Wednesday, September 19, 2007

Um forno alquimico



Este e os outros desenhos anteriores são figuras frequentes nos ms. herméticos em que se deseja, pela imagem, abrir o sentido do texto.

Fases da Obra



O vaso do Graal e o sol figurando a sublimação,
em baixo as fases antecedentes, da albedo e da rubedo: rosa branca e aurora vermelha.

Fases da Obra



A árvore dos filósofos crescendo e transformando-se no nterior da terra-mãe, o vaso hermético.

Do Splendor Solis



cauda pavonis

do Rosarium Philosophorum



A Ablução dos filósofos ou Purificação.

A Pedra filosofal é andrógina, pois representa uma união de opostos.
A água em que se dissolve para se purificar é uma água que cai do céu, é divina, daí que se diga que esta é a fase da verdadeira sublimação.
Nas figuras seguintes ver-se-ia a "alma" da Pedra ascender, alada, ao céu.

Monday, September 17, 2007

Libro del Tesoro


Libro del Tesoro. fecho por mi D. Alonso que soy de España.

Esta é uma cópia desconhecida, até à data, que se encontra na Biblioteca da Ajuda, incluída numa miscelânea manuscrita juntamente com outros textos alquímicos.
Para melhor compreensão devemos ler, como disse num post anterior, os estudos de Luanco e de Juan Garcia Font.
Das notas ao Libro del Tesoro ó del Candado, o primeiro texto que ele aborda no volume de 1889, escreve que são conhecidos dois códices, indevidamente atribuídos ao Rei D.Afonso o Sábio: um está guardado na Biblioteca Nacional e foi descrito por D.Tomás António Sánchez; e o outro está na Academia Sevilhana de Buenas Letras, divulgado por D.José Amador de los Ríos.
Luanco faz uma transcrição anotada de ambos, colocando-os lado a lado na página para que se vejam as diferentes variantes .
Já no volume de 1897 um terceiro tratado é acrescentado a estes, e igualmente transcrito: o do códice de Palomares, sendo que neste encontro as semelhanças que farão do nosso ou uma cópia sua ou uma primeira versão, algo que merece ser estudado.
A D. Francisco Javier de Santiago Palomares pertencem os três tomos en folio, manuscritos "com a formosa letra espanhola do calígrafo Palomares..."em que se encontra outra versão do Livro do Tesouro, juntamente com uma preciosa quantidade de outros tratados alquímicos de autores de renome. Luanco considera esta a mais copiosa colecção alquímica jamais encontrada entre as espanholas que conheceu.
Luanco observa ainda que os volumes não foram numerados e é possível que não sejam os únicos saídos da mão do copista:"No están señalados los tres volúmenes con los números ordinales y acaso no séan los únicos que salieron de la mano del pacientísimo copista".
O mais interessante é ainda verificar o interesse que o copista demonstrou pela matéria alquímica ao copiar e traduzir, do latim e do francês para castelhano, os outros textos constantes destes volumes.
Tendo sido o autor de uma Arte Nueva de Escribir, foi-lhe fácil, nalguns casos, pôr em verso a matéria traduzida.

Deste modo veremos Luanco transcrever, para melhor comparação de variantes, o códice de Palomares, que ele considera o mais completo, contendo descriçoes e estrofes que faltam nos de Madrid e de Sevilha. Ao todo contam-se 77 oitavas, número muito da preferencia do Rei Afonso X (mas não esqueçamos que se trata de uma atribuição, ou como tal considerada até à data pelos especialistas).
Segundo Amador de los Rios o autor deste livro do Tesouro foi o famoso D.Enrique de Aragão, Marquês de Vilhena.

Quanto ao noso códice, é proveniente da Biblioteca do 2.Conde de Redondo, D. Tomé de Sousa (o que se vê pelo sinal da guarda).Esta biblioteca foi vendida pela sua viúva, depois do terrmoto, ao Rei D. José e integrada na Biblioteca Real.

Logo de início, e como era habitual entre os adeptos, para se resguardarem de possíveis acusações, o autor agradece a Deus as grandes misericórdias que lhe concedeu, a sua santa fé e e o alto bem do conhecimento da "pedra dos filósofos". Citando Salomão, recorda que não há Sabedoria sem bondade- daí que, mercê da Pedra, se tenha dedicado a muitas obras de caridade. Para que os segredos do Livro não caissem em mãos indevidas escreveu o autor em versos :
" Porque yo dixe ca syendo comun llegaria a manos de homes no buenos; y porque sepades en como fuy sabido deste alto saber, yo vos lo diré en eroicas, ca sabed que el verso face excelentes y mas bien oydos los casos".
Ainda nesta apresentação comenta que com este grande Tesouro aumentou os seus bens, guiado pelo seu Mestre. A referencia aos bens materiais proporcionados pela Pedra Filosofal aumentaria certamente a curiosidade de todos os que viessem a ler este Tratado. Mas o bom tom mandaria que o "trabalho" fosse iniciado em nome de Deus:
" En el Nome de Dios face principio la obra".
Das terras de Egipto chegou a notícia de um sábio astrólogo e bom profeta de feitos vindouros.O rei envia-lhe um mensageiro, convidando-o para a sua corte:
" aberes,faziendas, y muchos dineros
allí le offreci con sana intencion".

Vem então de Alexandria o sábio generoso, que avisou não querer ouro, nem prata mas apenas servir com boas graças o rei que o procurava. E diz o rei:
"La piedra que llaman philosophal
sabia facer, y me la enseño
ficemosla juntos; después solo yo
con que muchas veces crecio mi caudal
e viendo que puede facerse otro tal
de muitas maneiras mas siempre una cosa
yo vos propongo la menos penosa
por más excellente, y mas principal".

De notar que há muitas maneiras de fazer a Obra, tal como haverá muitas cores a marcar os sucessos, e muitos nomes a designar a Pedra.
Em seguida refere-se que os ensinamento não provieram de caldeus, nem de fenícios, nem de árabes, egípcios, sírios, indianos, sarracenos- nenhuma das gentes do Oriente. Talvez para afastar fantasmas de magia, que sempre acompanharam o imaginário relativo à Arte alquímica. Explica então:
"Ficieran mi obra, yberos tan buenos
Que honran las partes de nuestro occidente".

O segredo será transmitido em verso e em cifra, sendo esta a maior dificuldade que o adepto terá de vencer. Até hoje ninguém entendeu a cifra com que se fecha a primeira parte do tratado.
De estrofe em estrofe vai o autor resumindo a essencia da sua Arte.
Os vários nomes da Materia Prima da Pedra, com as várias qualidades que lhe são conhecidas, sempre desenhadas em pares de opostos: húmido e seco, representando as duas vias possíveis, que formam o um e o todo: "ca en un singular/contiene dos cosas de una vegada".
Assim encontramos o quente e o frio, o homem e a mulher, a água e a terra, - e de todos estes contrários a imagem de um "matrimónio" que já Hermes definira como sendo de Céu e Terra.
Chega-se à Quinta-Essência que é "essencia de todo /porque esta materia es en tal modo/ ca todas las cosas viene à componer".
Materia prima, "antigo caos", quinta-essencia : a Pedra resulta da sublimação desta primeira massa confusa da qual tudo,vegetal, mineral, animal, no universo criado, se origina.Este é o primeiro dos olhares dos sábios sobre o mistério da criação do universo.

A descrição dos utensílios é a que normalmente se encontra desenhada, ou apenas referida:
um vaso esférico de vidro ( que muitos denominam de útero,de ventre ou de matriz ), um tacho de barro onde o vaso é metido, um forno de barro, um fogo lento, de lenha, para a cosedura secreta.
No vaso de vidro foi colocado mercúrio: é ele, o produto lunar ( a matéria húmida da obra ) que terá de ser unido ao enxofre solar e seco em posteriores operações.
A esta primeira parte de trabalho da materia chama o autor "tierra/ sulfur,muger, calido y seco...Penélope,...viuda palida y flaca". Por uma razão, terá de dar-se logo a conjunção com os outros elementos ( opostos ) que a completem, em partes iguais.
Teremos então a marca da nigredo, o negro, indicativo da "corrupção" da materia primeira, a larva que se transformará em borboleta alada ( as várias cores, e a representação da Pedra sublimada, pois ganhou asas que a elevam da terra ou da água, conforme o caso ):

Veredes la obra en la su negrura
Trocando aquel ser de como nació
ca no será ya la cosa que obró
en su principio la Madre Natura.
....
Non vistes la carcel que fiço de seda
para si el gusano adonde murió
e alli su cadaver por muerto fincó
en fuesa que fiço adonde se enreda
ca la corrupcion en este non veda
de le resurgir en forma distinta
de la su primera, pues naçe y se quiere
vivo, e con alas en forma mas leda".

Na vida da Obra nasce um espírito novo a partir de uma nova substância, marcada pela côr negra.
Surgirão em seguida muitas outras cores, designadas pelo termo de cauda pavonis e que o autor descreve deste modo:

" Despues de pasada aquesta color
vereis otras muchas en sus diferencias
ca son semejantes en sus aparencias
al Argos, y al Iris en su resplendor
Ca la sequedad del liquido humor
face ser esto de varia pitura
fasta llegar à cierta blancura
adonde aumentad un poco el calor".

Da nigredo e da cauda pavonis à albedo, o branco da sublimação desejada, indicando a perfeição da Pedra:

" Ca à la fizacion entonces se obra
e no puede ser jamas desunida
aunque mil años fuese escondida
porque la Union entonces se cobra".

A transmutação continua, indicada pelas cores amarelo-citrino (citrinitas) e vermelho, ou neste caso "roxo muy puro (rubedo), terminando a Pedra por fixar-se no corpo de um rubi.
Outras indicações foram deixadas, mas significam o mesmo processo de transmutação da albedo à rubedo: elixir de prata, para o branco, pedra citrina para o ouro que se deseja obter no fim.

Se desejar a continuação da sua Obra, deve então o adepto prosseguir calcinando a Pedra, agora colocada em vasilha de barro tapada por outra igual ed eixada a cozer em fogão de lenha.
Como se tudo voltasse ao princípio, da Pedra se regressa ao pó (da calcinação), às cinzas, cujo poder terá sido aumentado de tal forma que a materia se torna divina, quinta essencia "que a todo se aplica,e todo es potencia/ e ser de la cosa a do se encamina".
Mágica qualidade a deste princípio da Natureza transfigurada pela mão do alquimista:

" En este principio de Naturaleza
no es oro, ni plata, ni otro metal
ni forma sujeta a algun vegetal
mas disposición que a todo endereza.
Si al oro se aplica,del toma firmeza
para convertir en oro las cosas.
Si al home lo mismo por obras famosas
le da sanidad con suma entereza".

Mudou-se então a matéria em Elixir de longa vida, a outra variante tão procurada, tão ambicionada quanto a riqueza acrescentada do ouro pelo toque do ouro.
Ao caminhar para o fim da lição, deixa o autor a indicação da Pedra, como tal, do Elixir, se essa fôr a escolha, e mais um último segredo: o da projecção, a saber do aumento proporcional da quantidade de Elixir, ou de Pedra calcinada que se deseje obter.
Basta um grão para garantir saúde, sorte, fortuna...

"A todo se aplica, e todo convierte
en un natural bien complesionado
un grano partido deaquesto es tomado
por boca le face al home ser fuerte
al flaco, e debil le pone de suerte
que tanta salud no tuvo ninguno.
Si el tiempo que à todos es importuno
a este le lleva sano à la muerte.

Finis laus deo "

Repare-se na fina ironia do último verso, recordando que a morte a todos levará, quando chegar a hora, estejam doentes ou muito bem de saúde...Findo o exercício alquímico o que o autor nos lega é o mistério de sempre: o da utopia de que ao homem é permitido "mudar" a natureza, interferindo ( ainda que para o melhorar, o "redimir", como diziam alguns) no projecto da criação divina.

Seguem-se no manuscrito um conjunto de considerações ilegíveis, incluindo o tal discurso cifrado, e apresenta-se de seguida a 2a. Parte del Rey D.Alonso.

Sunday, September 02, 2007

Biblioteca da Ajuda

Na década de 80, ao longo de vários anos, procurei na Biblioteca da Ajuda obras de filosofia hermética que a meu ver teriam de existir, pois Portugal nunca esteve alheado do que se passava no resto do mundo culto e oculto da Europa medieval e renascentista.
Ainda no século XVIII Anselmo Caetano dava testemunho da existência desses conhecimentos e dessa cultura, no seu tratado da Ennoea.
Anteriormente a ele Duarte Madeira Arraes, médico de Dom João IV, no tratado do Vitriolo philosophorum mostrava não ignorar a medicina paracélsica.
O caso não é diferente com Dom Franciso Manuel de Melo, ilustre homem de letras.A ele se deve o Tratado da Ciência Cabala, onde todos os aspectos da Cabala judaica são abordados com grande erudição, exceptuando a Gematria, a ciência numérica, condenada por ser de magia, devendo por isso (e por muito temor à Inquisição) ser posta de parte pelo autor . Mas não duvido que até essa parte da matéria o nosso erudito conheceria.
Procurando recuar no tempo, apresentei a dada altura na Academia das Ciências uma comunicação em que tentava mostrar como na época do Humanismo as matérias gnósticas e herméticas circulavam, em meio restrito, é certo, mas a cultura sempre foi apanágio de meios restritos e isso em nada diminuiu a importância que de facto teve, influenciando o pensamento e a obra de muitos autores celebrados à época (Dante, por exemplo, seria um deles).
Pude então afirmar que alquimia e humanismo foram marcas do Portugal Renascentista ( Publicações do II Centenário da Academia das Ciências de Lisboa, 1988 ).
Na "Rellação" da Livraria de Frei Vicente Nogueira, que encontrei em Paris, no fundo português da B.N.P., podemos ler uma lista grande de autores, medievais e não só (muitas obras de Paracelso ali se encontram citadas), o que justificava a apreensão que foi feita pela Inquisição.
De igual interesse, no nosso século XVI, é a obra de Frei António de Beja, estudada pelo Prof.José V. de Pina Martins, que detecta a influência de Pico della Mirandola e através dele do Corpus Hermeticum, traduzido por Marsilio Ficino.
Diz Pina Martins:" Não temos elemntos para poder documentar a existência em Portugal de textos herméticos, anteriormente à citação de Fr.António de Beja..."
E ainda que " o pensamento de Marsilio Ficino se insinuou na poesia europeia e portanto também na portuguesa do Renascimento, de Sá de Miranda a Camões, e no pensamento humanístico português, através do influxo directo ou indirecto de alguns dos seus discípulos, como Pietro Bembo, Leão Hebreu e outros".
Continuando ainda no século XVI, iremos encontrar em João de Barros, na Ropica Pneuma, a prova provada de tais conhecimentos. No discurso que a Razão faz ao Tempo, e na resposta deste, encontra-se referenciado o processo alquímico. Só que se trata de uma "má alquimia", de uma inversão de processos, e não do modo justo de seguir o caminho da virtude e da sabedoria que a boa alquimia permite ( ver João de Barros, Ropica Pnefma, edição do INIC,vol. II, pp. 135-36) .

E chego então ao ponto que interessa, da Biblioteca da Ajuda.
Dois códices, de manuscritos inéditos de matéria alquímica e profética, sebastianista, aguardam os estudiosos.
Um deles contém as Profecias de Merlin sobre as Espanhas, e deve-se à Prof.Rita Costa Gomes a datação (c.1650) e a transcrição do mesmo.
As profecias de Merlin foram compostas entre 1366 e 1370, havendo os seguintes impressos:
El Baladro del Sabio Merlin ( 1498 )
El Baladro ( 1535 )
Prophecias ( 1500 )

Como primeira bibliografia em português para estas matérias sugiro W.Entwistle, A Lenda Arturiana nas Literaturas da Península Ibérica, Imprensa Nacional, 1942.
Em língua espanhola, A.B. y San Martín (eds.) La Demanda del Santo Graal ( contém o Baladro, ed.Sevilha de 1535 ), Nueva Biblioteca de Autores Españoles,tomo VI,Madrid 1907.
E de B. Balaguer, Los Textos Españoles y Gallego-portugueses de la Demanda del Santo Grial, Madrid,1929


No mesmo códice se encontra um ms. de maior dimensão, do Livro do Tesoro atribuído a Afonso X.
Fiz eu a transcrição que, tal como a de Merlin, se encontra inédita.
Para este tratado e suas variantes conhecidas ver :
José Ramón de Luanco, La Alquimia en España (fac-simile de los dos tomos de 1889 y 1897 ), Barcelona, 1998

Na Biblioteca da Ajuda é grande e interessante o repositório dos textos alquímicos.
Basilio Valentino, em tradução francesa ( o que ajuda quem não saiba latim);
Livre de la vraie pratique de la noble science d'alchimie (tem desenhos dos utensílios que se usam);
La Fontaine des Fontaines composée par un frère de Rose Croix...
e outros, aguardando estudiosos com disponibilidade e empenho.

Quanto à matéria profética, temos ainda na Ajuda O Incuberto, de Anonymo Utopiense...( 1649 );
e uma Colecção de Profecias e Vaticínios sobre el-Rey D.Sebastião ( 1808 ).

Muitas outras obras de igual interesse se encontram em Évora, na bela colecção de Incunábulos que contém, por ex., de Raimundus Lullus, a Arbor Scientiae (1482 );
o Herbarius de Arnaldus de Villa Nova (1499 ); as Opera de Picus de Mirandula (1498), só para dar alguns exemplos.
Numa época em que o Esoterismo parece despertar de novo, por boas ou más razões,um renovado interesse, é um desafio para os estudiosos dedicar parte do seu tempo a estas investigações. Os materiais estão aí, à sua disposição.

Wednesday, August 29, 2007

Maria Profetisa


A cmondim, esta gravura de Maria Profetisa.
Leia nos comments o 5, onde lhe dou alguma informação sobre o tema.
E pergunte sempre.
Na gravura Maria indica o segredo da Obra: união do inferior e do superior, do céu e da terra, como quinta essencia (as cinco flores dentro do círculo de fogo). Por outras palavras, a união de opostos como figuração do andrógino primordial, em que o filosofo adepto se revê.

Monday, July 23, 2007

Maria Profetisa



Esta é uma descoberta, feita numa das nossas bibliotecas, que dedico e disponibilisarei, com tempo, aos verdadeiros amantes da alquimia.
Trata-se de Livro Abreviado de Maria Profetisa, constando de dois folios e verso.
Aqui fica, enquanto parto, por um tempo.
Mas podem contactar-me, para mais informações; há mais, na biblioteca de onde este proveio...

Monday, July 09, 2007

Sunday, July 08, 2007

Wednesday, June 06, 2007

Comentarios aos Sete Cantos de Taut


O leitor mais atento percebeu com certeza que são Cantos dedicados a Thot, o deus Hermes dos antigos egípcios, pai fundador da arte alquímica.
Os poemas são colocados sob a égide de Virgílio e Dante- os grandes condutores da experiência mística e mítica da alma.Pois é dessa experiência profunda que se trata, por meio de uma imaginário que pode ser descrito à luz do modelo de Bachelard, entre outros.
Logo no prelúdio é celebrada a Terra, como Grande-Mãe, e de seguida a Água, como fonte de vida jorrando do seu seio.
Terra e Água serão as propiciadoras da grande transformação. Mas também fica apontada a utopia, a retomar no último dos Cantos, de uma cidade onde se poderá erguer a voz num cântico de estrelas.

Escolhi para ilustrar o Canto I a gravura VIII da Atalanta Fugiens em que o adepto ergue, para abrir o ovo da vida, o glaivo endurecido ao fogo da lareira (da alma) alquímica. Esse é o gesto que permite iniciar o trabalho da Obra.
A legenda reza " pega no ovo e e bate-lhe com um glaivo de ferro" ; este gesto, com esta espada, permitirá que nasça o pássaro que vence a dureza do ferro ( a alma endurecida ) e o excesso de calor do fogo ( a pulsão ainda não sublimada ).
Poderia ter escolhido outra gravura, a X, dedicada exclusivamente ao elemento fogo e seu papel na transformação necessária.

Aqui a legenda reza: " Dá fogo ao fogo, mercúrio a Mercúrio e isso é suficiente". Vemos o adepto junto à lareira acendendo o fogo e dois Mercúrios ( Hermes ) com o caduceu na mão, contemplando o trabalho.

No Canto II são reforçadas as imagens da água ( o mar ) e do fogo num novo casamento de opostos, desenvolvido melhor "nas bodas do sol e da augusta Terra" da terceira estrofe. Essa é a mensagem: a das Bodas Químicas, narradas por J.Valentin Andreae num célebre tratado que fez furor na época da sua publicação, continuando pelo tempo de M.Maier.

Mas esta primeira união ainda não é a definitiva, é um vislumbre apenas do que poderá ser, se bem sucedida a Obra de sublimação, o futuro do adepto como fundador e construtor da cidade da paz.

As imagens mais fortes são a do negro chumbo, do mau cheiro da podridão de cadáver que tem de ser decomposto - a "obra ao negro, enfim- a descida ao abismo da "massa caótica" de um inconsciente descontrolado, entregue às suas pulsões mais baixas- veja-se a referencia ao "porco"chafurdando na lama, como parte do bestiário desta poética hermética. Há um eco de Rimbaud - Le Bateau Ivre - no apelo do mar, da descida ao abismo, da visão do inferno.

A evocação de Dante, no Canto III, recentra o tema do homem no coração do mundo, o homem no centro da esfera da criação, conduzido à luz pela energia positiva do amor "num rodopio eterno". A experiência do negro permitiu esta nova fase em que a cidade ideal se aproxima , fraterna. O poeta exclama:" mundo, nada está fora de mim" - visto o mundo, descoberta a esfera da cadeia dos seres, a alma roda como uma estrela que cintila.

A sementeira faz-nos regressar ao elemnto terra, sua fecundidade, ouro na espessa treva.
E descreve-se, no Canto IV o templo, obra das próprias mãos, a arca com o tesouro, o hino eterno que sublima os ares.Mudou-se de fase, a presença dos elementos espirituais que o templo representa permitem um grande avanço no caminho.

O Canto V proclamará a santa Liberdade: noite vasta/ dia abençoado (conjunção de opostos, sempre desejada, sempre repetida) o adepto segue, vai com o vento ligeiro e aqui ficaria bem reflectir de novo com M. Maier noutra sua gravura, cuja legenda reza : "E o Vento levou-o no seu ventre" ( aludindo ao embrião da Pedra Filosofal, a matéria da Obra a sublimar ).


O embrião contido no ventre poderá depois ultrapassar os heróis pela força do seu braço, do seu espírito, do seu corpo, da sua arte.
Quando o poeta exclama: " Morte, atravessei-te.Meu domínio é sem fim", fez entrar a dimensão do espaço na dimensão do tempo que vivera. E o espaço é amigo, o espaço concretiza, fixa o volátil na " ordenação medida" com que o circunda ou enquadra.A vivência do tempo místico é vertical, espiralada, mas a "ordenação" do espaço é o que permite imaginar a quadratura impossível do círculo. Ainda que descrito como espaço sem fim vemos pelos restantes versos que esse espaço é o da natureza, a terra aberta ao infinito do céu (nas Bodas já citadas).

Os cantos VI e VII são o fecho de glória de um caminho percorrido : vazio fecundo, terra firme, ponto no centro do Todo, rosa ( a de Dante no Paraíso, mas também a que dá o mel às abelhas, no Rosário dos Filósofos...).
O indefinível é cantado com emoção e agora afirma-se o glaivo de ouro ( antes fora espada de fogo ), o véu rasgado (deixando ver a luz), o silêncio quebrado (revelando a palavra): " le dedans est dehors, o interior está no exterior", na conclusão final.

A alma dissolve-se no ar em pó de diamante e eis a combustão : a palavra francesa, embrasement, permite um aprofundameno em embrassement ( o abraço dos amantes, a fusão ) que o trocadilho anterior entre Aimant , Íman , e Amant, Amante, já vinham indicando.

Termina-se de novo com Dante e Virgílio, egrégios antepassados.E glorifica-se a Obra do Poeta:

"Poeta, tu bem sabes: a morada do homem
É uma teia tecida em ouro pelo Espírito.
Tem piedade, comigo, desses reis sem domínios:
No seu deserto que oiçam o meu grito.

Ergueremos então sobre as ruínas antigas
Uma cidade, espelho da ordem verdadeira
Onde a sombra e o sol, brincando sob os pórticos
Ofereçam às almas a imagem da paz".

Thursday, May 31, 2007

E. Perrot, L'Invocation




Dante, le jonc sacré que te montre Virgile
Et qui t'ouvrit les portes du soleil,
Daigne en ceindre aujourd'hui ce beau vase d'argile,
Vide mais pur au sortir du sommeil.

Le silence du gouffre a chatié ma langue,
Les mots anciens ont perdu leur éclat.
Brûlés, devenus plomb, j'ai tiré de leur gangue
Des flèches d'or qui ne se perdent pas.

Maître archer, comme moi pèlerin des trois mondes,
Guide mon bras, rends audacieux mon front.
Que l'enfer et le ciel, que ce siècle répondent
Lorsque ma voix a dit leur juste nom.

Poète, tu le sais: la demeure de l'homme
Est un réseau tissé d'or par l'Esprit.
Prends avec moi pitié de ces rois sans royaume:
Dans leur désert, qu'ils entendent mon cri.

Nous bâtirons alors sur les ruines antiques
Une cité, miroir de l'ordre vrai
Où l'ombre et le soleil jouant sous les portiques
Offrent aux coeurs l'image de la paix.

E. Perrot, Sept Chants de Taut, VII


VII
L'Insaisissable

Qui cernera les bornes de cette âme ?
Qui saura de ses mains emprisonner le vent ?
Qui pourra contenir le cours de cette flamme
Et te dicter sa règle, universel Aimant ?

Suivant le bon plaisir de ta jeune Sagesse,
Tu plonges, tu jaillis, clarté tu te fais nuit,
Tu places des fruits lourds aux branches d'allégresse
Ou laisses l'arbre vide en un désert d'ennui.

Mais cessons d'invoquer, car il n'est que présence:
Dans ma secrète main j'ai pris le glaive d'or.
J'ai déchiré le voile et brisé le silence:
Tout bouge, tout vrombit; le dedans est dehors.

Où donc est cet amant ? Où donc est l'âme en quête?
Dissous dans l'air ténu! poudre de diamant!
Le mur qui les créait en suspendant la fête
A croulé, vermoulu: voici l'embrasement!

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E. Perrot, Sept Chants de Taut, VI



VI
Cantique des Aigles

Des quatre vents de l'univers,
De vos retraites ignorées,
Rouges aigles, accourez vers
Ces carcasses humiliées.

Engouffrez-vous de toutes parts,
La place est béante et déserte:
J'ai découronné ses remparts,
Mes mains ont fabriqué sa perte.

L'oeil mortel ne pourra le croire:
Vous étiez là depuis toujours,
Fondus en un soleil de gloire,
Sphère vibrante et sans contours.

Vide fécond, Terre affermie,
Réseau d'or animant le Tout,
Infime point, rose, cadmie,
Merveille vive au coeur du fou !

E. Perrot, Sept Chants de Taut, V


V
Cantique de l'Immortel

Comment te chanterais-je, ô sainte Liberté ?
Tous les mots pour te dire abandonnent ma plume:
Ta gloire est infinie, entière ta clarté,
Nuit vaste, jour béni, Saison sans amertume.

Je ne sais d'où je viens, où je vais ne m'importe:
Au plus léger des vents je cède sans efforts,
Qu'à la cime du monde il m'invite et m'emporte,
Qu'il m'aspire en l'abîme où sommeillent les morts.

Trépas, je t'ai franchi.Sans borne est mon domaine.
J'ouvre et ferme en riant les demeures du ciel.
Triomphant moissonneur de cette haute plaine
J'engrange le blé d'astre au goût divin de miel.

Mère qui me portas, sein tiède, face obscure,
Val humide et profond où je dormis longtemps,
Le voici donc ton maître et ton époux, Nature,
Ce ver informe et vil, dernier de tes enfants.

Wednesday, May 30, 2007

E. Perrot, Sept Chants de Taut, IV



IV
Cantique des Semailles

Esprit du monde, artisan de beauté,
Anime cette voix qui te célèbre:
Ta gloire emplit mon coeur: viens en jeter
Les graines d'or dans l'épaisse ténèbre.

Le temple pur ouvrage de tes mains,
L'arche parfaite aux vivantes colonnes
S'offusque, en proie aux injures de nains
Qui pour leur front ravirent ses couronnes.

Ecrin de choix rempli de tes trésors
L'homme, ton fils bien-aimé, ton vicaire
Verse un oubli le plus noble des sorts:
Nul chant de source en cette morne terre.

Fais refleurir les sables du désert!
Peuple de tours les villes dévastées !
Et que ruisselle, aux demeures de l'air,
L'hymne éternel des gorges visitées!

E. Perrot, Sept Chants de Taut, III



III
Hymne au Monde
Danti

O sphère dont je suis le coeur
Seul Fils à l'image du Père,
Vivant parfait, durable fleur,
Couronne heureuse de lumière,

La ronde où t'entraîne l'Amour
Ne connaîtra jamais de cesse,
Montrant et voilant tour à tour
Les présents de l'auguste Liesse.

La nuit m'a livré tes secrets:
En elle j'ai saisi les pôles.
Cloué sur l'axe dur, je sais
Répondre au chant de tes corolles

Et lire le poème écrit
Dans le volume que déroule
Pour le seul oeil du coeur guéri
L'Année en sa paisible houle.

Sourires du ciel mon foyer,
Cités proches et fraternelles,
Astres, ici vont se noyer
Et luire en retour vos prunelles.

O monde, rien n'est hors de moi:
Amas de biens, je te résume!
L'ayant vu, je cède à la Loi
Et tourne, étoile qui s'allume.

E. Perrot, Sept Chants de Taut, II



II
Saturnia Regna
in finem.Pro iis qui commutabuntur.
( Ps. XLIV, 1 )

O furieux amant, desserre ton étreinte:
Je suffoque, noyé dans le nuage d'or.
Aurais-je trop osé quand j'écartai la crainte
Pour consentir à toi, hâtant l'heure de mort.

Ta présence m'accable et disloque mon être
Comme la mer s'engouffre au coeur d'un vieux voilier.
J'appelais ce naufrage, et maintenant, ô maître,
Le feu noir de l'effroi ronge ce corps lié.

Les noces du soleil et de l'auguste Terre,
Le jeu divin, les hymnes du jour, les couleurs,
Tout a cessé d'un coup. Le temps n'est plus: j'adhère
A l'abîme, pays nouveau, maison des pleurs.

Le froid, le plomb, la puanteur sont mon partage.
Je vais tel un cadavre au milieu des vivants.
Leur parole ne m'atteint plus dans cette cage
Qui dérobe à mes bras ses murs tissés de vents.

Est-ce donc là le rendez-vous que tu désignes
Lorsque dès le matin tu presses de partir ?
Le cellier bienheureux, l'enclos pourpre des vignes
Figuraient cette tombe où je vins m'engloutir.

Suprême dérision: ce chercheur de merveille
Dans la boue enlisé grogne comme un pourceau.
Son front lourd de stupeur ne sait rien qui l'éveille:
Pierre muette, il gît, hébété, sous le flot.

- Il lui faut s'impregner du fiel de cette eau grasse,
Etreignant son destin, qu'il s'occupe à pourrir!
Qu'il s'accoutume à n'être plus qu'informe masse
Et laisse tout espoir de voir l'enfer s'ouvrir !

E. Perrot, Sept Chants de Taut, I



I
Liminaire Pour Epiménide

Epiménide de Gnose, étant sorti dans les champs,
entra, dit-on, dans une grotte et s'y endormit.
Le sommeil ne le quitta pas avant quarante ans.
Après quoi il écrivit des poèmes et purifia des villes,
au nombre desquelles Athènes.
( Pausanias: Descriptio Graeciae, I, XIV )

Lumière de l'automne, or souriant du soir
Où la branche en jouant répand sur moi des signes,
Tu m'annonces la paix et, douce, me désignes
Des jardins baignés d'eaux, mon nouveau reposoir.

J'ai durement peiné pour gagner ce royaume:
De mille vieilles peaux j'ai marqué les chemins.
Mais le grand vent des dieux brassa ces parchemins,
Nu comme les héros, sans traces, je suis l'homme.

O Terre des parfums et des fruits, Terre acquise
Par mes pleurs et mon sang, dis, que veux-tu de moi ?
Libre de tout devoir, recevrai-je ta Loi
Pour la porter en cet enfer où tout se brise ?

Le goût du paradis m'a quitté dans la mort,
Pierre durcie au feu j'ignore le plaisir.
D'une frêle herbe en moi tu fis un glaive fort:
Il est prêt pour ta main, si tu veux le saisir.