Wednesday, July 26, 2006

Depois da Agua o Fogo


4
Y lo que decimos que se a de imitar
por el matrimonio que se a de haçer
no quiero lo ignores pues lo has de saber
que es el sol perfetto y el mas singular
no engannen los sabios con disimular
que el sol y la luna á la obra conviene
porque en sí la luna y el sol contiene
y la esperiencia se lo ha de mostrar.

5
Entiende ó operante que es menester
que eetos dos juntos de quien e hablado
hembra y macho los emos nombrado
porque es matrimonio de hombre y muger
encierralos luego sin mas detener
no le estorues la muerte secreta
que caussa la vida muy mas perfeta
segun por la obra podras conoçer.


Adiante, nas estrofes eguintes, se passa então à chamada via seca, obra do fogo; e as indicações prendem-se com o saber regular a temperatura certa desse fogo, para que a obra não se perca.
A noção de "medida" é muito sublinhada, como a de ordem, equilíbrio, que a balança representa, harmonia, enfim.
Tem de ser harmonioso e nunca precipitado o caminho da via filosofal, seja qual for o entendimento que se tenha dela.

15
Tendrás en memoria los grados del fuego
a donde el infante se nutra y cresca
....
19
Si mas adelante quisieres passar
al ultimo grado y perfetto balor
aumentale el fuego con mucho temor
que no ay otra forma jamas que ensenãr
de blanca muy roja se te a de mostrar
aquella donçella de todos nombrada
y aqui se te muestra la obra acabada
si saues la obra de multiplicar.

Um texto alquímico deve ser lido, tal como as gravuras, em função de conceitos ou imagens nucleares.
Assim vimos apontados os princípios complementares (macho e fêmea, sol e lua, negro e branco) ; o casamento químico, na dissolução da água; a fixação do filho (a pedra filosofal) na obra do fogo; e concluída a obra com sucesso a "multiplicação" como marca final. Pois do Um nascerão Muitos, em devida proporção:

23
....
no hierres la forma de multiplicar
pues es con mercurio del bulgo mas fino
la forma y el pesso tendras de contino
escrito en tu pecho con mucho contento
y desta una parte con diez no te miento
sera todo lapis perfecto y muy fino
24
de lo postrero assi multiplicado
se tiene otra vez de multiplicar
un pesso con çiento del mismo vulgar
como primero lo tienes obrado
y todo será mediçina forçado
con que metales agora curemos
y al mismo mercurio tambien si queremos
de la imperfection perfecto acabado.

Já nas últimas estrofes ( são 28 ) se erguem louvores à Trindade, acrescentando um tom piedoso, respeitador, ortodoxo que possa garantir sossego e boa consciencia tanto a quem escreve como a quem lê, ou pratica.
Pelo caminho ficaram os princípios, os elementos, as cores,a conjunção como fase primordial, até se chegar ao elixir, ou à pedra , e à multiplicação de benesses que a sua descoberta proporciona.

Bibliografia, para selecção e entendimento psicológico da Arte Real da Alquimia: JOHANNES FABRICIUS,The Medieval Alchemists and their Royal Art, 1976

LUANCO, LA ALQUIMIA...


Um acaso feliz permitiu-me encontrar a obra de Luanco sobre a Alquimia em España, repositório de descrições de códices e transcrições de textos encontrados nas bibliotecas de Madrid, de Sevilha e outras. É um volume precioso para os estudiosos de alquimia que não possam, como ele fez, dedicar-se aos arquivos que percorreu para dar o seu contributo de grande erudição nestes domínios.
O volume que cito é a reedição fac-similada dos dois volumes publicados em 1889 e 1897, na EDITORIAL ALTA FULLA, de Barcelona.Do seu conteúdo seleccionarei, com tempo, um dos códices mais interessantes, as COPLAS DE DON LUIS DE ÇENTELLAS( sic ).
Recordo, para entendidos que, como disse um sábio que Luanco, ele próprio decano de química e Reitor da Universidade de Barcelona, gostou de citar, a química actual é " a filha sábia de uma mãe louca": la hija sabia de una MADRE LOCA.
Don Luis viveu no século XVI, foi um dos três mais destacados alquimistas do seu tempo (primeira metade do século) juntamente com o Dr.Manresa a quem escreve, em carta datada de 1552, sobre matéria alquímica do interesse de ambos; Luanco acrescenta ainda Baltazar de Zamora como igualmente distinto.Eis a primeira das "coplas"sobre a pedra filosofal:

1
Toma la dama que mora en el çielo
ques hija del sol sin duda ninguna,
y aquesta prepara en bagno de Luna
do labe su cara de su negro velo
despues si pudieres al sol y al ielo
en el mismo banno la tenga en prission
hasta que purgada de su imperfeccion
nos sea lucero acá en este suelo.

Desde logo surgem o sol e a lua como pai e mãe da Obra que vai decorrer, por via húmida (em banho, e não em fogo) até que a perfeição conseguida se transforme em astro iluminando este mundo.
A Pedra é feminina, referida como "dama" e a não ser confundida com qualquer espécie animal ou vegetal - como o autor explicará na segunda e na terceira estrofes. É esta descrição feminina da Pedra Filosofal que levará Jung, nos seus estudos, a identificá-la com uma projecção da ANIMA do adepto.

2
No entiendas que es obra de algun animal
ni menos es planta que nace en el suelo
mas es una dama que vive en el cielo
de allí nos la baxan esta obra real
y para nosotros es tan natural
que nuestros cuerpos con ella curamos
y los imperfectos perfectos tornamos
de todos secretos el mas principal.

3
Y quando tu bieres la dama hermossa
así preparada por nuestro artifiçio
has que la pongan en otro exerçiçio
á donde se vea tan maravillossa.
Juntalda luego con la otra cossa
por el matrimonio do se a de engendrar
el hijo mas noble y mas singular
que el padre y la madre y mas preciossa.


A referencia ao "matrimónio" e ao filho que dele há-de nascer é o que permite que se defina a conjunção de opostos (sol e lua,água e fogo, negro e branco,etc.) como o processo mais subtil de que nascerá o philius philosophorum, que podemos ver representado em tantas e tantas gravuras antigas.
Adiante o alquimista explicará ao adepto que se trata de macho e fêmea e que na dupla dimensão física e metafísica se entenderá o processo.Com o passar do tempo, e o receio aumentado de perseguições, dado que existiram e não foram poucas, a linguagem alquímica se "espiritualizará" mais, e se tornará mais confusa e de algum modo esvaziada do que podia ser o seu alcance profundo. A Perenelle de Flamel, companheira da Obra, Maria Profetiza, iniciada e iniciadora, desaparecerão por trás de uma simbólica pretensamente divina onde até Jesus e a Virgem como representações da Pedra terão o seu lugar.

Monday, July 03, 2006

O Soneto, com Herberto Helder

Em OFÍCIO CANTANTE ( 1953-1963 ), Portugália Editora, 1967 encontramos uma recolha da poesia com que Herberto Helder começava a renovar o país literário. Não por acaso o livro começa com uma citação de Michaux:
"Je ne peux pas me reposer, ma vie est une insomnie, je ne travaille pas, je ne dors pas ...tantôt mon âme est debout sur mon corps couché, tantôt mon âme couchée sur mon corps debout, mais jamais il n' y a sommeil pour moi...car cherchant, cherchant et cherchant, c'est dans tout indifféremment que j'ai chance de trouver ce que je cherche puisque ce que je cherche je ne le sais".
Estamos perante o labor do lê, lê e relê dos alquimistas e do esforço da contemplação e da descoberta - através de uma procura incessante.
Logo no primeiro conjunto dos poemas aparece - e de novo, julgo que não por acaso, mas por "coincidencia feliz" - a releitura transformadora do célebre soneto de Camões, de marca mística, platónica, com o seu primeiro verso tão intenso que se torna avassalador fixando-se para sempre na memória.

Eis como Herberto o leu e releu, caminhando por dentro do soneto como quem caminha, insomne, por dentro de um labirinto:

" ' Transforma-se o amador na coisa amada' com seu
feroz sorriso, os dentes,
as mãos que relampejam no escuro.Traz ruído
e silêncio.Traz o barulho das ondas frias
e das ardentes pedras que tem dentro de si.
E cobre esse ruído rudimentar com o assombrado
silêncio da sua última vida.
O amador transforma-se de instante para instante,
e sente-se o espírito imortal do amor
criando a carne em extremas atmosferas, acima
de todas as coisas mortas.

Transforma-se o amador.Corre pelas formas dentro.
E a coisa amada é uma baía estanque.
É o espaço de um castiçal,
a coluna vertebral e o espírito
das mulheres sentadas.


Transforma-se em noite extintora.
Porque o amador é tudo, e a coisa amada
é uma cortina
onde o vento do amador bate no alto da janela
aberta.O amador entra
por todas as janelas abertas.Ele bate, bate, bate.
O amador é um martelo que esmaga.
Que transforma a coisa amada.

Ele entra pelos ouvidos, e depois a mulher
que escuta
fica com aquele grito para sempre na cabeça
a arder como no primeiro dia do verão. Ela ouve
e vai-se transformando, enquanto dorme, naquele grito
do amador.
Depois acorda, e vai e dá-se ao amador,
dá-lhe o grito dele.
E o amador e a coisa amada são um único grito
anterior de amor.

E gritam e batem. Ele bate-lhe com o seu espírito
de amador. E ela é batida, e bate-lhe
com o seu espírito de amada.
Então o mundo transforma-se neste ruído áspero
do amor. Enquanto em cima
o silêncio do amador e da amada alimenta
o imprevisto silêncio do mundo
e do amor ".


Da espiritualidade mística, conceptual, de Camões à fisicalidade, à corporificação, da experiência do amador e da amada, todo um processo criador tem lugar de que vamos, gradualmente, fazendo parte: o corpo está presente, os elementos, as estações, e o grito, que remete também ele não só para a explosão do amor como para o primeiro grito de todos, o primordial do Verbo quando a divindade ( simultâneamente amador e coisa amada ) explode no desdobramento do universo criado. Do dois que se deseja Um chegamos no fim do poema ao entendimento do Um que se descobriu dois, no silêncio "do mundo e do amor".

Sunday, July 02, 2006

Mais Leituras, com Reckert



Pois é verdade, podemos seguir o rasto do Livro do Amigo e do Amado, pelo século XX, em Cesário Verde, e pela mão de Stephen Reckert que não deixa cair no esquecimento a obra deste poeta.
Em UM RAMALHETE PARA CESÁRIO,1987, somos levados a um conjunto de fontes, sendo por vezes Cesário a própria fonte, como no capítulo relativo a Cesário Verde e Álvaro de Campos "ENTRE QUALQUER CAIS E O CAIS ".
No capítulo seguinte, "SUBITAMENTE - QUE VISÃO DE ARTISTA! " o percurso vai de Baudelaire a Cesário e à Arte de 'Fazer Novo'.
Concordo com o que diz o autor, "toda a viagem- mesmo uma modesta deambulação sem meta predeterminada- pode e deve ser também aprendizagem.O 'não~evoluo:viajo' de Fernando Pessoa não passa de uma boutade, típica da ironia mistificadora de quem o disse.FAHREN é sempre ERFAHREN, e quem não aprendeu não viajou, deslocou-se apenas" (as maiúsculas são minhas ).
Nesta viagem de Baudelaire a Cesário descobrimos então como as gerações de criadores alimentam o seu imaginário recuperando e transformando os conteúdos poéticos uns dos outros.
O caso interessante que desejo citar é o do poema de Baudelaire LE SOLEIL e do último verso em que "a alma do poeta baloiça 'sans mâts, sur une mer monstrueuse et sans bords,'" ( Reckert, p. 48 ) ; um verso que será desdobrado por Cesário, segundo Reckert nota, em "terrível visão final das 'marés de fel, como um sinistro mar', em o SENTIMENTO DUM OCIDENTAL, e ainda no 'mar sem praias' de SETENTRIONAL."
E aqui surge então a interessantíssima observação, em rodapé:
" Trata-se neste último poema de um amor grande como um mar sem praias : eco fortuito de Ramon Llull : Amor és mar tribulada...que no ha port ni ribatge" ( in Libre d'Amic e Amor ), Reckert, p. 48.

O imaginário português é atravessado pelo contexto ibérico, lírico, filosófico e religioso ( místico ) ainda no nosso tempo, de forma mais directa ou mais fortuita, mas sempre portadora da informação que as viagens como esta nos permitem.
Escreveu um amigo no seu Blog, de título sugestivo HEAVENTREE: Travel broadens the mind. Não podia estar mais certo. E ler e estudar são formas de viagem, só viajando é possível comparar, e comparando crescer e aprender.

Saturday, July 01, 2006

Mais Leituras



Aqui ficam mais leituras para estes assuntos abordados:

LEÃO HEBREU ( Iehudah Abrabanel ), DIÁLOGOS DE AMOR, 2 vols., texto fixado, anotado e traduzido por Giacinto Manuppella ,ed. INIC, 1983.

"Mensagem de amor em clave filosófica aberta para um cauteloso sincretismo clássico e medieval " assim define o texto G.Manuppella.

Luis de Camoes, o Soneto mais estudado

A quem tenha lido o Livro do Amigo e do Amado de Raimundo Lúlio este soneto de Camões parecerá desde logo ter uma mesma linha de reflexão neo-platónica e simbólica :

"Transforma-se o amador na cousa amada,
por virtude do muito imaginar;
não tenho, logo, mais que desejar,
pois em mim tenho a parte desejada.

Se nela está minh'alma transformada,
que mais deseja o corpo de alcançar?
Em si somente pode descansar,
pois consigo tal alma está liada.

Mas esta linda e pura semideia
que, como um acidente em seu sujeito,
assi com a alma minha se conforma,

está no pensamento como ideia:
o vivo e puro amor de que sou feito,
como a matéria simples, busca a forma".

Citando uma estudiosa camoniana, MARIA DE LURDES SARAIVA, que procedeu à edição da Lírica completa de Camões na BIBLIOTECA DE AUTORES PORTUGUESES da Imprensa Nacional-Casa da Moeda ( 1980 ) : " A densidade ideológica desafia a condensação de qualquer perífrase ".Maria de Lurdes, embora aluda ao platonismo que parece evidente, não recusa a ideia de uma assimilação das doutrinas aristotélicas de ESSÊNCIA e ACIDENTE : " a essência de Aristóteles é a matéria, mas a matéria é categoria anterior à realidade que, só pela pela inteligência ou pela passagem do virtual ao real ( o acidente ) se concretiza e realiza " ( Lírica II, p. 265 ).
Haveria aqui muito a discutir.
Mas deixo a sugestão das leituras que, como as de Lúlio, reforçam a dimensão poética mais esotérica, oriunda das anteriores correntes de gnosticismo e neo-platonismo bem conhecidas em Portugal, a que se poderia ainda acrescentar, como Helder Macedo defendeu para a MENINA E MOÇA uma dimensão judaizante.

Vejamos de novo Lúlio:

95.

Se ausentó el amado del amigo, y el amigo lo buscó con sus pensamientos.Y preguntaba por él a la gente con palabras de amor.
...

96.

La luz de la habitación del amado iluminó la del amigo, para expulsar las tinieblas y llenarla de placeres y pesares y pensamientos.
Y el amigo vació su habitación para que cupiese su amado.
...

A luz da casa do Amado expulsa as trevas da casa do Amigo ; esta depois de esse FIAT adquire uma nova dimensão de "actualidade" e "realidade" : com os prazeres e os sofrimentos e os pensamentos próprios do" amador da coisa amada", da "casa amada", se me permitem o trocadilho que o texto mesmo pede, e aqui como em Camões ou no Cântico dos Cânticos pode ser a casa, a esfera de Deus, tanto quanto uma desejada e amada pessoa real.

Wednesday, June 28, 2006

J.Garcia Font

Na sua Historia de la Alquimia en España, que já citei noutros posts, dedica um extenso capítulo a Ramon LLull e à sua variada obra, comentando no fim que Ramon não desdenhou de utilizar outros saberes: foi o caso da mística e do profetismo joaquimita, da simbólica alquímica e ainda da poesia de Abnarabi de Murcia, entre outros.
Citando Font: "Parece que Llull...no desdenãba los procedimientos de los 'sarraims' y pudo muy bien ocurrir que en sus sistemas de 'combinar' conceptos, a través de símbolos y figuras, admitiese elementos de muy diversa procedencia.
Na minha opinião é o que acontece quando, na ARBRE de CIÈNCIA utiliza as imagens da árvore com o seus ramos para suporte da exposição das ciências teológicas e naturais. Raizes, tronco, ramos, etc. formam a imagem base que depois de "ampliada" permite entender e solucionar questões.A sua árvore, que Font descreve como "pantaclo mágico", contém e reflecte todo o mundo criado, daí que se assemelhe à Arvore dos Sephiroth, que certamente conheceu.Diz Llull, da sua árvore: car totes quantes coses són, en ello són significades... ( pois todas as coisas que existem, nela estão significadas...).
Concluo com Font :
" No es dificil percatarse de que en la obra de Llull aparece el supuesto de cierta radical analogia cósmica que permite relacionar entre sí los distintos niveles de la realidad ".
Falta só acrescentar que essa influencia poderia dever-se à mística da Kabala judaica, florescendo na Espanha de então.

Ficarão mais claras algumas das afirmações deixadas como enigmas ao longo desta novela maravilhosa, como a que escolhi para exemplo : havia no Amado Misericórdia e Justiça, o que deixava o Amigo entre o Temor (da Justiça) e a Esperança (da Misericórdia, que é Amor ).

Tuesday, June 27, 2006

O AMIGO E O AMADO


"Disse o amigo que no seu amado havia misericordia e justiça" .

Lulio, com esta afirmação leva-nos a pensar nos nomes de Deus, segundo a Kabala, e no livro do Zohar, o esplêndido monumento da mística judaica do século XIII.
Na árvore dos Sefiroth estes são dois dos ramos sagrados pelos quais a divindade se manifesta na plenitude do seu ser.

Na segunda metade do século XIII surge em Castela o Sepher-ha-Zohar, ou Livro do Esplendôr.
Contém os diálogos do Rabi Siméon bar Jochai com o seu filho Eléazar e outros amigos do círculo de iniciados.Trata-se de uma obra complexa, múltipla e não contida numa única sequencia de um mesmo discurso : inclui escritos e comentários muito diversos sobre a Torah, o que fez com que durante algum tempo se discutisse se haveria ou não uma autoria única. Gershom Scholem veio finalmente esclarecer este assunto, com o estudo do estilo e da linguagem, afirmando que haveria uma autoria única em pelo menos dezoito dos escritos pertencentes ao Zohar, pela mão de Moisés de Leão, que terá escrito a obra entre 1274 e 1286.
A doutrina do Zohar é " a coroação do Kabalismo espanhol do século XIII " na opinião de estudiosos como Leon Gorny, seguindo G. Scholem.
De raiz gnóstica, terá sofrido influencias do Talmud babilónico e dos escritos de Maimónides, e ainda de um célebre tratado anterior, O Jardim de Nogueiras, de Gikatilia, também do século XIII.
No essencial, e resumindo um pouco à pressa, o Zohar contém uma doutrina teosófica da concepção de Deus e da criação do mundo, através da representaçao simbólica da árvore dos Sefiroth : são dez, com Kether, figurando a primeira Sephira, suprema coroa de Deus, e Malkuth, a última, sob a forma da Shekina, ou de Kneseth Israel, o arquétipo místico da comunidade de Israel.
Entre a primeira e a última Sephira se desenrola toda a criação, sendo um dos seus "ramos" mais importantes Tiphereth, a Misericórdia de Deus, que faz a mediação entre o Amor e a Justiça divinas.
Vemos assim que a árvore dos Sephiroth representa o esquema simbólico da vida divina na plenitude da manifestação. O En-Sof é a raiz e a seiva e a árvore no seu todo a figuração simbólica do mundo. Tudo o que existe é extensão de uma Sephira, de um dos ramos da árvore.
O mistério maior do Zohar consiste na passagem da plenitude do En-Sof à revelação do universo criado, através da passagem por um Nada absoluto, um Nada místico, que permite a sucessiva emanação dos Sephiroth. Esse Nada é Kether, a mais alta Sephira, a Coroa suprema da Divindade.

Bibliografia:
Leon Gorny, La Kabbale, ed. Pierre Belfond, 1977
G.G.Scholem, La Kabbale et sa Symbolique, ed.Payot, 1966; Les Origines de la Kabbale, ed. Aubier-Montaigne, 1966
ZOHAR, Sepher Ha-Zohar ( Le Livre de la Splendeur ), trad. do texto caldaico e notas de JEAN de PAULY, introd. de A.D.Grad,
ed. Maisonneuve et Larose, 1975, 6 vols.
LE BAHIR (Le Livre de la Clarté ) trad. do hebraico e do aramaico por Joseph Gottfarstein, ed. Verdier, 1983

Sunday, June 25, 2006

LLULL , cont. II



Na "Relação" da Livraria de Frei Vicente Nogueira (1586-1654), confiscada pela Inquisição, encontram-se, entre outros tratados de alquimia, os textos de Raimundo Lulio: "Arte de Raymundo Lulio; Raymundo de Alchimia " ( in Y.K.Centeno, ALQUIMIA E HUMANISMO NO PORTUGAL RENASCENTISTA, 1988, 2. Centenário da Academia das Ciências de Lisboa ).
Haverá mais a dizer, mas fica para uma próxima vez.

LLULL, cont.


Nas BODAS QUÍMICAS (estudadas no seu simbolismo alquímico e místico por Rudolf Steiner e por Bernard Gorceix ), lemos no "quinto dia" a chegada à sala onde se encontra o tesouro do Rei,espalhado em torno do sepulcro de Vénus.Passo adiante a descrição do que vai acontecendo ao herói, para transcrever o cântico ao amor que funciona como "chave" dos mistérios que se seguem uns aos outros.

I

Não há melhor sobre a terra
Do que o belo e nobre amor;
Por ele igualamos Deus,
Por ele ninguém persegue ninguém.
Deixai-nos cantar o Rei,
E que todo o mar ecoe,
Nós faremos as perguntas, vós dareis as respostas.

II

Quem nos transmitiu a vida?
O amor.
Quem nos concedeu a graça ?
O amor.
De quem fomos nascidos ?
Do amor.
Sem quem estaremos perdidos ?
Sem amor.

III

E quem foi que nos gerou ?
O amor.
Com que nos alimentaram ?
Com amor.
O que devemos aos pais ?
O amor.
Por que são tão pacientes ?
Por amor.

IV

Quem é vencedor ?
O amor.
Pode encontrar-se o amor ?
Pelo amor.
Quem pode ainda unir os dois ?
O amor.

V

Cantai todos,
Fazei ecoar o canto
Para glorificar o amor;
Que cresça
nos nossos Senhores, o Rei e a Rainha,
Cujas almas foram separadas de seus corpos.


As estrofes VI e VII aludem já ao processo alquímico de Conjunção do dois em um, os corpos do Rei e da Rainha, o que permitirá que todo o sofrimento seja " transmutado " para sempre numa grande "alegria".

Podíamos considerar uma série de fontes de inspiração, desde o Cântico dos Cânticos, passando pelo Nascer da Aurora ( Aurora Consurgens, atribuído a S.Tomás de Aquino) mas de que fará parte com certeza o LIVRO DO AMIGO E DO AMADO de Raimundo Lulio.
Aliás julgo que haveria um estudo a fazer de Bernardim Ribeiro e de Camões neste sentido, para além da influencia da Kabala judaica que Lulio certamente conheceu. Árabes e judeus conviviam naquela Idade-Média de que autores como IBN UMAIL /SENIOR que já citei dão o melhor testemunho.

RAMON LULL, Raimundo Lulio

Libro de Amigo Y Amado, trad e prólogo de Eduardo Moga, ed.Barcino, 2006.

Ramon Lull, de quem nos é dada agora esta edição bilingue, nasceu em Maiorca em 1232 e foi um dos autores mais celebrados do seu tempo. Terá escrito cerca de 250 obras em catalão, árabe e latim, como homem de muitas letras que era, além de visionario reformista e místico.
Uma das suas obras mais citada é o LLIBRE de MERAVELLES ou ARBRE DE CIENCIA, de que encontramos referencias em Portugal, ainda que nos livros proibidos e confiscados pela Inquisição.
O seu pensamento filosófico e hermético terá influenciado autores como Giordano Bruno, ele próprio vítima da Inquisição, e Leibniz, que sabemos ter sido bom conhecedor do rosacrucismo alquímico e da ciência da Kabala.
Segundo reza a lenda, Lull morreu depois de ter sido lapidado em África, possivelmente antes de 1316.

No prólogo de E. Moga podemos ler que Lull conheceu Jacques de Molay, o último Grão-Mestre dos Templários, queimado vivo em 1314, sob acusação de idolatria ( como adorador do Baphomet ).
Era grande o intercâmbio das diferentes culturas, do oriente e do ocidente, e grande o apreço dos europeus de então pelos sábios árabes que da antiga Alexandria tinham trazido boa parte dos conhecimentos mais antigos das ciências, médicas, químicas, outras, bem como da filosofia neo-platónica, gnóstica, alquímica.
Estes saberes circularam, de forma mais ou menos aberta, um pouco por todo o lado.

O Livro do Amigo e do Amado é um capítulo de outro maior, a novela intitulada LLIBRE D'EVAST e BLAQUERNA.
Encontramos nele, segundo o autor, os exemplos dos sábios sufis, místicos apreciados, que despertavam no leitor sentimentos de grande religiosidade. Estamos perante um caso de "livro dentro do livro", o que nos leva a pensar na função que desempenha, de verdadeira pedagogia moral e religiosa.
Rapidamente o Livro circulou já fora da novela, com mérito por si próprio.O seu conjunto de aforismos místicos assim o permitia, seduzindo os leitores que nele bebiam uma verdadeira filosofia do amor. Foram muitas as cópias manuscritas que se fizeram e muitas as edições, posteriormente.

Repare-se agora nesta subtil iniciação a que se vai assistir e de que veremos continuação nas BODAS QUÍMICAS de Christian Rosenkreutz (obra de Johann Valentin Andreae, fundadora do movimento Rosa-Cruz na Alemanha do século XVII ), em Mozart, na FLAUTA MÁGICA, e em Goethe, no poema a Mme.von Stein e no CONTO DA SERPENTE VERDE.

93.
En una gran fiesta reunió el amado una nutrida corte de nobles muy honrados, y les hizo grandes convites y regalos.
Llegó el amigo a la corte.
Le dijo el amado:-Quién te ha dicho que vinieras a mi corte?
Respondió el amigo:- La necessidad y el amor me han traído, para admirar tus facciones y tu porte.

94.
Preguntaron al amigo de quién era.
Respondió:- Del amor.
-De qué eres ?
-De amor.
-Quién te ha engendrado ?
-El amor.
-Donde has nacido ?
-En el amor.
-Quién te ha criado ?
-El amor.
-De qué vives ?
-Del amor.
-Como te llamas ?
-Amor.
-De dónde vienes ?
-Del amor.
-A dónde vas ?
-Al amor.
-Dónde estás ?
-En el amor.
-Tienes algo, además de amor ?
Respondió:- Si, culpas y agravios contra mi amado.
-Hay perdón en tu amado ?
Dijo el amigo que en su amado había misericordia y justicia, y que por eso moraba entre el temor y la esperanza.

Saturday, June 24, 2006

McCLUNG,The Architecture of Paradise, 1983








Subtitle: Survivals of Eden and Jerusalem.
I read the book, I then had the pleasure of meeting the author himself and later on publish his Paper, together with others, in a volume on the Symbolism of Space (cities, islands, gardens ): A SIMBÓLICA DO ESPAÇO,cidades, ilhas, jardins, ed.Estampa, Lisboa 1991.
I hope the volume has not been destroyed , as it so frequently happens, when a publisher needs more space (with no symbolism at all...).Back to McCLung.
In Survivals of Eden he quotes Schiller on Aesthetic Education:
"Mankind has lost its dignity,but Art has recovered it and conserved it in significant stones ". Little or nothing has changed,really...
MacClung:
"Paradise is a strange land but a familiar presence; few have been there, but many people have an idea of what it is like. As a garden at one end of time and a city at the other, Paradise is in one sense remote from wordly concerns.But Eden has not been allowed to rest in memory, nor Jerusalem to choose its time of arrival....Both literature and architecture have mainteinde Paradise in our lives as a real presence. In both media the translations, or re-creations, are both literal and metaphoric."
I will leave those interested in reading with a final quotation:
" The line of transmission from mythical to metaphoric models of Paradise is neither single nor direct...It is my belief that the wide range of the present study, though diffusing the pedigree of modern architecture through many areas of inquiry and achievement, will contribute to an understanding of its ultimate source."
The reader will find here a wide range of information on literature, starting with Homer, arts and archeology, as well as on architectural modern and contemporary creators, that will make him or her, as it did with me, a faithful follower of MacClung' work.

Saturday, June 17, 2006

PARACELSO



Edição inglesa dos escritos herméticos e alquímicos de Paracelso o Grande, em tradução de Arthur Edward Waite, com um prefácio biográfico, notas, vocabulário e index (The Alchemical Press, 1992).
Num momento em que tanto parece ser útil (ou ser moda) discutir a arte, e porque pode haver arte sem discussão, mas não sem imaginação (criadora) achei interessante trazer aqui as considerações de Paracelso sobre a imaginação:
"A imaginação do homem é uma virtude expulsiva".
Entenda-se, por esta afirmação, que é forte o poder desta virtude, e operante, no sentido em que produz efeito nas acções, como nas substancias de que o homem seja responsável.
Deste poder de imaginar surge, naturalmente, e sem magia, a criação. De certo modo o próprio universo resulta desse poder, mas agora em Deus.
E afirma ainda o nosso autor:
"A imaginação residente no cérebro é a lua do microcosmo".
Outros, como Dorneus, dirão que a imaginação é a estrela no homem.
Assim se equipara um poder nobre, como o de imaginar, a uma matéria real, celestial, de impacto terreno e humano, quer no bom como no mau sentido, ainda no dizer de Paracelso.
Ao fazer do cérebro a" residencia " da imaginação estava já o filósofo a antecipar as investigações de António Damásio em matéria de neurobiologia.

Quanto às curiosidades alquímicas, não as irei resumir, este volume existe, e pode ser encontrado.

Tuesday, June 06, 2006

Bibliografia...



" Get knowledge, get wisdom; but with all thy gettings, get understanding", diz o velho Mestre citado por W.L.Wilmshurst no seu estudo sobre o significado da Maçonaria: THE MEANING OF MASONRY, Gramercy Books, New York, 1980.
Mas este Entendimento é algo de especial, depende da dádiva da Luz Sobrenatural que por sua vez deve corresponder a um desejo e apelo profundo que se manifeste no indivíduo. Há muito de semelhante com o apelo e a dádiva da fé. Uma das lições é a do estudo, tal como nos alquimistas; incita-se a que não se esqueçam os antigos mistérios e ensinamentos de que todas as práticas simbólicas partiram, pois sem uma tal memória e entendimento tudo se tornará em forma oca, esvaziada de sentido.

Vem isto ainda a propósito do nosso Wagner: no dicionário da Maçonaria de ROBERT MAGOY há uma entrada sobre os Mistérios Odínicos (relativos à mitologia nórdica) com muito interesse para o desenvolvimento da mitologia germânica e a leitura que Wagner fará dela.
A árvore de cinza que vemos na gravura é YGGDRASIL, na qual se supunha que a terra repousava.
É um dos símbolos mais importantes na poética mitológica, este da árvore suporte da vida do universo.
Corresponderia, no imaginário bíblico, à Escada de Jacob , mas enquanto nesta o que se verifica é a ligação que estabelece entre o humano e o divino, o plano material da vida e o plano espiritual que obriga a "lutar" para ser adquirido, com Yggdrasil o que temos é a figuração, segundo os antigos EDDA, de uma ponte que se estende sobre o poço da eternidade.Os seus ramos abarcam o mundo, a sua copa ergue-se acima dos céus.Tem três raizes, uma entre os deuses, outra entre os gigantes, e uma terceira debaixo de Hela (o inferno das trevas, Hoelle, Hell ).
Na raiz do meio, a dos gigantes ( note-se bem e recordemos como são importantes no Ouro do Reno e como desejam o brilho do ouro e Freia, deusa da vegetação e da vida eterna ) está a FONTE DA SABEDORIA, o poço de Hymir.
Perto da raiz dos deuses está a fonte sagrada junto da qual os deuses reunem e anunciam as suas decisões. Desta fonte erguem-se três belas virgens, as NORNAS ou DESTINOS, cujos nomes são: URDUR, o PASSADO; VERDANDI, o PRESENTE; e SKULD, o FUTURO.
Seguem-se as representações animais, nos ramos da árvore: a águia,o falcão, o esquilo,a serpente, cada qual com sua função simbólica.
A cidade no alto da Montanha é ASGARD, e a ela apenas se pode aceder atravessando a ponte BIFROEST, ARCO-ÍRIS.
Veja-se como é indispensável situar no seu contexto as matérias simbólicas de que se ocupam os grandes criadores; muito do que aqui se descreve ajuda ao "entendimento" de Goethe como de Wagner, nas suas obras maiores.
Aos pés de Asgard fica MIDGARD, TERRA MÉDIA , o espaço reservado aos mortais.
O palácio dos deuses, de cúpula dourada, é o VALHALLA, onde reside ODIN ( será o futuro WOTAN ) e para onde as Valquírias conduzem os bravos que sem medo enfrentam os perigos das trevas e da morte.

Será preciso dizer mais sobre o que se impõe estudar para ler por dentro uma obra como a de Wagner ?
Ficarei por aqui.

Wagner, a Ponte


Sublinhando ainda a importância das referencias simbólicas existentes no texto wagneriano, veja-se como a PONTE, tão importante no Conto da Serpente Verde de Goethe, assume aqui um importante papel, de FORMA INICIÁTICA, CONDUTORA para a qual Donner chama a atenção dos deuses ainda assustados com o efeito perverso do anel:
" ...
Irmãos, por aqui!
Que a ponte vos indique o caminho!
(A nuvem desaparece de repente, fazendo surgir de novo Donner e Froh; a seus pés nasce, com cintilante esplendôr, um arco-íris que forma uma ponte sobre o vale até ao castelo, agora reluzindo iluminado pelo crepúsculo...)
Froh (dirige-se aos deuses, após ter indicado com a sua mão o caminho sobre o vale que o arco deve traçar)
A ponte conduz-nos ao castelo,
leve e segura
para os vossos pés:
confiantes e sem medo,segui o vosso caminho!"

(trad. de João Paulo Santos para o libreto de 2006)

Embora subtil, para quem não estude o símbolo no seu contexto, a diferença entre as duas pontes é grande e significativa: a ponte de Goethe, feita do corpo da serpente transfigurada e oferecida a uma causa maior, une as margens do rio (da alma pacificada finalmente, com a série de conjunções que se verificam no progresso da Obra) permitindo o acesso do povo ao Templo que se ergueu das águas . A ponte adquire uma dimensão FELIZ, como diz Goethe a respeito dessa imagem, de esperança e de realização plena, colectiva.
Ao contrário deste autor que certamente o inspirou, Wagner faz da ponte um elemento de puro acesso ao PODER que o castelo representa ( a oposição templo/castelo é aqui pertinente); o coração dos deuses não se comove com a ponte, embora ela seja "transportadora", isto é, pudesse ajudar à modoficação.Ficam absortos na contemplação do castelo:

"O sol,ao esconder-se,
doura dos seus raios
sumptuosos o castelo.
...Assim te saúdo, ó castelo."

(trad.João Paulo Santos)

Só Loge fica para trás, enquanto os outros avançam para o castelo, com a clarividencia do crepúsculo que se abaterá sobre eles.
É de grande interesse, neste caso, estudar a figura mítica de Loge, ( é o deus Lug da Germânia, aparentado ao deus Hermes dos gregos ); é um deus que inicia, profetiza, acelera a transformação,nem sempre positiva.Eis o que diz, no fecho desta ópera, toda ela cheia de prenúncios e de indicações para um futuro ameaçador e já presente, pois no Eterno Viver dos deuses tudo o que será já é,como Erda lembrou.

Loge (ficando para trás, observando os outros deuses)
Precipitam-se para o seu fim,
os que crêem a sua vida tão segura.
Quase tenho vergonha de me dar com eles;
de me transformar de novo
numa labareda crepitante,
sinto um desejo irresistível:
para consumir
os que me conseguiram dominar,
em vez de me afundar
com eles estupidamente,
sejam eles os mais divinos dos deuses! "

(trad.J.P.Santos)

Sendo o fogo (no Conto de Goethe ) uma das forças SUBLIMADORAS não o consegue ser na ópera de Wagner: o comportamento insensato dos deuses (a humanidade, como Wagner a vê) não o permitirá.
E finalmente a ponte, uma vez atravessada, servirá apenas para reforçar, no castelo que tanto tinha sido desejado, um isolamento e um egoísmo cegos.
Os deuses riem, enquanto as filhas do Reno choram o ouro ( a alma) perdida.

Nota: Nos Altos Graus da Maçonaria a Ponte tem uma função maçónica,sendo um símbolo importante.
Se é certo que Goethe não desconhecia tal facto, no caso de Wagner podemos apenas suspeitar que a simbólica maçónica lhe fosse acessível. Mesmo não sendo maçon, certamente teria conhecido "Irmãos", teria nas conversas de salão aprendido o suficiente, e nos autores mais em voga ( como Zacharias Werner, entre outros, para não repetir Goethe ) completado os seus conhecimentos.
Em PARSIFAL veremos desenvolver-se todo um processo iniciático simbolicamente conduzido na perfeição, se me é permitida tal linguagem.
Gilbert Durand, wagneriano assumido, não descarta a hipótese de Wagner também ter sido iniciado; tanto na corte, como entre as élites artísticas, era frequente o interesse por essa marca de distinção e superioridade. Recordo Lessing, e a importância que os seus escritos maçónicos tiveram nas gerações posteriores.

Graham Vick


Louvando o mérito desta iniciativa de trazer de novo a Portugal a TETRALOGIA, embora num decurso de anos, tenho algumas objecções às escolhas do encenador:
prejudicou sem dúvida, pela enorme distância que separava a orquestra dos cantores, o equilíbrio musical do que se ouvia dos vários pontos em que o público foi colocado;
não me incomodou o tratamento kitsch, post-moderno, de algumas das figuras, embora se anulasse com isso o simbolismo de que deviam revestir-se, como entes de sombra, pulsões de uma natureza primordial, forte e apelando à sublimação;
já me incomodou mais a aplicação de uma grelha puramente política , de ocasião ( Bush não será eterno, a obra de arte sim) em vez de uma apreciação filosófica e estética como Wagner merecia ( algo que Patrice Chéreau compreendeu magistralmente );
tornou-se visível o porquê de um palco desmesuradamente alongado, obrigando a modificações caríssimas da estrutura de cena, sem outra justificação que não a de fazer caber lá o imenso foguetão com que o encenador desejou arrancar os aplausos de uma plateia sempre disponível para as propostas "diferentes".

Thursday, June 01, 2006

Erda


Erda:
Wie alles war - weiss ich;
wie alles wird,
wie alles sein wird-
seh ich auch
...
Alles, was ist, -endet !


Como tudo foi-eu sei;
como tudo é
como tudo será-
também eu vejo
...
Tudo o que existe,- acaba!


Erda, a Terra-Mãe (terra diz-se Erde em alemão, mas foneticamente lê-se como Wagner escreveu, não por acaso, é claro), é a voz primordial de toda a criação, e assim se define, como Jahveh ao dizer" eu sou aquele que foi, é e será", ou seja, o que os define é a própria essencia da eternidade, daí que possam profetizar, um e outro, sobre os tempos vindouros.
Neste caso a profecia é a do fim inevitável, que Wotan, na sua avidez, ajudou a precipitar.
Erda aconselha-o a desfazer-se do anel, mas os dados do destino sombrio estão lançados.
Wotan subirá ao castelo,mas as filhas do Reno, a quem o ouro foi roubado, não esquecem tal afronta e o Prelúdio da Tetralogia termina com o apelo, vindo das profundezas da água : "gebt uns das Gold/ O gebt uns das reine zuruck! " Devolvei-nos o ouro /Dai-nos de volta o puro.

A questão de uma unidade harmoniosa e pura é assim posta, renegada e temporariamente esquecida por aqueles deuses que "riem" enquanto atravessam a ponte para o castelo e "rejubilam".

Tuesday, May 30, 2006

Richard Wagner, O Ouro do Reno

Foi apresentada no teatro de S.Carlos uma nova encenação do OURO DO RENO, assinada por Graham Vick.
As releituras modernas de uma ópera são sempre estimulantes e necessárias.Mau é deixar morrer a ópera enquanto verdadeiro espectáculo total que é.
Richard Wagner, ao conceber o TODO do que desejava apresentar ao seu público e à posteridade( foi um artista altamente consciente do seu valor e da inovação que as suas propostas musicais, libretísticas e cénicas continham) indicava claramente o que desejava que fosse acontecendo no palco.O seu olhar também era de encenador, acrescentando essa qualidade às outras, de compositor e de escritor.
Lendo o libreto apercebemo-nos do cuidado com que cada personagem é tratada, sublinhando, seja pela acção, seja pela descrição, a carga simbólica que transporta.
O OURO DO RENO é, deste ponto de vista, perfeito. Resume num condensado magnífico os grandes temas que serão desenvolvidos a partir da glorificação da Vida e do Amor em contraste com a atracção daimónica do Poder, que o anel e o ouro representam.
Se pensarmos que das leituras preferidas de Wagner faziam parte GOETHE, com o seu FAUSTO (que também ele cedeu à tentação do daimon MEFISTO, embora depois venha a ser salvo pelo amor de Margarida e para glória do ETERNO FEMININO); e os Contos dos Irmãos GRIMM, bem como as recolhas que fizeram das Lendas e Sagas germânicas, perceberemos melhor que nas suas escolhas pode haver algum sincretismo simbólico ou iniciático, mas não haverá certamente arbitrariedade ou ignorância.
Recordo que Wagner, como Goethe e Mozart, recebeu também iniciação maçónica.
G.Bernard Shaw escreveu, no BREVIÁRIO WAGNERIANO ( 1908 ) que a música do compositor era uma música da Natureza, do Rio, do Arco-Íris, do Fogo, do Bosque...
A música dos elementos e a sua simbólica profunda estão ostensivamente presentes n'O OURO DO RENO.
Em 1851 Wagner escrevia aos amigos: "os meus estudos levaram-me através da Idade-Média até aos antigos Mitos Germânicos fundadores...Aí descobri o Homem Verdadeiro ( der wahre Mensch )".

A localização das cenas que vão ter lugar é claramente apontada,definindo, por si, a presença dos quatro elementos: água, ar, terra e novamente o ar-tudo percorrido pelo fogo, pelo ouro,pelo poder do anel.
O prólogo e primeira cena têm lugar no fundo das águas do Reno; a segunda cena no alto das montanhas; a terceira na gruta dos nibelungos; a quarta de novo no alto das montanhas onde o castelo dos deuses foi erguido.
É na terceira cena que a presença e a força, transformadora ou destruidora, do fogo se fazem sentir.O anel é uma condensação desse poder perverso que se obtém abdicando do mais sagrado valor, do amor e da vida. É o amor de Freia, deusa da natureza verdejante, que concede vida eterna aos deuses.
Os intervenientes no drama são deuses: Wotan, Donner, Froh e Loge.
Gigantes: Fasolt e Fafner.
Nibelungos (gnomos) : Alberich e Mime.
Deusas: Fricka (mulher de Wotan), Freia, Erda.
Filhas do Reno: Woglinde, Wellgunde, Flosshilde.

E nibelungos vários.


A Wotan interessa o castelo, não se apercebe logo do seu erro, a Fricka a perda de Freia e com ela a eterna juventude,desenhando-se a diferença entre o que são as ambições diferntes do homem e da mulher: a força do poder, por um lado, a força da vida por outro.
Erda, a mãe-terra, virá em momento oportuno recordar aos deuses como sem a força vital só a decadencia os espera; e essa força reside na natureza.
A ária de Erda, na quarta cena, é carregada de mistério e ameaças que no seguimento da Tetralogia virão a concretizar-se.
Pela boca da mãe-terra fala um saber profundo, relativo à essencia da natureza do homem e do mundo que o rodeia (os deuses serão o "colectivo" que o indivíduo projecta.

Friday, May 26, 2006

Antonio Jose da Silva,Os Encantos de Medeia

António José da Silva, conhecido como O JUDEU, nasceu no Rio de Janeiro em 1705, numa família de judeus perseguidos pela Inquisição.
Era uma criança de oito anos quando veio para Lisboa, porque a sua mãe tinha de ser julgada na corte.Nesse momento acabou por ser absolvida, e ele foi completando a sua formação escolar sem mais problemas.Formou-se em Coimbra, em Cânones.Mas em 1726 o Santo Ofício interrompeu os seus estudos e prendeu mãe e filho, libertando-os depois de uma abjuração pública da sua fé.
Em 1733 sobe à cena A VIDA DO GRANDE D.QUIXOTE DE LA MANCHA E DO GORDO SANCHO PANÇA, ópera a que se sucederão várias outras, inspiradas nos mitos clássicos, como é o caso de OS ENCANTOS DE MEDEIA.
António José da Silva casou com uma prima, também judia, e em 1737, ano da estreia de AS GUERRAS DO ALECRIM E DA MANGERONA, é preso de novo, com a mulher e a filha, por denúncia de uma escrava de côr; sai da Inquisição dois anos depois, para ser degolado e queimado em auto-da-fé por judaísmo " convicto, negativo e relapso".A mulher e a filha, libertadas, fogem para a Holanda, destino generoso de todos os que conseguiam escapar das garras da Inquisição.
Entre 1734 e 1738 foram representadas a ESOPAIDA, os ENCANTOS DE MEDEIA, ANFITRIÃO OU JÚPITER E ALCMENA, LABIRINTO DE CRETA, as VARIEDADES DE PROTEU, e várias outras, algumas talvez só atribuições.
Claude-Henri Frèches ocupa-se do assunto das atribuições, e muito haveria ainda que estudar, em relação com o nosso infeliz autor.
Recordo que o seu é um teatro de marionettes, algo que também se torna muito actual e interessante, para o estudo desta arte em Portugal.
A primeira edição das Obras é de 1744, a segunda de 1747.
Bernardo Santareno inspirou-se na sua vida para a peça O JUDEU.

Salomon Trismosin, La Toison d'Or



LA TOISON d'OR é a versão francesa, publicada em 1612, do Tratado alquímico SPLENDOR SOLIS, cuja primeira edição alemã foi impressa em Rorschach em 1598 com o título de AUREUM VELLUS.
Nesta edição,dirigida por René Alleau, encontramos pela primeira vez a tradução literal do texto alemão, o texto da edição francesa, e os comentários por Bernard Husson, que escreve também o prefácio. Podemos ler que terá sido Trismosin a iniciar Paracelso na arte da alquimia.
No fim do livro Alleau evoca o meio artístico de Nuremberga, a propósito das gravuras da edição alemã,recordando o leitor de que ali o Mestre foi Albrecht Durer. Há muito de ciência simbólica e alquímica a estudar nas suas obras.