Monday, July 03, 2006

O Soneto, com Herberto Helder

Em OFÍCIO CANTANTE ( 1953-1963 ), Portugália Editora, 1967 encontramos uma recolha da poesia com que Herberto Helder começava a renovar o país literário. Não por acaso o livro começa com uma citação de Michaux:
"Je ne peux pas me reposer, ma vie est une insomnie, je ne travaille pas, je ne dors pas ...tantôt mon âme est debout sur mon corps couché, tantôt mon âme couchée sur mon corps debout, mais jamais il n' y a sommeil pour moi...car cherchant, cherchant et cherchant, c'est dans tout indifféremment que j'ai chance de trouver ce que je cherche puisque ce que je cherche je ne le sais".
Estamos perante o labor do lê, lê e relê dos alquimistas e do esforço da contemplação e da descoberta - através de uma procura incessante.
Logo no primeiro conjunto dos poemas aparece - e de novo, julgo que não por acaso, mas por "coincidencia feliz" - a releitura transformadora do célebre soneto de Camões, de marca mística, platónica, com o seu primeiro verso tão intenso que se torna avassalador fixando-se para sempre na memória.

Eis como Herberto o leu e releu, caminhando por dentro do soneto como quem caminha, insomne, por dentro de um labirinto:

" ' Transforma-se o amador na coisa amada' com seu
feroz sorriso, os dentes,
as mãos que relampejam no escuro.Traz ruído
e silêncio.Traz o barulho das ondas frias
e das ardentes pedras que tem dentro de si.
E cobre esse ruído rudimentar com o assombrado
silêncio da sua última vida.
O amador transforma-se de instante para instante,
e sente-se o espírito imortal do amor
criando a carne em extremas atmosferas, acima
de todas as coisas mortas.

Transforma-se o amador.Corre pelas formas dentro.
E a coisa amada é uma baía estanque.
É o espaço de um castiçal,
a coluna vertebral e o espírito
das mulheres sentadas.


Transforma-se em noite extintora.
Porque o amador é tudo, e a coisa amada
é uma cortina
onde o vento do amador bate no alto da janela
aberta.O amador entra
por todas as janelas abertas.Ele bate, bate, bate.
O amador é um martelo que esmaga.
Que transforma a coisa amada.

Ele entra pelos ouvidos, e depois a mulher
que escuta
fica com aquele grito para sempre na cabeça
a arder como no primeiro dia do verão. Ela ouve
e vai-se transformando, enquanto dorme, naquele grito
do amador.
Depois acorda, e vai e dá-se ao amador,
dá-lhe o grito dele.
E o amador e a coisa amada são um único grito
anterior de amor.

E gritam e batem. Ele bate-lhe com o seu espírito
de amador. E ela é batida, e bate-lhe
com o seu espírito de amada.
Então o mundo transforma-se neste ruído áspero
do amor. Enquanto em cima
o silêncio do amador e da amada alimenta
o imprevisto silêncio do mundo
e do amor ".


Da espiritualidade mística, conceptual, de Camões à fisicalidade, à corporificação, da experiência do amador e da amada, todo um processo criador tem lugar de que vamos, gradualmente, fazendo parte: o corpo está presente, os elementos, as estações, e o grito, que remete também ele não só para a explosão do amor como para o primeiro grito de todos, o primordial do Verbo quando a divindade ( simultâneamente amador e coisa amada ) explode no desdobramento do universo criado. Do dois que se deseja Um chegamos no fim do poema ao entendimento do Um que se descobriu dois, no silêncio "do mundo e do amor".

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