.
Aponta também a licorna, ou se se preferir o unicórnio, como um dos motivos fulcrais da produção do imaginário alquímico, transitando desde os gregos, como Zosimo, no século III da nossa era, até aos adeptos que na Idade-Média já o cristianizam como emblema de pureza, nos vários tratados conhecidos.
Para melhor se acompanhar o estudo de Jung temos de regressar ao significado do mercúrio simbólico, no processo de elaboração da Obra que conduzirá à Pedra Filosofal - emblema da absoluta perfeição, e também ela, posteriormente, identificada ora a Cristo ora à Virgem Maria.
Mercúrio, neste contexto, é o elemento da mutação, da metamorfose, que surge durante o trabalho sobre os outros princípios, que são o enxofre e o sal. Assim é desde a tradição gnóstico-pagã e cristã já referida e são estas as qualidades de que se reveste a licorna, descrita como animal de fábula, podendo surgir como cavalo, burro, peixe, dragão, escaravelho, etc. (Jung, p.587). Essa capacidade de mutação é o que distingue o unicórnio, e deste modo já o veremos, nas Bodas Químicas de Christian Rosencreutz, 1459, narradas por J.V.Andreae.
Sabe-se que o autor verdadeiro é de facto Valentin Andreae, teósofo alemão do século XVII, e é deste século, de 1616, e não do século XV que é datada a obra.
Para todos os efeitos o que se nota é que é conhecio na tradição o motivo emblemático da licorna ou do unicórnio, como se queira chamar.
Pessoalmente, para os efeitos das considerações que faço, e também para o caso do livro de Teresa Horta, que irei enquadrar adiante, prefiro o feminino, como já escrevi no post anterior ( em literatura e alquimia).
Nas Bodas Químicas surge uma licorna, branca como a neve, que faz uma reverência perante um leão. Segundo Jung, "licorna e leão são ambos símbolos do mercúrio". Contudo, mais adiante na narrativa, a licorna transforma-se em "pomba branca", outra figuração do mercúrio, volátil, devido ao seu vôo. que também permite que se identifique ao Espírito Santo, nas tradição cristã.
O mercúiro volátil é comparado, em alguns tratados, como por exemplo o de Lambsprinck, a pelo menos uma dezena de animais, ilustrando a obra com essas gravuras belíssimas ( Lambsprinck, La Pierre Philosophale, ed. bilingue, latim -francês, Archè Milano, 1971). Nas antologias, ou recolhas, como o Theatrum Chemicum, de 1602, a natureza mutável de mercúrio é apontada, junto com a do leão, a águia e o dragão, como submetida ao ouro superior.
São muitos os exemplos que se poderiam buscar.
Importante é o sinal dado: mudança e submissão a uma ordem perfeita, seja natural seja divina.
No tratado apócrifo atribuído a São Tomás de Aquino, citado por Jung (p.590), o Tractatus qui dicitur Thomae Aquinatis de Alchimia (ms. de 1520) vemos então a licorna a ser amansada, que é como quem diz, recebida por uma virgem vestida de negro.
Poder-se-ia jogar com os opostos negro e branco, a nigredo e a albedo, no decurso da Obra, mas basta que se tenha em mente que estamos perante uma transformação, que tocará tanto a quem a permite, ou a concede, ( a Dama) como a quem a sofre, ou precipita, aceitando (a licorna).
Da cristianização do motivo os exemplos são tantos que não se exige continuar.
Jung percorre o resto da memória do mundo, com os textos antigos dos hindús, dos chineses, dos judeus, dos persas, dos primitivos cristãos em todos apontando que a energia animal está bem presente, e propicia o nascimento de deuses e heróis - que operam as mudanças, como em mágicos ritos de passagem, em cada memória, cada civilização nascente.
Mas o que eu suponho sentir, nas tapeçarias da Dame à la Licorne é algo de mais antigo (dir-se-á, é próprio das imagens arquetípicas, guardadas no inconsciente), a saber que há ali marcas oriundas de um oriente longínquo, talvez da alma, sim mas talvez igualmente de um imaginário que na Idade-Média circulava por força das guerras contra o Islão, dos tesouros do Templo, da sabedoria que os Cavaleiros Templários traziam consigo de Jerusalém, a cidade perfeita.
Na haveria ali, na figura tranquila de uma mulher na sua tenda, sentada com a sua aia, algo do eco profundo dos Cânticos de Salomão à Amada perfeita, a Sulamith, uma alusão a novo paradigma, o da reconciliação de opostos, Leão e Licorna, ambos triunfantes, porque submetidos a uma Ordem maior, erguendo bem alto os seus belos estandartes? E sendo assim, tanto faz, para a nossa relação com este mito, que este mercúrio alquímico mutável seja licorna ou unicórnio, pois que em ambos os casos o que se figura ali é uma das nossas energias (pulsões) do inconsciente.
Deixo só a pergunta.
Esta tapeçarias ocuparam o pensamento de uma grande poeta, Teresa Horta, que em finais de 2013 publicou os seus belos poemas, com um profundo sentido do mistério que as rodeava.
Teresa intitula a sua obra A Dama e o Unicórnio, optando pelo lado masculino da figura, e fazendo da Dama o centro fulcral da sua meditação.
E como poeta que é, e numa relação intuitiva com todo o potencial simbólico que o unicórnio, como se viu, transporta consigo, Teresa fecha o seu ciclo, tão misterioso quase como o das tapeçarias, com uma interrogação, que as interpela, mas nos interpela, sobretudo a nós todos:
"O que faço da minha eternidade"? pergunta abrindo nova estrofe, uma e outra vez, procurando resposta, sempre incompleta (como a vida) até ao ponto final. Porque tudo é mudança, mercúrio está ali, sob uma forma que podia ser outra, mas não, é mesmo aquela, e é aquela que, ao escolher-nos, nos obriga também a escolher ( a dar resposta...).
O que faço da minha eternidade?
Pergunta de novo a si mesma.
Enquanto impassível nos fita, imobilizada
na trama armadilhada das tapeçarias
com aquele travo mudo, com aquele
brado surdo, com aquele olhar sem fundo
Numa fala sem mundo
Nós somos aquele espelho que ela estende à licorna, o nosso olhar é cego, mas na nossa mudez (e na nossa nudez, já despidos do mundo) iremos depois mais longe, iremos depois mais fundo - numa fala sem mundo - quando, como se diz no célebre Mutus Liber nos forem dados "olhos para partir".
Wednesday, January 29, 2014
Lu Tsou
Le Secret de la Fleur d'Or
tradução francesa de Liou Tse Houa
De um amigo a quem perguntei se conhecia esta obra recebi como resposta que tinha lido, mas sem perceber nada.
Nem tudo é para perceber, logo à primeira, nas obras herméticas, ainda menos chinesas.
Na nossa cultura ocidental temos algumas flores igualmente misteriosas e inacessíveis: penso na Flôr Azul, de Novalis, obra que ele até deixou por acabar!
Essas flores misteriosas que simbolizam a perfeição inalcansável, seduzem, mas não se deixam colher.
O que fica então que nos leve a ler e a reler?
Os passos do caminho...
Não é por acaso que neste mesmo volume o tradutor acrescenta outro tratado: o Livre de la Conscience et de la Vie, o livro da Consciência e da Vida.
Porque em ambos é da consciência e da vida que se trata. A flôr da perfeição é um horizonte, não chega a ser real. Mas real é a vida que vivemos, e acima de tudo o modo, a consciência com que a vivemos.
Consciência da Vida, a nossa e a da pulsação do universo em geral, do mundo que nos rodeia, e em que tudo está "ligado" é uma forma de sabedoria.
A Rosa, seja dos Rosa-Cruz, dos alquimistas antigos (como Basile Valentin) ou dos poetas - lembremos a rosa de Rilke, ou a de Eugénio de Andrade, são sempre mais do que aparentam.
O mesmo se dá aqui, neste tratado chinês.
Foi traduzido para alemão por Richard Wilhelm, em 1929, e desde aí lido e estudado pelos curiosos destas matérias um pouco por todo o mundo.
A busca da flôr de ouro, como a da flôr azul dos românticos, parece-se com a busca do Graal, outro emblema de iniciação que tem atravessado os séculos. Será a busca de um Todo que abarca o eu e o mundo, mas que exige a entrega total do eu a esse Todo que se ignora o que seja. Viagem que atemoriza? Sem dúvida, pois dela não sabemos se terá regresso, e ainda menos se será bem sucedida.
Ao abordar estas matérias, precisamo talvez de ter conhecido outras: o Bardo Todol, por exemplo, Livro Tibetano dos Mortos, - que alerta para eventuais perigos, projecções do nosso próprio imaginário irracional, povoado de génios e demónios aterradores, e que teremos de entender, para afastar. Aqui se fala, por fim, da Clara Luz à saída dos abismos da viagem, a Luz do Entendimento desejado, e que só no fim da vida é concedido ( ou em vida, só a alguns iluminados).
Esta Luz é descrita, no Livro dos Mortos, como "Clara Luz do Vazio", conceito que em Jacob Boehme, teósofo alemão do século XVII, por exemplo, é melhor definido com Abismo, o negro abismo de onde emana, com a energia do Verbo, toda a luz, em simultâneo com a matéria densa da criação. A Obra consistirá, para Boehme, em sublimar essa matéria densa, até que toda ela seja de novo luz...
O mesmo discurso encontramos nós nos alquimistas ocidentais, que chamam à sua Pedra Filosofal "flôr do sol", ou flôr de ouro"entre tantas outras designações igualmente místicas e simbólicas, que podemos encontrar no célebre Dictionnaire mytho-hermétique de Dom Pernety, de 1758.
Referi que há obras que deviam acompanhar a nossa leitura deste tratado de Lu Tsou. Uma delas é sem dúvida o I Ching, Livro das Mutações, que foi igualmente traduzido para alemão por Richard Wilhelm e que inspirou Carl Gustav Jung, que o estudou durante toda a sua vida, como nos conta na sua Aubiografia. Era o seu livro de cabeceira. E percebe-se, pois não se esgotam nunca as imagens e juizos, carregados de mistério e de sabedoria.
O segredo é aparentemente simples: saber adaptar-se a todas as transformações, em cada um dos momentos da vida. Lição que serve tanto para os Imperadores da antiga China, a quem o I Ching era dado como modelo, como para o homem normal, na sua vida.
Na transformação reside a eternidade: "a transformação é o imutável", e para o homem durar "é deixar passar" (Lu Tsou, p.18).
Em regra a lição surge logo de início:
"O que existe por si mesmo é chamado a Via. A Via não tem nome nem forma.É a essência única, o espírito original único.Não se pode ver nem a essencia nem a via. Estão contidas na luz do céu; não se pode ver a luz do céu; está contida no dois olhos" (p.45).
Quem conheça o taoísmo saberá que o nome do Tao é precisamente a Via, e que está é o Uno, aquilo que nada tem acima de si mesmo, e é por definição inatingível.
A flôr de ouro é a luz, essa mesma que não pode ser vista, pois está contida, como luz do céu, nos nossos olhos...
Assim, do céu à terra (dos nossos olhos) se entra no jogo dos opostos que são a chave de todos os enigmas e de toda a energia transformatória.
Para que não restem dúvidas, Lu Tsou confirma:"Toma-se a flôr de ouro como símbolo"(p46).
E a partir daqui é deste modo que a leitura deve ser prosseguida, num alargamento da cadeia do Ser, do homem ao mundo, do mundo ao céu e ao universo inteiro.
Le Secret de la Fleur d'Or
tradução francesa de Liou Tse Houa
De um amigo a quem perguntei se conhecia esta obra recebi como resposta que tinha lido, mas sem perceber nada.
Nem tudo é para perceber, logo à primeira, nas obras herméticas, ainda menos chinesas.
Na nossa cultura ocidental temos algumas flores igualmente misteriosas e inacessíveis: penso na Flôr Azul, de Novalis, obra que ele até deixou por acabar!
Essas flores misteriosas que simbolizam a perfeição inalcansável, seduzem, mas não se deixam colher.
O que fica então que nos leve a ler e a reler?
Os passos do caminho...
Não é por acaso que neste mesmo volume o tradutor acrescenta outro tratado: o Livre de la Conscience et de la Vie, o livro da Consciência e da Vida.
Porque em ambos é da consciência e da vida que se trata. A flôr da perfeição é um horizonte, não chega a ser real. Mas real é a vida que vivemos, e acima de tudo o modo, a consciência com que a vivemos.
Consciência da Vida, a nossa e a da pulsação do universo em geral, do mundo que nos rodeia, e em que tudo está "ligado" é uma forma de sabedoria.
A Rosa, seja dos Rosa-Cruz, dos alquimistas antigos (como Basile Valentin) ou dos poetas - lembremos a rosa de Rilke, ou a de Eugénio de Andrade, são sempre mais do que aparentam.
O mesmo se dá aqui, neste tratado chinês.
Foi traduzido para alemão por Richard Wilhelm, em 1929, e desde aí lido e estudado pelos curiosos destas matérias um pouco por todo o mundo.
A busca da flôr de ouro, como a da flôr azul dos românticos, parece-se com a busca do Graal, outro emblema de iniciação que tem atravessado os séculos. Será a busca de um Todo que abarca o eu e o mundo, mas que exige a entrega total do eu a esse Todo que se ignora o que seja. Viagem que atemoriza? Sem dúvida, pois dela não sabemos se terá regresso, e ainda menos se será bem sucedida.
Ao abordar estas matérias, precisamo talvez de ter conhecido outras: o Bardo Todol, por exemplo, Livro Tibetano dos Mortos, - que alerta para eventuais perigos, projecções do nosso próprio imaginário irracional, povoado de génios e demónios aterradores, e que teremos de entender, para afastar. Aqui se fala, por fim, da Clara Luz à saída dos abismos da viagem, a Luz do Entendimento desejado, e que só no fim da vida é concedido ( ou em vida, só a alguns iluminados).
Esta Luz é descrita, no Livro dos Mortos, como "Clara Luz do Vazio", conceito que em Jacob Boehme, teósofo alemão do século XVII, por exemplo, é melhor definido com Abismo, o negro abismo de onde emana, com a energia do Verbo, toda a luz, em simultâneo com a matéria densa da criação. A Obra consistirá, para Boehme, em sublimar essa matéria densa, até que toda ela seja de novo luz...
O mesmo discurso encontramos nós nos alquimistas ocidentais, que chamam à sua Pedra Filosofal "flôr do sol", ou flôr de ouro"entre tantas outras designações igualmente místicas e simbólicas, que podemos encontrar no célebre Dictionnaire mytho-hermétique de Dom Pernety, de 1758.
Referi que há obras que deviam acompanhar a nossa leitura deste tratado de Lu Tsou. Uma delas é sem dúvida o I Ching, Livro das Mutações, que foi igualmente traduzido para alemão por Richard Wilhelm e que inspirou Carl Gustav Jung, que o estudou durante toda a sua vida, como nos conta na sua Aubiografia. Era o seu livro de cabeceira. E percebe-se, pois não se esgotam nunca as imagens e juizos, carregados de mistério e de sabedoria.
O segredo é aparentemente simples: saber adaptar-se a todas as transformações, em cada um dos momentos da vida. Lição que serve tanto para os Imperadores da antiga China, a quem o I Ching era dado como modelo, como para o homem normal, na sua vida.
Na transformação reside a eternidade: "a transformação é o imutável", e para o homem durar "é deixar passar" (Lu Tsou, p.18).
Em regra a lição surge logo de início:
"O que existe por si mesmo é chamado a Via. A Via não tem nome nem forma.É a essência única, o espírito original único.Não se pode ver nem a essencia nem a via. Estão contidas na luz do céu; não se pode ver a luz do céu; está contida no dois olhos" (p.45).
Quem conheça o taoísmo saberá que o nome do Tao é precisamente a Via, e que está é o Uno, aquilo que nada tem acima de si mesmo, e é por definição inatingível.
A flôr de ouro é a luz, essa mesma que não pode ser vista, pois está contida, como luz do céu, nos nossos olhos...
Assim, do céu à terra (dos nossos olhos) se entra no jogo dos opostos que são a chave de todos os enigmas e de toda a energia transformatória.
Para que não restem dúvidas, Lu Tsou confirma:"Toma-se a flôr de ouro como símbolo"(p46).
E a partir daqui é deste modo que a leitura deve ser prosseguida, num alargamento da cadeia do Ser, do homem ao mundo, do mundo ao céu e ao universo inteiro.
Tuesday, November 05, 2013
Pintar o Sete
Este seria o livro a ler, de Mestre Lima de Freitas sobre Almada Negreiros, poeta, pintor, dramaturgo, fundador com Fernando Pessoa e outros do Futurismo em Portugal.
Um 7 que no seu caso, de grande conhecedor, teria muito a ver com o quadrado mágico da Melancolia de Duerer, em que o n.34 é obtido em todas as somas que se façam dos números inscritos no seu interior.
O 34 remete para um 7, na sua soma, se a desejarmos simbólica e relacionada com o Axioma de Maria Profetiza, que Jung estudou nas suas obras relativas à alquimia e seus símbolos: " do Um nasce o dois, do dois nasce o três e do três nasce de novo o Um como quarto.
Este quarto elemento é o 4 da Totalidade, que o Um inicial em si continha.
Do mesmo modo, por analogia (simbólica) o 7 que resulta da soma do 3 e do 4 é figuração da Totalidade: três princípios e quatro elementos formam a estrutura base do que será o caminho da Obra oculta.
Nas civilizações antigas, como a Assíria, a Egípcia, a Maia, este número tem implicações que o ligam à simbólica e ao imaginário celestial: os 7 planetas que os sábios astrónomos podiam contemplar nos céus escuros, por exemplo. E os deuses que eles representavam.
Na tradição judeo-cristã, descobrimos logo no Génesis o 7 como número da perfeição, pois foi no sétimo dia que o Criador repousou, consagrando esse dia como dia de uma totalidade que podia ser admirada e venerada em especial.
Passo adiante o conhecimento geral dos 7 dias da semana, e a totalidade do que são as energias, os ramos das árvores de iniciação, as virtudes e categorias morais, etc.
Tudo se encontra num bom Dicionário dos Símbolos, como o das edições Robert Laffont, de que em geral me sirvo.
Na tradição grega o 7 está relacionado com o deus Apolo: as suas festas eram celebradas no sétimo dia do mês. E recordemos as sete cordas da lira, as sete portas de Tebas, etc.
Mas também na China, as festas populares tinham lugar a um sétimo dia: com os sete emblemas de Buda.
Na peregrinação a Meca, são sete as voltas a dar.
Esta presença do sete, tão generalizada, tem certamente a ver com a contemplação dos céus e os seus indecifráveis mistérios.
Como se nesse número se concentrasse a totalidade do espaço e do tempo (simbólico, religioso).
Sobre a magia da matemática não tenho competência para me pronunciar e não o farei, lembrando contudo que os antigos sacerdotes eram matemáticos, além de astrónomos, e já na nossa era igualmente alquimistas, como Zosimo de Alexandria (séc.III) e Maria Profetiza.
Diz-se que Hipócrates terá feito a seguinte afirmação:
"o número sete, pelas suas virtudes ocultas, sustenta no ser todas as coisas; dispensa a vida e o movimento, influenciando mesmo os seres celestiais".
A carga dinâmica deste número pode ser assustadora, como no Apocalipse de João: recordo apenas as sete cabeças, as 7 pragas, mas podemos ler no texto a sucessão de referências.
Para quem se interesse pelo budismo, encontramos no Livro Tibetano dos Mortos uma "intensificação" das energias do 7:
sete vezes sete = 49.
Este é o número do Bardo, o estado intermédio em que se penetra depois da morte, até renascer de novo ou entrar na redenção final. O 49 divide-se em 7 períodos transitórios, de sete dias cada, enquanto são feitas as rezas junto ao corpo do morto.
A simbólica do número permite ainda que se jogue com outros modelos: 70, 700, 7000,e por aí adiante.Mas só um especialista na Gematria nos poderia ajudar!
D.Francisco Manuel de Melo, no seu Tratado da Ciencia Cabala, expurgou a Gematria, proibida pela Inquisição. Contudo não deixa de ser muito interessante, para um estudioso dos mistérios, esta obra do século XVII.
Por mim gosto da meditação no Axioma de Maria: do Um ao Todo, um imenso caminho a percorrer...
Este seria o livro a ler, de Mestre Lima de Freitas sobre Almada Negreiros, poeta, pintor, dramaturgo, fundador com Fernando Pessoa e outros do Futurismo em Portugal.
Um 7 que no seu caso, de grande conhecedor, teria muito a ver com o quadrado mágico da Melancolia de Duerer, em que o n.34 é obtido em todas as somas que se façam dos números inscritos no seu interior.
O 34 remete para um 7, na sua soma, se a desejarmos simbólica e relacionada com o Axioma de Maria Profetiza, que Jung estudou nas suas obras relativas à alquimia e seus símbolos: " do Um nasce o dois, do dois nasce o três e do três nasce de novo o Um como quarto.
Este quarto elemento é o 4 da Totalidade, que o Um inicial em si continha.
Do mesmo modo, por analogia (simbólica) o 7 que resulta da soma do 3 e do 4 é figuração da Totalidade: três princípios e quatro elementos formam a estrutura base do que será o caminho da Obra oculta.
Nas civilizações antigas, como a Assíria, a Egípcia, a Maia, este número tem implicações que o ligam à simbólica e ao imaginário celestial: os 7 planetas que os sábios astrónomos podiam contemplar nos céus escuros, por exemplo. E os deuses que eles representavam.
Na tradição judeo-cristã, descobrimos logo no Génesis o 7 como número da perfeição, pois foi no sétimo dia que o Criador repousou, consagrando esse dia como dia de uma totalidade que podia ser admirada e venerada em especial.
Passo adiante o conhecimento geral dos 7 dias da semana, e a totalidade do que são as energias, os ramos das árvores de iniciação, as virtudes e categorias morais, etc.
Tudo se encontra num bom Dicionário dos Símbolos, como o das edições Robert Laffont, de que em geral me sirvo.
Na tradição grega o 7 está relacionado com o deus Apolo: as suas festas eram celebradas no sétimo dia do mês. E recordemos as sete cordas da lira, as sete portas de Tebas, etc.
Mas também na China, as festas populares tinham lugar a um sétimo dia: com os sete emblemas de Buda.
Na peregrinação a Meca, são sete as voltas a dar.
Esta presença do sete, tão generalizada, tem certamente a ver com a contemplação dos céus e os seus indecifráveis mistérios.
Como se nesse número se concentrasse a totalidade do espaço e do tempo (simbólico, religioso).
Sobre a magia da matemática não tenho competência para me pronunciar e não o farei, lembrando contudo que os antigos sacerdotes eram matemáticos, além de astrónomos, e já na nossa era igualmente alquimistas, como Zosimo de Alexandria (séc.III) e Maria Profetiza.
Diz-se que Hipócrates terá feito a seguinte afirmação:
"o número sete, pelas suas virtudes ocultas, sustenta no ser todas as coisas; dispensa a vida e o movimento, influenciando mesmo os seres celestiais".
A carga dinâmica deste número pode ser assustadora, como no Apocalipse de João: recordo apenas as sete cabeças, as 7 pragas, mas podemos ler no texto a sucessão de referências.
Para quem se interesse pelo budismo, encontramos no Livro Tibetano dos Mortos uma "intensificação" das energias do 7:
sete vezes sete = 49.
Este é o número do Bardo, o estado intermédio em que se penetra depois da morte, até renascer de novo ou entrar na redenção final. O 49 divide-se em 7 períodos transitórios, de sete dias cada, enquanto são feitas as rezas junto ao corpo do morto.
A simbólica do número permite ainda que se jogue com outros modelos: 70, 700, 7000,e por aí adiante.Mas só um especialista na Gematria nos poderia ajudar!
D.Francisco Manuel de Melo, no seu Tratado da Ciencia Cabala, expurgou a Gematria, proibida pela Inquisição. Contudo não deixa de ser muito interessante, para um estudioso dos mistérios, esta obra do século XVII.
Por mim gosto da meditação no Axioma de Maria: do Um ao Todo, um imenso caminho a percorrer...
Monday, September 30, 2013
Richard Zimler
Recebi hoje pelo correio um pequeno livro que me interessou logo pelo título.
De Richard Zimler, LOVE'S VOICE, 72 Kabbalistic haiku, de 2010 e julgo que sem tradução portuguesa, por enquanto.
No título, a junção da Kabbalah, da tradição judaica e mística medieval com os Haiku, da tradição japonesa igualmente antiga e marcando um imaginário literário e místico não menos importante, despertou-me a curiosidade: Zimler revelava-se já, sem que eu tivesse lido ainda o livro, um autor culto, um estudioso, como se vem a descobrir no prefácio que escreve, das religiões comparadas.
Cita duas fontes que são fundadoras para qualquer estudioso:
Gershom Scholem, Major Trends in Jewish Mysticism, e Mircea Eliade cujos vastos estudos na área da História das Religiões, Lendas, Mitos e Símbolos não podem ser ignorados.
Zimler, nascido em Nova-Yorque no seio de uma família judaica, ao radicar-se em Portugal dedicou-se ao estudo, que transformou em ficção regular, da nossa ancestralidade judaica, origens e destinos. O ÚLTIMO KABALISTA DE LISBOA foi o romance que o tornou conhecido, entre nós e no mundo.
Estes 72 exercícios de meditação subtil sobre a essência do amor e da vida, que encontrou talvez na leitura do ZOHAR, o livro do Esplendôr, ou quem sabe na mais prática e não menos subtil visão do TAOÍSMO original, são de leitura agradável e descomplicada na aparência, encerrando quem sabe a chave da sua escolha de Portugal para viver...Aqui pode ser um tranquilo anónimo, e ainda que saboreando o seu sucesso de escritor, viver no coração de um silêncio que aprendeu a amar:
Your soul will begin
to sense its depth when you stop
running from silence.
A tua alma começará
a sentir a sua profundidade
quando parares de fugir ao silêncio.
Assim começa o livro.
E assim acaba:
You will never solve
ev'ry mystery - God is
not a whodunit!
Nunca poderás resolver
todo e qualquer mistério -
Deus não é um qualquer!
Deus não é um qualquer!
Há pelo meio secretos acenos:
Dreaming of Moses
parting the Sea, I awake
in the Promised Land.
Sonhando com Moisés
dividindo o Mar, despertei
na Terra Prometida.
Ou por exemplo outro caso, de "diálogo" com a Bíblia, e a moral do Génesis:
Eve separated
from God but woke to her self:
Paradise exchanged
Eva separou-se de Deus
mas despertou para si mesma:
Troca de Paraíso.
Não vou retirar aos leitores o prazer de folhear, ler ou reler e descobrir as afinidades que possam ter com esta forma de pensar o pensamento. Eu encontrei muitas, comigo mesma, outrora e agora.
Por isso deixo aqui uma discreta homenagem. É um livro de conversa, não é um livro de conversão...e assim podemos voar um pouco com um Anjo de Rilke, apenas no seu pressentimento, pois vê-lo seria morrer de tanta e forte presença, podemos assistir à fusão deslumbrada do ouro de um alquimista, sonhar à beira de um rio de margens infinitas, ou como Jacob na sua escada descobrir no último degrau que é ele mesmo, o Homem, o oculto rosto de Deus.
Wednesday, February 06, 2013
Mitos:Nacionais, Universais...
Mitos Nacionais/Universais /Mitos ou lendas populares
O que é um mito: uma
narrativa fundadora, de dimensão simbólica, nacional ou universal.
Mitos nacionais (portugueses)
:
Dom Sebastião e os mitos do
Encoberto; Dona Inês de Castro,os mitos de amor eterno de Dom Pedro e Dona
Inês;as Cartas da Portuguesa, outro mito do amor eterno, de autoria francesa,
mas atribuídas a uma monja portuguesa do século XVIII ; ainda fazendo parte
deste corpus literário e mítico a
história de base celta, de que Richard Wagner fez uma obra-prima, de Tristão e
Isolda;
em torno destas figuras
históricas se desenvolveu uma teia de construções literárias, pictóricas,
dramatúrgicas, em Portugal e na Europa.
Relação do mito do Encoberto
com Dom Sebastião.
A doutrina do Sebastianismo
como doutrina messiânica nacional e nacionalista: ex. Padre António Vieira e
Fernando Pessoa.
Mitos universais do Ocidente:
Fausto (entre outros, como o de Orfeu, o de Prometeu, o do Andrógino, bebidos
na tradição popular, no caso de Fausto, na literatura grega clássica, nos
outros casos; ou mitos mais recentes como o de D.João, o”Burlador de Sevilha”
ou o de Carmen, como mulher fatal, na opera de Bizet).
Ver o mito de Fausto no
Renascimento, no Século das Luzes ( Goethe,séc.XVIII), no Romantismo (Berlioz)
e na Modernidade (Pessoa e Valéry ).
O Fausto mudo de Murnau, a
ópera de Gounod, a performance dos Fura dels Baus inspirada em Berlioz – tudo
interpretações diferentes de um memo mito fundador, o do desafio do homem que
vende a alma ao diabo, o seu percurso, os crimes e a transformação final, de
redenção.
Papel que desempenha, nas
várias “leituras” do mito, a dimensão simbólica do Eterno Feminino.
Comentar as “duas almas” de
Fausto, que ele define como irreconciliáveis, na primeira parte da tragédia.
O que se perde e o que fica destes e de outros mitos no
nosso tempo…
II
Há muitas outras matérias que
ocuparam o imaginário popular e literário ao longo do tempo:
Ex.
as lendas dos vampiros na
Europa central: Nosferatu, primeiro filme de Murnau (pioneiro do cinema ainda
mudo, expressionista;em seguida faria o Fausto);
Drácula, filme também da
mesma época, com o célebre Bela Lugosi, no início dos anos trinta;
o Golem, inspirado num
romance célebre de Gustav Meyrinck, autor austríaco estudioso de todas as doutrinas e práticas ocultistas
divulgadas ao tempo : como a Kabala judaica, que inspira o Golem, a filosofia
taoísta, o yoga, a alquimia, etc, - em cada um dos seus romances uma doutrina
que ele explica, embora reservando o seu mistério.
O gosto pela sombra (pelo
mistério que perturba e atrai) não se perde, e vemos na literatura e na
cinematografia moderna mais recente a recuperação dos temas dos vampiros, dos
lobisomens (de que em Portugal também há variantes nos contos populares de
tradição oral) e até a recuperação do gosto pela magia e por figuras da antiga
tradição celta – como na saga de Harry Potter, já explorada até à exaustão para
um público juvenil.
Thursday, January 24, 2013
De Jean Cocteau (1889-1963) descubro agora em dvd um filme feito por ele e com ele, Le Testament d'Orphée, de 1960.
Imaginário mítico e simbólico elevado ao mais alto grau, em cenário surrealista, de que um Buñuel não desdenharia, e por onde passam grandes nomes do teatro e cinema: Maria Casarès, Daniel Gélin, Jean Marais, Yul Brynner, outros.
Do ambiente intemporal onde se atravessam limiares de morte e vida, luz e sombra, à vida de café boémio ( como no Café de Flore, à época) ou ao acampamento de ciganos, com flamengo, às piadas íntimas: chamar Éluard ao seu jovem guia, seu alter ego, num dos diálogos
-quel est son nom?
-Éluard
-un sobriquet? (alcunha)
-plutôt un pseudonime...
ou ao aparecimento fugaz de Picasso entre o grupo de pessoas que dum balcão espreitam Cocteau morto, e até a um dos vestidos que reconheci (sou desse tempo..) como um dos que se usou, da Boutique Elle, da revista do mesmo nome, nos Champs Élysées e que B.B. tornou célebre!
Mistérios do passado mítico atravessados pelo alegre incoformismo do imaginário poético de um surrealista que se definiu eterno, como a poesia!
A bela cena dos espelhos, que por um lado reflectem demais (ils réfléchissent trop...), por outro desvendam o lado de lá, o que se esconde de nós e somos nós na sombra, merece reflexão, atravessamento, como a história de Alice do outro lado do espelho...
É do lado de lá que a verdadeira vida acontece, a que devolve o outro a si mesmo, por via da criação, para sempre.
É do lado de lá que a verdadeira vida acontece, a que devolve o outro a si mesmo, por via da criação, para sempre.
Monday, December 03, 2012
A Pedra no Caminho
Arnaldo Saraiva, a quem vai dedicado este post, deu a conhecer a obra de Carlos Drummond de Andrade numa época, anos 60, em que em Portugal só havia interesse pela literatura francesa e pouco mais. Por via de Paris a cultura chegava a Portugal, melhor dizendo, Lisboa, Porto, Coimbra - capitais universitárias. Aí se procuravam livros, ou chegavam livros e se lia.
Arnaldo conta como leu Drummond pela primeira vez, na tradução francesa, e eu posso acrescentar aqui um pormenor pessoal: o tradutor foi grande amigo nosso, além de apaixonado pelas letras e artes brasileiras.Seu nome: Michel Simon, que, para não o confundirem com o grande actor do mesmo nome apelidavam carinhosamente de Michel Simon-Brésil. Tinha um programa na rádio: Aquarelle Brésilienne e fora o grande tradutor de Manuel Bandeira, e de outros grandes daquele tempo.
Uma vez por ano viajava de barco para o Brasil: fazia escala em Lisboa, e aqui, na Yorkhaus, ficava para visitar o Museu de Arte Antiga: o seu quadro de paixão um Bosch que ainda hoje podemos ir contemplar, como ele fez durante anos, fielmente.
A nossa amizade datou de um encontro de acaso, num TEE em que ambos regressávamos de Milão; ficou sentado ao meu lado e espreitava o que eu ia escrevendo num caderno; a dada altura interrompeu-me, em português com sotaque: ah, esse poema é belo!
Desculpou-se pela indiscrição: de idade podia ser meu pai, e ficámos a conversar, ora em francês, que sempre falei bem, ora em português, o que lhe dava prazer; os textos iriam ser mais tarde publicados em Irreflexões, e ele falou-me dos seus amigos brasileiros e da tradução de Manuel Bandeira, que me enviou depois.
Quando eu ia a Paris falava com ele; levou-me na Rue Mabillon, num sábado, ao restaurante onde os brasileiros se encontravam, para comer a boa feijoada e tocar e cantar pela tarde fora com uma alegria que animava o exílio forçado de alguns.
E quando ele parava em Lisboa lá íamos admirar o nosso Bosch de sempre.
Não conheci Drummond pela tradução dele, eu nessa altura estava a ler Clarice Lispector. Mas vou procurar agora, pois será decerto tão fiel e inspirada quanto a de Bandeira, que tenho aqui ao meu lado!
Paremos então no poema da Pedra, que deu origem, como explicou Arnaldo Saraiva a tanta discussão, a tanto comentário, a tanto espanto também, por algo de tão simples e aparentemente corriqueiro vir a causar tanto "barulho" literário e literal.
Eis o poema:
Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)
No Meio do Caminho
No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.
Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra
Na realidade o que faz deste poema o grande desafio é a afirmação de que havia uma pedra no meio do caminho; uma afirmação simples e directa que grava uma imagem para sempre indelével, e que a repetição do verso ao longo do poema torna mais firme e intensa. Não mais sairá do nosso imaginário, pessoal e colectivo ( o poema fez caminho, na sociedade de então e ainda hoje, na nossa). O poema com a sua pedra.
Leio ou repito em voz alta (tão fácil de fixar) e não é pelo ritmo, pela repetição que o poema intriga, mais do que comove. Igual a um poema chinês, ou a um Haiku japonês, é a condensação da imagem, pedra e caminho, ou ainda o meio do caminho que tinha uma pedra, e aqui entra nova imagem, a que corta o caminho ao meio, quando devia estar (esperava-se) livre e desimpedido.
O meio do caminho: o meio da vida;
a pedra no caminho: o desgosto ou a contrariedade inesperada, que fez (ou não) impedir a continuação do caminho. Esta suspensão do destino do caminhante aumenta o mistério do que é dito: viu a pedra e seguiu adiante? tropeçou na pedra, caiu e levantou-se? Ou ficou demorando magoado no chão?
Tal como nos ditos orientais a resposta não é dada, tem de ser encontrada por cada um, precisamente no seu caminho de leitura....a pedra, para nós, é o próprio poema, a interpelar a nossa vida.
Aqui entra a imagem forte do inconsciente colectivo (diria Jung):
todos, ao longo da vida, e segundo Jung em especial "no meio" da vida (é banal falar da crise da meia-idade) tivemos, temos, teremos "uma pedra no caminho", uma crise que poderemos ou não ultrapassar.
Drummond já mais velho e sábio ( de "retinas fatigadas") evoca essa pedra que teve no caminho. Ultrapassou, pois escreve o poema, mas não esquece. Com as suas palavras condensadas em tão breves imagens abre o coração ao mundo, forçando o mundo a que faça como ele: revivendo o caminho, fixando a pedra que lá estava no meio, procurar entender o destino.
Pois é disso que trata a pedra, desde sempre (e poderia então falar da tradição alquímica...). Do entendimento do ser : o ser no espaço da vida, do seu caminho, mas mais ainda no tempo (e não vou citar Heidegger), daí que a imagem do meio adquira tanta importância.
Wednesday, November 07, 2012
Schubert, continuação de literatura e Arte
De Novalis ( 1772-1801) a Schubert (1797- 1828)
I
Novalis (pseudónimo de Georg Philipp Friedrich Freiherr von Hardenberg) figura maior do Romantimo alemão, teve a sua obra editada primeiro em 2 vols. pelos amigos Ludwig Tieck e Friedrich Schlegel, em 1802.
As obras de Novalis, bem como as dos irmãos Schlegel, tiveram marcada influência em Franz Schubert.
Vemos que na Bela Moleira/ Die Schoene Muellerin ( 1823) se recupera um imaginário de cariz popular, nacionalista ou melhor tradicionalista, eivado de uma reflexão melancólica resultante da empatia profunda com a natureza,os seus ciclos, de que o Tempo e a Temporalidade são parte integrante e que o fluir da água do regato, na última canção (n.20, Des Baches Wiegenlied / Canção de Embalar do Regato) evoca e representa.
Esta canção funde os vários motives da temática romântica por excelência:
1. a contemplação da natureza e a elevação de alma que suscita
2. o desejo de um repouso que se aproxima do sono, depois do sonho que foi a Viagem (evocadora da busca da Flôr Azul, no célebre romance inacabado Heinrich von Ofterdingen e que são referidas na estrofe em que cita “ as pequenas flores azuis” pedindo que não olhem para ele)
3. apelo à noite, com a lua cheia a erguer-se no céu imenso, noite que. tal como o sono que pode ser antecipação da morte, dissolverá para sempre alegrias e desgostos.
Este Moleiro-Poeta é uma recuperação do Viandante de Goethe.
Quando na primeira canção Das Wandern/ Viajar (que eu gostaria mais de traduzir por algo como Vaguear, pois é mais de vaguear que se trata, caminhando solto na paisagem, de floresta, de ribeiro ou de mar, deixando corer o pensamento) se alude a esse ímpeto de correr mundo, já se adivinha, pela imagem escolhida da água cujo curso é imparável, da roda, que não cessa o seu rodar (como a roda da vida, que é a roda do Tempo) da pedra da mó, também ela redonda e girando cada vez mais depressa- já se adivinha, dizia que esta não sera uma viagem qualquer, mas um percurso que é decurso simbolizado da vida.
Pelo meio um atravessamento de amor, sem consequência a não ser a de despertar saudade, saudade do regresso a uma casa que é muito mais do que o lar que se deixou para trás, é morada de repouso, quem sabe se definitivo, uma paz de alma reconciliada que só a morte concede.
Os poemas de Wilhelm Mueller (1794 -1827), um dos grandes amigos do compositor, constituem um verdadeiro ciclo, em que o fio narrativo não se perde, ampliando a temática central da viagem pela vida e do horizonte da morte. Dos vinte e cinco textos da edição original do poeta (1821) Schubert escolhe 20, que organiza numa “introdução” e fecha com um “epílogo”, o que sublinha a dramaticidade lírica e musical da obra.
O tema fulcral é o da Viagem, como já se disse.
O Wandern alemão não significa o mesmo que Reise, mas seria difícil traduzir por vaguear, viajar ao acaso, pois o Moleiro não parte ao acaso. Caminha em direcção ao moínho onde estará a sua amada. Daí que se tenha escolhido o termo Viagem, e não o Vaguear, embora este ficasse melhor no caso do Viandante, que não temos traduzido por Viajante.
Mas deixemos a questão, respeitando o que tradicionalmente está aceite.
Na canção n.1 começa a descrição da caminhada do Moleiro, junto ao riacho, e aí se glorifica a água, elemento primordial, através do que a água simboliza se glorifica o movimento perpétuo, o caminhar ( a roda) da vida:
Das Wandern / Viajar
Viajar é a alegria do moleiro,
Viajar!
Só pode ser mau moleiro
Aquele a quem viajar não agrade,
Viajar!
Aprendemos com a água,
Com a água!
Que não pára dia e noite,
Pensando só na viagem,
A água.
O mesmo fazem as rodas,
As rodas!
Que nunca ficam quietas,
Não se cansam de rodar,
As rodas.
E até as mós,tão pesadas que elas são,
As mós!
Giram numa dança alegre,
E querem ir mais depressa,
As mós.
Oh viajar, viajar, minha alegria,
Oh viajar!
Meu senhor, minha senhora,
Deixai-me partir em paz,
Vou viajar.
Se o tema central é o da Viagem, o símbolo vital será a Água.
Mas é uma água complexa, que tanto corre para a vida como esconde já alguma pulsão sombria: é o que se adivinha na canção seguinte, n.2,
Wohin/ Para Onde:
Ouvi murmurar um regato,
Corria da fonte do rochedo
Em direcção ao vale
Fresco e maravilhado.
Não sei o que me aconteceu,
Nem quem me deu o conselho,
Também tive de o seguir,
Com o bordão de caminheiro
A descer e sempre em frente,
e sempre atrás do regato,
A correr com o seu murmúrio,
De uma alegre limpidez.
É este então o caminho?
Diz-me, regato, onde vou?
O teu murmúrio suave
Perturbou os meus sentidos.
Que digo do teu murmúrio?
Não pode ser murmurar
São Ondinas a cantar
Nas profundezas do Reno
Deixa cantar, companheiro,e
murmurando segue o teu caminho!
Rodam as rodas do moinho,
Em todos os regatos de água clara.
Repare-se como nesta alusão a uma água feliz já está contida, pela alusão às Ondinas do Reno, a pulsão da morte que um Heine descreverá como ninguém na sua Lorelei.
Outras imagens simbólicas poderão surgir, como a floresta, ou o bosque (que seria a Terra) ou o Céu (que seria o Ar) ou mesmo o Fogo (quando se arde de paixão ou de paixão se morre). Vemo-las também noutros poetas, que Schubert muito amou, como Goethe ou Heine em quem uma consciência alquímica da vida se torna muito patente.
Mas fiquemos nesta meditação do Wandern.
Impossível não evocar aqui o poema de Goethe que melhor reflecte este estado de espírito:
Canto Nocturno do Viandante / Wanderers Nachtlied (1776 )
Tu que és do céu,
E todo o o sofrimento e dôr acalmas,
Que ao duplamente infeliz
Duplamente consolas,
Ah, estou cansado de tanta agitação,
De que servem a dôr e o prazer? –
Doce paz,
Vem, ah vem desce ao meu coração!
E ainda este, que completa o anterior e lhe amplia o sentido da brevidade da vida ou do desejo de morrer:
Outro Igual /Ein Gleiches ( 1780 )
No alto dos montes
Reina a paz,
Nas árvores
Não se pressente
nem um sopro.
Os passarinhos calam-se no bosque.
Espera, que em breve
Também tu repousarás.
Com este mesmo estado de espírito, de abandono à noite do desgosto e da melancolia, e de ânsia pelo repouso eterno (da morte) é concluída a última canção, n. 20:
Des Baches Wiegenlied / Canção de Embalar do Regato
Descansa em paz, descansa em paz! Fecha os teus olhos!
Viajante, que estás cansado, chegaste a casa.
Aqui reside a fidelidade,junto a mim repousarás,
Até que o mar engula todos os regatos.
Lavada de fresco será a tua cama
Com largo travesseiro no quarto azul de cristal,
Vinde, vinde agora, vós que sabeis embalar,
Embalai nas ondas o rapaz até que ele adormeça.
Se uma trompa soar no bosque verdejante
Farei um barulhão à sua volta.
Não olheis para mim, florzinhas azuis!
Estais a dar pesadelos ao meu adormecido.
Afasta, afasta, o trilho do moinho!
Fora, fora, rapariguinha má,
Que a tua sombra não o venha acordar.
Mas dá-me o teu lencinho fino
Para os seus olhos tapar.
Boa noite! Boa noite!Até que tudo desperte.
Que o sono te consuma as alegrias e as dores!
Ergue-se a lua cheia, dissipa-se o nevoeiro
E o céu lá em cima tão vasto que ele é.
…
Wednesday, October 17, 2012
John Dee, o Mago da Rainha
Os livros são assim: amam quem os ama, ainda que por vezes distraidamente, como eu.
Tenho na minha biblioteca, há anos, um livro que comprei, a biografia romanceada (mas pouco) de John Dee (1527-1609) matemático, astrónomo, astrólogo e vidente da Rainha Isabel I da Inglaterra.
Nessa altura estava eu a ler a fotocópia do seu Diário, que tinha trazido de Inglaterra, procurando aí referências que me ajudassem a melhor entender o espírito e a cultura da época. O romance ficou na estante.
Havia outro romance, de Gustav Meyrinck (agora renasce o interesse pela sua vida e obra) que se ocupava deste mago, e que eu lera primeiro, O Anjo À Janela do Ocidente, na tradução francesa. Li depois todos os romances de Meyrinck, quando percebi que em cada um deles expunha uma doutrina hermética precisa, desde a Kabbala ao taoismo tântrico, ou à alquimia.
Mas agora é deste outro romance que pretendo falar, de Claude Postel (ed. 1995) mais recente, fluido na sua escrita, e tal como em Meyrinck com referências fiéis e fundamentadas, extraídas do seu Diário, dos seus Tratados (hoje em dia mais acessíveis do que no meu tempo de outrora).
A par da vida extraordinária deste cientista, de cultura universal, viajado por toda a Europa e conhecido de todos os grandes do seu tempo, adquirimos informação preciosa sobre o que se lia e escrevia e divulgava, desde o antigo Euclides aos modernos Cornelius Agrippa, Trithemius, Guillaume Postel (proscrito), Hermes Trismegisto, sem esquecer o nosso Pedro Nunes nem os árabes alquimistas. A lista seria grande, basta dizer que John Dee reuniu uma blibioteca com mais de 4000 livros, raros e caros (como ele diz) que a própria Rainha desejou visitar.
Outro dos grandes méritos deste autor, Claude Postel, é a completíssima Bibliografia com que completa o livro, e a não menos completa Biografia de todos os que são citados ao longo da narrativa, por se terem cruzado com o mago, na sua casa de Mortlake, na Côrte, ou nas suas viagens.
O mundo já era global naquele tempo que nos parece longínquo e por vezes bárbaro (mas em matéria de barbaridade o que dizer do nosso?)...
Para quem prefira a língua inglesa deixo a indicação de outra obra, de Benjamin Woolley (ed. 2001) não menos interessante e completa, grande fresco de uma Inglaterra e de um mundo todo em renovação humanística, científica, cultural e a que a Magia, mais uma vez, não era alheia.
Devo dizer que, mais uma vez porque os livros estão atentos aos nossos interesses, nós é que somos esquecidos, distraídos, ou ingratos, foi numa anotação do espólio de Fernando Pessoa, entre milhares de outras, que reparei no nome de John Dee.
Pensei que não era acaso, pois não se escreve o nome desse personagem sem que se tenha lido alguma referência, algures, ou mesmo alguma obra dele. Obra dele não encontrei na biblioteca particular de Pessoa: mas encontrei várias outras, que já tenho citado, de autores estudiosos das doutrinas herméticas e em que John Dee aparece como grande referência. Fernando Pessoa, e eu com ele, partimos então nessa busca de um mago visionário de que o Poeta se sentiria próximo, pois também ele era astrólogo, fazia horóscopos a pedido, se dizia visionário com poderes de Medium, etc.
O que se fez para Pessoa e eu tanto referia, ao longo dos anos, como essencial para conhecer o seu pensamento e a sua formação, a saber a publicação dos livros da sua bilioteca, fez-se para John Dee em 1990, pela London Bibliographical Society:
JOHN DEE'S LIBRARY CATALOGUE.
Neste catálogo está o enorme testemunho de uma cultura do tempo e de todos os tempos - para aqueles que de verdade desejem aprender algo mais sobre a vida, o mundo, o cosmos na sua plenitude.
A obra mais complexa que nos deixou, para meditação, leitura e releitura é a Monas Hieroglyphica, (de 1564, ed. Kessinger Rare Reprints).
Só com especial preparação filosófica e matemática se chegará, como ele diz, à sua secreta lição.
Só com especial preparação filosófica e matemática se chegará, como ele diz, à sua secreta lição.
Monday, October 01, 2012
Dia Mundial da Música
Contribuo com uma obra-prima de Schubert, inspirada noutra, de Goethe e com o seu quê de simbologia de transformação, como na alquimia que sublima o corpo ( a matéria) elevando-nos a todos a esferas mais altas.
Fulgurações de Mignon
O
romance de Wilhelm Meister, tal como o drama de Fausto, foram obras que
acompanharam Goethe ao longo da sua vida, dos anos mais turbulentos do Sturm
und Drang aos amadurecidos da plenitude do conhecimento adquirido: pela
experiência de vida, pela inquirição científica, filosófica, artística dos
múltiplos pontos de vista, mesmo que contrários e contraditórios.
Aliás
a sua maior lição é mesmo essa: da contradição que leva à plenitude do
reconhecimento do Todo e do Uno, na esfera do grande como do pequeno mundo.-
para usar uma expressão corrente no seu tempo ( e que conhecemos de Shakespeare
e dos filósofos herméticos).
A
leitura dos seus escritos autobiográficos permite entender melhor as
características da sua formação; cresce num meio burguês de cultura cuidada,
onde desde cedo estuda música, aprende línguas, segue direito filosofia,
teologia, embora se oriente mais tarde para outras escolhas.
Mas
a formação ficou lá e moldou o seu pensamento e a sua imaginação criadora. Não
é por acaso que à data em que escreve as primeiras versões de Wilhelm Meister é
a criação teatral que o apaixona, fazendo com que contraponha a escola francesa
de Gottshed e a proposta de um teatro clássico aristotélico ao modelo muito
mais livre e sedutor de Shakespeare, que Wieland dera a conhecer na Alemanha.
Um encenação de Hamlet é discutida longamente com a troupe de quem Wilhelm
se torna amigo, viajando com eles. Entre eles viverá o seu primeiro amor e o
seu primeiro desengano. Através deles conhecerá Migon, e o Harpista – duas
figuras emblemáticas da obra, de que falarei adiante.
A
Par das discussões sobre o teatro como arte e expressão da vida no seu todo, no
que tem de melhor e pior, e como arte suprema, pois inclui a palavra, a música,
a dança - é uma arte total – desenha-se ao longo da narrativa um pensamento
filosófico, inspirado na Ética de
Spinoza, que que está a ler, como
diz na autobiografia e ainda em Rousseau, sobretudo nas Confissões.
Temos
assim a apresentação e discussão de modelos filosóficos, estéticos e éticos
(bem como pedagógicos, inspirados no suiço Pestalozzi) que ora Wilhelm ora
outros intervenientes introduzem numa narrativa por vezes confusa e que só com
a evolução do contar, sobretudo nos Anos de Viagem se aclara finalmente.
Contempla-se
em Wilhelm Meister um grande fresco da sociedade da época:
1
do pequeno mundo do povo, do teatro ambulante que se deseja maior do que é e
mais interessante, como projecto de vida;
2
à burguesia culta, dividida entre o Iluminismo da Razão Pura e o Pietismo,
doutrina de misticismo laico mas muito actuante na Alemanha do norte ;
3
sem esquecer a discreta mas real proliferação da maçonaria e suas Lojas, em que
se proclamava a liberdade, a igualdade, a fraternidade, e sobretudo uma utopia
moral e social que em Wilhelm Meister é representada pela misteriosa Sociedade
da Torre.
Tudo
isto vem a propósito de se sentir que as personagens de Mignon e do harpista
que a acompanha, sendo como são inspiradoras, carecem de um enquadramento que
as justifique no seu mistério e sobretudo no desenrolar do romance.
Pois
na narrativa servem de fio que une os anos de Aprendizagem e de Viagem do
herói, apesar de, numa leitura apressada, poderem parecer mais dispiciendas.
Como
surge Mignon e como é descrito?
De
início como criatura meio andrógina, Wilhelm não sabe dizer se é rapaz ou
rapariga, roupas trapalhonas, ar algo selvagem; mas vendo melhor opta por
menina; de facto é uma menina, criança que anda com a troupe fazendo
habilidades, e que Wilhelm, compadecido do seu destino, e logo atraído por ela
a compra por 30 tálers (30 dinheiros de Cristo…), libertando-a do jugo cruel do
seu dono, que era o dono do circo.
(Mas
permanence o nome de Mignon: de origem francesa, Mignon era na corte o favorito
do rei; detecto aqui no romance alguma ambiguidade de relação, implícita, mas
que não se pode confirmar).
Ela
será a favorita de Meister, e a ele se devota de todo o coração.
Pela
mão dele sera educada, vestida como deve ser, ainda que sempre de branco,
alusivo a uma outra origem, mística, mais sublime. Um embrião de alma descido a
um mundo de imperfeição.
Mignon
não fala, ou muito pouco, e sempre de modo hermético, carregado de alusões:
canta, como se fosse o seu modo natural de expressão, mais intuitivo e
expressivo do que seria um dizer articulado.
O
seu mundo é o da pura emoção. Daí que ao longo dos tempos tenha inspirado
tantos e tantos compositors, sendo Shubert um deles.
Do
ciclo que vamos ouvir, a canção mais célebre é a da nostalgia de um país
maravilhoso, solar, em que florescem limoeiros e laranjeiras, se erguem belos
palácios e antigas lendas e mitos encantam a imaginação. É para aí que Mignon
deseja ir, levando Wilhelm, Amado, Protector, e Pai.
Conheces
o país onde os limões florescem,
E
brilha na folhagem escura o ouro das laranjas,
Do céu azul sopra um vento suave,
A murta silenciosa e o altivo loureiro,
Conheces?
Do céu azul sopra um vento suave,
A murta silenciosa e o altivo loureiro,
Conheces?
Partir!
Partir,
O
meu desejo é ir para lá contigo, meu Amado.
Conheces
a casa? Sobre colunas está pousado o tecto,
A
sala brilha, refulge o aposento,
As
estátuas de mármore fitam-me com o seu olhar:
Pobre
criança, que fizeram contigo?
Conheces isso?
Partir, partir,
É o que desejo, contigo partir, meu Protector
Conheces o monte, o carreiro entre as nuvens?
Conheces isso?
Partir, partir,
É o que desejo, contigo partir, meu Protector
Conheces o monte, o carreiro entre as nuvens?
A mula procura o caminho na névoa;
Nas
grutas vive a antiga raça dos dragões;
Despenham-se os rochedos e em torrente as águas,
Conheces?
Despenham-se os rochedos e em torrente as águas,
Conheces?
Partir!
Partir,
Seguir
nosso caminho! Ó
Pai, vamos embora!
Nos
últimos capítulos do romance saberemos do que se trata e quais foram as
peripécias trágicas da vida de Mignon.
Mas
a resolução final do mistério, ou dos mistérios, da sua vida terrena, que tanto
aproximou Wilhelm da sua própria iniciação nas mais altas esferas da vida
Superior (a que a protecção da Sociedade Torre não é alheia) não impede a dúvida
que permanece:
Afinal
o que representa, na iniciação do herói esta jovem Mignon? Raptada (do seu
mundo perfeito, que ela evoca numa canção), sofrendo em silêncio os males (a
degradação) do mundo (evocados noutra canção), protegida pelo herói , que a
entrega aos bons cuidados de uma alma generosa, Natalie (com quem Wilhelm virá
a casar) morrendo nos seus braços do amor excessivo que a consumia em silêncio
– afinal o que representa ela?
No
segundo capítulo do livro VIII
Mignon surge diante das outras crianças da casa vestida de Anjo, numa
figuração alegórica (como era costume, ao tempo, para surpresa e divertimento
nos salões, perante amigos e convidados).
É
travado um diálogo que remete para o Maerchen, conto maravilhoso datado de 1795, próximo da escrita
dos Anos de Aprendizagem,
carregado de simbólica alquímica e maçónica em que diálogos cifrados
também cumprem um papel.
Natalie
explica a Wilhelm que Mignon, na companhia das meninas da casa de que ela se
ocupava, se habituara a gostar das roupas femininas, antes tão difíceis de lhe
impôr. E para festejar o aniversário de umas gémeas a vestira de Anjo, de
longas vestes brancas, a que não faltava um cinto dourado, tendo-lhe colocado
também na cabeça um diadema igual. Tinha ainda duas asas a compor a imagem. Nas
mãos levava um lírio e um cestinho com prendas.
À
sua chegada Natalie exclama: Aqui está o Anjo!
E
seguem-sa as perguntas das crianças, que reconhecem Mignon.
-Tu
és um Anjo?
-Quem
me dera, responde Mignon.
-Por
que trazes um lírio?
-Se
o meu coração fosse tão puro e sincero eu seria feliz.
-E
as asas? Mostra lá!
-As
mais belas são as que ainda não se abriram.
Cumprido
este momento mágico ( e de verdadeira iniciação, como acontece no Maerchen), quiseram despir Mignon das suas vestes, ao que ela
se opôs, pegou na sua cítara, sentou-se numa escrivaninha e cantou uma canção
de grande suavidade: “ So lasst mich scheinen, bis ich werde / Zieht mir das
weisse Kleid nicht aus! “
Nesta
canção se exprime o alto conhecimento adquirido por toda uma experiência de
vida que trouxe Wilhelm Meister até aqui, ao reencontro com Mignon, e com o
destino que junto de Natalie o tornará maduro e sábio, pois entenderá as
emoções que desde a juventude (na agitada vocação teatral o tinham perturbado).
Mignon for a a sua Anima : incipiente, indefinida, como um Daimon ( a que
Goethe se refere, noutros escritos) exprimindo-se por impulsos intensos a que
cedia. Mignon morrerá para ele sobreviver: pois a pulsão tem de ser integrada (
sofrer morte simbólica, como na alquimia) para se progredir no domínio da Razão
superior, da Sabedoria que só a vida concede. No Maerchen, de que se respira
aqui muito da sua influência, as palavras de redenção iniciática são maçónicas:
a Sabedoria, a Aparência, a Força ( na maior parte dos tradutores de “die
Weisheit, der Schein, die Gewalt” , a que no Conto se irá acrescentar outra
palavra, o Amor, como força criadora). Rudolf Steiner, Oswald Wirth, teósofos e
maçons é assim que traduzem estas
palavras de iniciação.
João
Barrento, na sua tradução escolhe a palavra que me parece mais adequada: “ a
Sabedoria, a Luz e a Força” (p. 318, vol I, ed. Relógio d’Água).
Porque
o verbo scheinen, e especialmente
aqui, nesta canção de Mignon,tem tudo a ver com o brilho, o brilho da luz da
alma, da pura essência em que ela, ao morrer se tronará para sempre, ascendendo
à esfera em que não se distinguem mais as formas masculinas/femininas,
partilhando todas a mesma fusão do Uno e do Todo na perfeita completude
primordial.
Assim
também eu traduzo de um modo que me parece mais fiel ao ideário iniciático de
Goethe, esta canção que fecha o ciclo, aberto no capítulo IV do Livro Segundo,
quando Wilhelm, ao ver Mignon surgir de surpresa e logo fugir dali, não sabe
dizer ao certo se a criança é rapaz ou rapariga. Opta pelo sexo feminino, a que
ela se irá moldando com o tempo (sobretudo com Natalie). O que faz todo o
sentido, pois Mignon será um daimon prefigurando uma Anima que Natalie
incarnará por completo, já no fim.
Curiosamente,
ao traduzir esta canção, João Barrento que no Maerchen optou pelo brilho da luz, aqui cede ao jogo da rima
entre parecer e ser (scheinen /werden)
recuperando o termo dos tradutores que acima referi.
Prefiro
manter a sedução da luz e do brilho das altas esferas, até porque o termo werden implica, como no Fausto, transformar-se, não é um verbo estático, como sein, em que o ser (a essência) já se dá por adquirida.
Deixai
então que brilhe até me transformar,
Não
me tireis ainda as brancas vestes!
Da
bela terra apresso-me a sair
Para
descer àquela escura casa.
Deste
termo, “feste Haus” casa segura,
há uma variante, que prefiro recuperar: “ dunkle”, escura. Pois é na descida à escuridão da alma ( a
casa) que toda a sublimação se dá.
Aí
descansarei por um momento,
Até
que que em mim se rasgue um novo olhar
E
deixarei então as vestes puras
O
cinto e a coroa de enfeitar.
E
aquelas formas celestiais
Que
não distinguem homem ou mulher
Ou
roupagens ou pregas envolventes
Receberão
o corpo sublimado.
É
certo que vivi sem esforço nem cuidado,
Mas
sofri dores bastantes nesta vida
E
de desgosto envelheci antes de tempo;
Fazei-me
jovem de novo eternamente!
Aqui
está finalmente a chave do romance e a sua conclusão: que o mistério da vida é
insondável, que o destino é força que tem de ser entendida e assumida na sua
complexidade, que inclui a treva ( o sofrimento) como inclui a luz, a Vida
Eterna por todos desejada.
Jeanne
Ancelet-Hustache, grande germanista, tradutora de Wilhelm Meister,(ed. Aubier
Montaigne) relembra no Prefácio os poemas órficos de Goethe, nos últimos anos
de vida (1815-1831). Um deles é especialmente interesssante para esta
figuração, fulguração de Mignon como daimon-pulsão sublimadora: o título é Daimon, e tem o
seguinte verso: “ a ti não fugirás, assim terás de ser” (trad. Paulo Quintela).
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