Deste poeta que faz livros à mão ( quem me dera ter essas mãos, e esses olhos ) recebo uma prenda única:
do vento coagulado no pano
edição artesanal Debout sur l'Oeuf, exemplares numerados e autografados, como se deve em livro de arte...o meu tem o número 75, e eu gosto especialmente do 7, meu número, e do 5, número da vida (para Fernando Pessoa, num dos dos seus escritos do espólio).Uma pequena-grande obra-de-arte, cabe na palma da mão.
O título do poema lança-me um desafio, e por isso o trago para este blog, que se ocupa de mistérios um pouco maiores, quando a leitura permite.
Gaston Bachelard diria temos no vento o Ar e no pano em que se coagulou, a Terra. Dois elementos do nosso imaginário arquetípico, a que o verbo coagular acrescenta uma dimensão alquímica: solve et coagula...et quod quaeris invenies.
Dissolve e fixa e descobrirás o que procuras.
Ao estudioso não será necessário lembrar que é na fusão de opostos que se encontra a lei máxima da filosofia hermética e suas doutrinas que podem variar muito nos nomes atribuídos à Perfeição que se busca (como se pode ler em Dom Pernety, no seu dicionário): Pedra filosofal, Elixir de Longa Vida, Graal, Matéria Negra, etc. mas que nos processos e considerações apontam sempre para um mesmo caminho de estudo, leitura, releitura, meditação (das imagens ou dos textos) até que pela chamada Via, pela chamada Obra, se atinja a sublimação da consciência num Eu Superior Espiritual.
Mas primeiro entender os opostos....Vento - que é pensamento, e "pano" que é matéria-prima terreal, e receberá a dimensão espiritual que o Vento traz consigo.
Eis o poema:
Os pássaros sabem de cor
esculpir um rosto no núcleo da calçada marmórea
sulcar um corpo caminhante entre sombras que rasgam
tendo o vento e o moinho como testemunhas
e sobre eles o silêncio das cantarinhas desnudadas.
engravidar ao crepúsculo as estrelas nos campos de batalha
à semelhança das consciências rendilhadas pelo sol
dos espojinhos
enquanto diz uma criança
o poema dos nossos receios
....
Se dúvidas houvesse, de que estamos perante uma "iluminação" (Rimbaud gostaria desta ideia) um súbito caminho que se rasga nas trevas, na noite, no corpo das estrelas, que têm, também elas, como o poeta que as diz "fome e luz" .
Não é fome de luz, é uma "conjunção" (leia-se Jung, na definição do Mysterium Coniunctionis ) de espírito e matéria, um corpo transfigurado, como na visão da Aurora Consurgens atribuída a São Tomás de Aquino. A carne feita Verbo.
Deixo ao leitor o esforço e o prazer de procurar o livro, junto ao Rio Mondego, de Coimbra e não o transcrevo todo.
Uma palavra mais para a editora que foi criada: DEBOUT SUR L'OEUF !
Aqui está uma denominação que faria as alegrias de um Jean Cocteau e seu grupo de amigos poetas da vanguarda surrealista. E de Magritte, o genial pintor que não gostava que se falasse de surrealismo ou de simbolismo (hermético) na sua obra...como sou atrevida, falei, nalgum destes posts mais antigos. Mas agora teria de procurar e não é o momento.
Mas esta imagem do OVO, mais uma vez me faria caminhar para os significados do Ovo alquímico: o Todo e o Uno que o ovo em si contém!
Como diz o poeta, na última estrofe:
" Este poema vivido
não foge da memória"...
E não fugirá, pois a memória é o depósito imenso, oculto, em que se vive o Tempo e se recorta o Espaço.
Thursday, July 31, 2014
ALBERTO CAEIRO
Ler Caeiro é um desafio maior.
Porque Pessoa lhe deu o título de Mestre.
Que ele se foi, foi sem querer, pois na verdade não queria ser nada, nem isto nem aquilo, quando muito, se possível, ser, simplesmente.
Viver e deixar viver. Não se demorar a pensar sobre isso.
Na tradução inglesa de Chris Daniels, se nos dermos so trabalho de a retroverter para o original, sobressai a limpidez das ideias, que de tão claras não permitem enganos.
Cito e depois retroverto:
I don't have ambitions or desires.
Being a poet isn't my ambition,
It's my way of being alone.
Não tenho ambições nem desejos.
Ser poeta não é minha ambição,
É o meu modo de estar sozinho.
Não fui ver ao original, pode haver aqui e ali, na retroversão que fiz algumas diferenças.
Mas a ideia centralé a seguinte: em primeiro lugar a consciência de que é poeta.
E em segundo lugar o sentimento consciente de que está sozinho.
Ser - poeta
Estar - sozinho.
Em poucas palavras a grande definição da essência e da existência, do SER noTEMPO, que demorou a Heidegger centenas de páginas e nem por isso o tornou mais humano (ao não querer receber Paul Celan, o poeta rescapado de um campo de concentração que o filósofo alemão talvez tivesse ignorado).
Neste primeiro poema de O Guardador de Rebanhos, Caeiro, que afirma logo nunca ter guardado rebanhos, o que oferece à nossa pastorícia mental é o conjunto das suas reflexões, das suas considerações filosofantes, e não ou nunca a imagem de rebanhos de ovelhas em prados felizes e distantes.Caeiro será Mestre?
Se os outros afirmam...
Teoriza a razão de ser poeta, o seu sentido ou ausência dele...e teoriza a Arte da sua escrita, de engenho tão múltiplo e complexo:
When I sit and write poems
Or, walking along the roads or paths,
I write poems on the paper in my thinking,
Looking after my flock and seeing my ideas,
Or looking after my ideas and seeing my flock,
With a silly smile like when you don't understand what somebody's saying
But you want to pretend you do.
Quando me sento e escrevo poemas
Ou quando, a passear por estradas e caminhos
Escrevo poemas no papel no meu pensamento
etc.
...
À primeira vista podia ser uma versão Bing, libérrima, e em nada nos espantaria!
Mas não há acasos na escrita de Caeiro , e peço desculpa, antecipando alguma diferença, pois não encontro o original e não posso agora perder mais tempo.
Não tendo cão de pastor, as minha ideias fogem.
Vou seguindo a excelente tradução inglesa.
Caeiro só é Mestre de si mesmo no exercício de ser um outro de Fernando Pessoa - mais um outro, mais velho, mais lido, e que na busca de estilo próprio encontra um espaço ainda vazio, o do campo, das suaves colinas por onde estende um olhar atento: não às ovelhas mas às ideias, sensações mais do que sentimentos que livremente lhe ocorrem.
Os sentimentos - que como bem afirma Ricardo Reis, o excelso grego, são apenas exageros a evitar, serão recuperados em toda a linha e até ao desregramento, por Álvaro de Campos, o despudorado engenheiro, que nunca ergueu casas, mas sim e sempre tempestades dentro de si mesmo.
Quanto ao Mestre de todos - estes e outros tantos, sempre que queria, ou se quisesse,
Fernando, agora, estudado o espólio, sempre designado por " o Ortónimo" quando talvez desejasse antes que o designassem por "o Oculto" continuou a brincadeira que tinha iniciado, na época do sonho de Orpheu, de escrever ora como uns ora como outros, sem esquecer António Mora, o filósofo repetidor, que ficou inédito por mais tempo.
Mesmo assim algumas coisas interessantes, para a teoria poética são de notar: a definição e a prática, ou tentativa dela, do Sensacionismo.
Será altura de referir Mário de Sá-Carneiro, o eterno e saudoso e sempre jovem poeta, que foi cumpridor à risca do programa que o Mestre Pessoa lhe impunha.
Mas ele morria longe, em Paris, enquanto Fernando se estirava pelas ruas de Lisboa, se desassossegava, se aborrecia, aguardando que alguém lhe sacudisse a Alma entorpecida.
Havia de ser o Mago Crowley, que rapidamente o desiludiu. Pessoa não era inglês, faltava-lhe apesar de tudo esse distanciamento necessário. O Mago foi-se, romântico e despenhado na Boca do Inferno, e o Mestre Pessoa cansou-se de brincadeiras.
Matou os alter-egos por volta de 1915 - talvez esta data também faça parte da brincadeira astrológica inicial - um horóscopo para cada um dos eleitos - mas pouco importa.
Assumiu-se como ele próprio, um eu agora Maior, um Eu a tornar-se centrípeto, pequeno ponto denso que só uma leitura hermética poderia entender.
Agora Mestre, sim, conhecedor do Um e do Todo que só o afundamento total permitiriam.
Tuesday, July 22, 2014
O TAROT DE CROWLEY (a Leonardo Chioda)
Baralha as cartas
corta
divide
escolhe:
sai a Sacerdotiza
com o seu fio
de luz
não é ponte
não é escada
não ilustra
não ajuda
não conduz
o Mago
ficou perdido
entre as cartas
baralhadas
postas ao lado
de parte
com o seu segredo
esquecido
tanta carta apaixonada....
(Julho 2014)
Monday, July 07, 2014
Um leitor perguntou se eu conhecia uma tradução completa em português da Aurora Consurgens de São Tomás de Aquino.
Não conheço, embora fosse tão interessante tornar acessível a um público mais alargado este belíssimo tratado de transformação espiritual.
É um apócrifo, segundo os eruditos, embora Carl Gustav Jung e Marie-Louise von Franz, que o estudou e traduziu para alemão não recusem a ideia de que possa ter sido, em leito de morte, uma visão de Tomás que ele descreve ao secretário que teria ao seu lado.
Percebemos, ao ler, que há ali muita inspiração do Cântico dos Cânticos, e do amor, do êxtase que flui no discurso dos amantes.
Mas há algo mais, e aqui entra um entendimento superior da alquimia e da sua Pedra como pedra de perfeição, sendo que essa pedra é figurada como eterno Feminino, a "pedra ao rubro" que nalgumas iluminuras de tratados antigos vemos de facto como "mulher vermelha".
Um vermelho que não é diabólico, mas divinal.
Mas voltando à pergunta do leitor, lembrei-me de que tinha nos meus livros uma tradução castelhana - afinal quem lê português pode ler castelhano sem dificuldade - do Tratado de la Piedra Filosofal Y Tratado sobre el Arte de la Alquimia, de SANTO TOMÁS DE AQUINO, com uma bela introdução de Gustav Meyrink, autor ele mesmo adepto da filosofia oculta em muitas vertentes que expõe na sua obra romanesca (editorial SIRIO, 1987).
Meyrink foi um dos primeiros que li, quando na Alemanha pesquisava outrora materiais herméticos, ( já pouco reeditado numa Alemanha, que detestava à época Jung e todo o pensamento menos ortodoxo, só estando traduzido para francês).
O segundo Tratado é dedicado "ao irmão Reinaldo" de quem se conta que tomou nota da Aurora Consurgens.
É Grillot de Givry quem em primeiro lugar traduz do latim e faz uma bela edição na ARCHÈ,1979, com prefácio e notas inéditas.
Abrindo o livrinho temo uma reprodução de um quadro que se encontra na Igreja de Notre Dame de Paris, de autoria de Antoine Nicolas Langres (c. 1648) e representando São Tomás na Fonte da Sabedoria.
Claro que o autor/ tradutor aponta que os tratados são ditos como atribuições, pois seria difícil, séculos atrás, tendo até alguns alquimistas sido perseguidos pela Igreja, aceitar sem mais que um santo e filósofo desta envergadura pudesse ter tido interesse em alguma vez estudar e ainda menos escrever sobre matérias "obscuras".Mas aí estão, a Aurora... que terá inspirado Jacob Boehme, o célebre teósofo alemão e estes tratados, cuja indicação deixo, em francês e castelhano, para quem deseje ler.
Acrescento, por ter sido tão importante na minha formação intelectual a obra de Etienne Perrot, L'AURORE OCCIDENTALE (ed. La Fontaine de Pierre, 1982) que abre com a tradução integral do texto de Tomás de Aquino, seguido da série de seminários que deu em Paris, nos anos 60 e 70, e a que tive a honra de poder assistir (não a todos, mas à maior parte).
Alquimista Junguiano, com ele se pode aprender, nesta como noutras obras, o sentido "amplificado" das matérias alquímicas e simbólicas, bem como o sentido arquetípico dos sonhos recorrentes.
Boa sugestão seria traduzir para a nossa língua os seus títulos mais destacados.
Friday, June 13, 2014
Luís Tinoco O Silêncio e as Pedras Oiço primeiro o silêncio a gravidade
uma harmonia que voa
um sopro que se levanta
e nos magoa
já anunciando as pedras
que são muitas,
(são de mágoa)
as pedras pelo caminho
com o seu grito suspenso
com o seu nome gravado
E de repente ocorrem-me
os versos de Celan,
o dos silêncios de cinza
a cinza que não se guarda
como pedras que se atiram
como pedras afogadas
no Sena de negras águas
Mas este silêncio é outro:
é de harmonia dourada
criatura que respira
faz-se ouvir numa palavra
que é só nossa
e nos aguarda
Monday, May 19, 2014
Iniciações
O PORTÃO
Esse portão que se abre
abre para o infinito:
não se pode ir de pulseira
nem de colar ou anel
Entra-se nú e descalço
de súbito
desprevenido
O PUNHAL
O punhal que rasga o peito
é uma adaga preciosa:
traz na lâmina, gravado,
um nome ainda imperfeito
um nome feito de sangue
um sangue contaminado
um nome que ainda espera
poder vir a ser chamado...
Monday, March 17, 2014
A Chave, da imagem ao arquétipo. (relendo Joana Emídio Marques, Ritornelos)
Vem esta ideia a propósito de um livro de poemas, Ritornelos, de Joana Emídio Marques, publicado pela editora Abysmo neste ano de 2014. Perguntam-me às vezes: um livro é bom porquê? Depende de cada um, a opinião?É bom porque se vende muito, porque se fala dele na crítica?
Para mim um bom livro é aquele que abrimos, ainda que ao acaso, e nos prende por determinada frase lapidar, ideia, imagem, e nos desperta o desejo de ler mais. Ler mais e ler melhor, ou seja, ler o livro do princípio ao fim.
No caso de um livro de poemas algo mais me atrai, a dimensão do seu imaginário, seja ele mais contido (como na poesia oriental) deixando um espaço de emoção que será só nosso, ou também nosso, seja ele um imaginário mais discursivo e intencionalmente aberto, para que o leitor seja mais conduzido do que condutor, ao longo da leitura.
Ainda melhor será para mim o livro que depois de lido me faz voltar a ler o que já li, parando neste ou naquele verso que por qualquer razão me intriga mais.
Dou como exemplo (era o que faria, num dos meus seminários de outrora, de escrita criativa) o poema seguinte, em que uma determinada imagem, a das "chaves" se amplia à dimensão de arquétipo ( a saber, de imagem universal, transversal ao tempo e aos tempos):
38. Mostra as mãos-chave da porta do abismo aí, onde o corpo encontra a suspensão da noite imortal e a carne desfaz-se aro e o sangue desfaz-se aço .... Dá-me essas mãos-chave essas mãos-porta essas mãos-abismo! Dá-me essas mãos para que eu possa entrar-te. (p.83)
Este poema está colocado entre dois outros, um de que a luz é elemento essencial de revelação e um outro em que o elemento é o fogo, sendo que nenhum deles permite que o poema se abra a um sentido "que acolha". Há o desejo, expresso, mas falta a chave, a mão condutora de que se fala no poema 38.
São muitas as significações simbólicas da Chave, ou das Chaves: São Pedro tem nas mãos as Chaves do Reino dos Céus, na tradição cristã, outros santos ou profetas têm igualmente a Chave (o Segredo) da beatitude eterna, em certos rituais de iniciação a Chave é a do Templo, nos contos infantis a Chave é do tesouro que se busca, uma Chave é também dada a Alice para abrir a porta que a levará ao País das Maravilhas, enfim, o poder da Chave é duplo, de abrir ou de fechar e daí a força de que se reveste este símbolo: liga ou desliga, actuando sobre as energias humanas e /ou divinas, ou, usando uma linguagem mais próxima da busca de realização de um Eu sempre em transformação, actualiza, na nossa psique consciente, as pulsões de um inconsciente que carece de ser reconhecido , entendido e aceite como existindo em si mesmo, por si mesmo, para si mesmo. No escudo papal podemos ver duas chaves, uma de ouro, outra de prata, o que do ponto de vista alquímico significa o acesso às fases últimas da Obra de Perfeição, sendo que prata e ouro são os metais que, a partir do chumbo da matéria negra, só os Iluminados conseguem obter. Basílio Valentino, célebre alquimista medieval, monge de Erfurt, tem um tratado que se intitula precisamente As Doze Chaves da Filosofia.
O seu "Paradigma da Grande Obra" tem como legenda, inscrita num círculo, "Visita o Interior da Terra e Rectificando Descobres".
Rectificar é aqui Sublimar, como no solve et coagula alquímico dos sábios: dissolve e fixa; isto é, dissolvendo na água das emoções as energias físicas mais negras, fixa-as, coagulando, para que ao tornarem-se visíveis, apreensíveis também pela Razão, fortaleçam o Eu ( o Em-Si) e a Consciência mudada, sublimada, tornada universal.
As mãos-chave de que se fala no poema, pedindo que se mostrem, que se deixem ver, são mãos excessivamente carnais: do corpo, da carne, do sangue; as imagens fortes são da noite, do abismo, e do apelo a um "tempo suspenso" em que os opostos "horror" e "harmonia" se reconciliem.
É este apelo à intemporalidade que afinal nos dá a Chave da leitura simbólica do poema.
Suspendido o tempo, segue-se a "suspensão da matéria" que é a existência limitada. Abrem-se, com ambas as mãos, os portões desejados. A partir daí, o infinito.
Thursday, February 13, 2014
La Dame à La Licorne Para A Teresa Horta e sua bela Dama
Quando visitei o museu de Cluny, em Paris, com a bela colecção das tapeçarias da Dama e o Unicórnio, sempre me intrigou a sexta, A Mon Seul Désir, que ora traduzo por "ao meu único desejo" ora por "só ao meu desejo".
Ao meu único desejo: e qual é ele?
Satisfeitos os cinco sentidos, do gosto, do tacto, do olfacto, da visão só talvez um desejo imaterial a que se faça apelo poderá ser esse que falta.
Só ao meu desejo: seduzido o unicórnio, que simboliza a pureza que se conservou ou a que se aspira, esse é então o desejo, o úinco e assim é celebrado, nesse lema que é de brasão, tanto como de coração.
Há algo de oriental, nestas tapeçarias: uma tenda aberta num deserto ou num oásis, num jardim de alma, e cá dora, exposta mas com reserva natural, a Dama com a sua aia.
Rodeiam-na alguns animais também eles emblemáticos, o cão, companheiro fiel dos alquimistas, em tantas gravuras conhecidas; o macaco, figuração de Hermes, o deus Thoth dos egípcios (mítico pai da alquimia), para não falar do leão e do unicórnio, os animais que ladeiam a Dama, como que em protecção.
É na sexta tapeçaria que ela tem diante de si um cofre, que a aia segura, e de mão estendida parece estar a guardar a jóia que usou nas outras; ou estará antes a retirar alguma mais bela, diferente?
Não poderemos saber.
Mas a legenda inscrita ao alto da tenda está ali bem à vista para que seja lida e entendidada. De que modo? Aconselhamento? Aceitação? Pura referência de identificação, como num Brasão de Armas?
A Dama que ali se encontra, em tenda tão ornamentada, não poderá simbolizar a Pedra Filosofal, a perfeição da Pedra?
Teríamos então de permanecer na língua original, sem traduzir, e ver o leão como emblema masculino, solar - que assim é na simbólica alquímica- e na licorna, mantendo o feminino do francês, la licorne, o emblema lunar e feminino, ambos compondo então o par primordial da Obra, em Conjunção.
A narrativa expressa nas peças seria então o caminho do material (os sentidos) para o espiritual (a pomba que voa sobre a tenda) e esse seria o desejo, o único, o perfeito.
Carl Gustav Jung, em Psicologia e Alquimia (Psychologie und Alachemie, 1952, " Das Einhornmotiv als Paradigma, pp.585-634) estudou com cuidado as origens do mito, ou da lenda, da Licorna, que terá chegado ao ocidente por via da Índia, ou do Egipto antigo em que se encontram referências a esses animais estranhos, munidos de um único chifre a que se atribuíam poderes mágicos, de cura ou de veneno mortal, conforme os casos.
Aponta também a licorna, ou se se preferir o unicórnio, como um dos motivos fulcrais da produção do imaginário alquímico, transitando desde os gregos, como Zosimo, no século III da nossa era, até aos adeptos que na Idade-Média já o cristianizam como emblema de pureza, nos vários tratados conhecidos.
Para melhor se acompanhar o estudo de Jung temos de regressar ao significado do mercúrio simbólico, no processo de elaboração da Obra que conduzirá à Pedra Filosofal - emblema da absoluta perfeição, e também ela, posteriormente, identificada ora a Cristo ora à Virgem Maria.
Mercúrio, neste contexto, é o elemento da mutação, da metamorfose, que surge durante o trabalho sobre os outros princípios, que são o enxofre e o sal. Assim é desde a tradição gnóstico-pagã e cristã já referida e são estas as qualidades de que se reveste a licorna, descrita como animal de fábula, podendo surgir como cavalo, burro, peixe, dragão, escaravelho, etc. (Jung, p.587). Essa capacidade de mutação é o que distingue o unicórnio, e deste modo já o veremos, nas Bodas Químicas de Christian Rosencreutz, 1459, narradas por J.V.Andreae.
Sabe-se que o autor verdadeiro é de facto Valentin Andreae, teósofo alemão do século XVII, e é deste século, de 1616, e não do século XV que é datada a obra.
Para todos os efeitos o que se nota é que é conhecio na tradição o motivo emblemático da licorna ou do unicórnio, como se queira chamar.
Pessoalmente, para os efeitos das considerações que faço, e também para o caso do livro de Teresa Horta, que irei enquadrar adiante, prefiro o feminino, como já escrevi no post anterior ( em literatura e alquimia).
Nas Bodas Químicas surge uma licorna, branca como a neve, que faz uma reverência perante um leão. Segundo Jung, "licorna e leão são ambos símbolos do mercúrio". Contudo, mais adiante na narrativa, a licorna transforma-se em "pomba branca", outra figuração do mercúrio, volátil, devido ao seu vôo. que também permite que se identifique ao Espírito Santo, nas tradição cristã.
O mercúiro volátil é comparado, em alguns tratados, como por exemplo o de Lambsprinck, a pelo menos uma dezena de animais, ilustrando a obra com essas gravuras belíssimas ( Lambsprinck, La Pierre Philosophale, ed. bilingue, latim -francês, Archè Milano, 1971). Nas antologias, ou recolhas, como o Theatrum Chemicum, de 1602, a natureza mutável de mercúrio é apontada, junto com a do leão, a águia e o dragão, como submetida ao ouro superior.
São muitos os exemplos que se poderiam buscar.
Importante é o sinal dado: mudança e submissão a uma ordem perfeita, seja natural seja divina.
No tratado apócrifo atribuído a São Tomás de Aquino, citado por Jung (p.590), o Tractatus qui dicitur Thomae Aquinatis de Alchimia (ms. de 1520) vemos então a licorna a ser amansada, que é como quem diz, recebida por uma virgem vestida de negro.
Poder-se-ia jogar com os opostos negro e branco, a nigredo e a albedo, no decurso da Obra, mas basta que se tenha em mente que estamos perante uma transformação, que tocará tanto a quem a permite, ou a concede, ( a Dama) como a quem a sofre, ou precipita, aceitando (a licorna).
Da cristianização do motivo os exemplos são tantos que não se exige continuar.
Jung percorre o resto da memória do mundo, com os textos antigos dos hindús, dos chineses, dos judeus, dos persas, dos primitivos cristãos em todos apontando que a energia animal está bem presente, e propicia o nascimento de deuses e heróis - que operam as mudanças, como em mágicos ritos de passagem, em cada memória, cada civilização nascente.
Mas o que eu suponho sentir, nas tapeçarias da Dame à la Licorne é algo de mais antigo (dir-se-á, é próprio das imagens arquetípicas, guardadas no inconsciente), a saber que há ali marcas oriundas de um oriente longínquo, talvez da alma, sim mas talvez igualmente de um imaginário que na Idade-Média circulava por força das guerras contra o Islão, dos tesouros do Templo, da sabedoria que os Cavaleiros Templários traziam consigo de Jerusalém, a cidade perfeita.
Na haveria ali, na figura tranquila de uma mulher na sua tenda, sentada com a sua aia, algo do eco profundo dos Cânticos de Salomão à Amada perfeita, a Sulamith, uma alusão a novo paradigma, o da reconciliação de opostos, Leão e Licorna, ambos triunfantes, porque submetidos a uma Ordem maior, erguendo bem alto os seus belos estandartes? E sendo assim, tanto faz, para a nossa relação com este mito, que este mercúrio alquímico mutável seja licorna ou unicórnio, pois que em ambos os casos o que se figura ali é uma das nossas energias (pulsões) do inconsciente.
Deixo só a pergunta.
Esta tapeçarias ocuparam o pensamento de uma grande poeta, Teresa Horta, que em finais de 2013 publicou os seus belos poemas, com um profundo sentido do mistério que as rodeava.
Teresa intitula a sua obra A Dama e o Unicórnio, optando pelo lado masculino da figura, e fazendo da Dama o centro fulcral da sua meditação.
E como poeta que é, e numa relação intuitiva com todo o potencial simbólico que o unicórnio, como se viu, transporta consigo, Teresa fecha o seu ciclo, tão misterioso quase como o das tapeçarias, com uma interrogação, que as interpela, mas nos interpela, sobretudo a nós todos:
"O que faço da minha eternidade"? pergunta abrindo nova estrofe, uma e outra vez, procurando resposta, sempre incompleta (como a vida) até ao ponto final. Porque tudo é mudança, mercúrio está ali, sob uma forma que podia ser outra, mas não, é mesmo aquela, e é aquela que, ao escolher-nos, nos obriga também a escolher ( a dar resposta...).
O que faço da minha eternidade? Pergunta de novo a si mesma. Enquanto impassível nos fita, imobilizada na trama armadilhada das tapeçarias com aquele travo mudo, com aquele brado surdo, com aquele olhar sem fundo Numa fala sem mundo
Nós somos aquele espelho que ela estende à licorna, o nosso olhar é cego, mas na nossa mudez (e na nossa nudez, já despidos do mundo) iremos depois mais longe, iremos depois mais fundo - numa fala sem mundo - quando, como se diz no célebre Mutus Liber nos forem dados "olhos para partir".
Wednesday, January 29, 2014
Lu Tsou Le Secret de la Fleur d'Or
tradução francesa de Liou Tse Houa
De um amigo a quem perguntei se conhecia esta obra recebi como resposta que tinha lido, mas sem perceber nada.
Nem tudo é para perceber, logo à primeira, nas obras herméticas, ainda menos chinesas.
Na nossa cultura ocidental temos algumas flores igualmente misteriosas e inacessíveis: penso na Flôr Azul, de Novalis, obra que ele até deixou por acabar!
Essas flores misteriosas que simbolizam a perfeição inalcansável, seduzem, mas não se deixam colher.
O que fica então que nos leve a ler e a reler?
Os passos do caminho...
Não é por acaso que neste mesmo volume o tradutor acrescenta outro tratado: o Livre de la Conscience et de la Vie, o livro da Consciência e da Vida.
Porque em ambos é da consciência e da vida que se trata. A flôr da perfeição é um horizonte, não chega a ser real. Mas real é a vida que vivemos, e acima de tudo o modo, a consciência com que a vivemos.
Consciência da Vida, a nossa e a da pulsação do universo em geral, do mundo que nos rodeia, e em que tudo está "ligado" é uma forma de sabedoria.
A Rosa, seja dos Rosa-Cruz, dos alquimistas antigos (como Basile Valentin) ou dos poetas - lembremos a rosa de Rilke, ou a de Eugénio de Andrade, são sempre mais do que aparentam.
O mesmo se dá aqui, neste tratado chinês.
Foi traduzido para alemão por Richard Wilhelm, em 1929, e desde aí lido e estudado pelos curiosos destas matérias um pouco por todo o mundo.
A busca da flôr de ouro, como a da flôr azul dos românticos, parece-se com a busca do Graal, outro emblema de iniciação que tem atravessado os séculos. Será a busca de um Todo que abarca o eu e o mundo, mas que exige a entrega total do eu a esse Todo que se ignora o que seja. Viagem que atemoriza? Sem dúvida, pois dela não sabemos se terá regresso, e ainda menos se será bem sucedida.
Ao abordar estas matérias, precisamo talvez de ter conhecido outras: o Bardo Todol, por exemplo, Livro Tibetano dos Mortos, - que alerta para eventuais perigos, projecções do nosso próprio imaginário irracional, povoado de génios e demónios aterradores, e que teremos de entender, para afastar. Aqui se fala, por fim, da Clara Luz à saída dos abismos da viagem, a Luz do Entendimento desejado, e que só no fim da vida é concedido ( ou em vida, só a alguns iluminados).
Esta Luz é descrita, no Livro dos Mortos, como "Clara Luz do Vazio", conceito que em Jacob Boehme, teósofo alemão do século XVII, por exemplo, é melhor definido com Abismo, o negro abismo de onde emana, com a energia do Verbo, toda a luz, em simultâneo com a matéria densa da criação. A Obra consistirá, para Boehme, em sublimar essa matéria densa, até que toda ela seja de novo luz...
O mesmo discurso encontramos nós nos alquimistas ocidentais, que chamam à sua Pedra Filosofal "flôr do sol", ou flôr de ouro"entre tantas outras designações igualmente místicas e simbólicas, que podemos encontrar no célebre Dictionnaire mytho-hermétique de Dom Pernety, de 1758.
Referi que há obras que deviam acompanhar a nossa leitura deste tratado de Lu Tsou. Uma delas é sem dúvida o I Ching, Livro das Mutações, que foi igualmente traduzido para alemão por Richard Wilhelm e que inspirou Carl Gustav Jung, que o estudou durante toda a sua vida, como nos conta na sua Aubiografia. Era o seu livro de cabeceira. E percebe-se, pois não se esgotam nunca as imagens e juizos, carregados de mistério e de sabedoria.
O segredo é aparentemente simples: saber adaptar-se a todas as transformações, em cada um dos momentos da vida. Lição que serve tanto para os Imperadores da antiga China, a quem o I Ching era dado como modelo, como para o homem normal, na sua vida.
Na transformação reside a eternidade: "a transformação é o imutável", e para o homem durar "é deixar passar" (Lu Tsou, p.18).
Em regra a lição surge logo de início:
"O que existe por si mesmo é chamado a Via. A Via não tem nome nem forma.É a essência única, o espírito original único.Não se pode ver nem a essencia nem a via. Estão contidas na luz do céu; não se pode ver a luz do céu; está contida no dois olhos" (p.45).
Quem conheça o taoísmo saberá que o nome do Tao é precisamente a Via, e que está é o Uno, aquilo que nada tem acima de si mesmo, e é por definição inatingível.
A flôr de ouro é a luz, essa mesma que não pode ser vista, pois está contida, como luz do céu, nos nossos olhos...
Assim, do céu à terra (dos nossos olhos) se entra no jogo dos opostos que são a chave de todos os enigmas e de toda a energia transformatória.
Para que não restem dúvidas, Lu Tsou confirma:"Toma-se a flôr de ouro como símbolo"(p46).
E a partir daqui é deste modo que a leitura deve ser prosseguida, num alargamento da cadeia do Ser, do homem ao mundo, do mundo ao céu e ao universo inteiro.
Tuesday, November 05, 2013
Pintar o Sete
Este seria o livro a ler, de Mestre Lima de Freitas sobre Almada Negreiros, poeta, pintor, dramaturgo, fundador com Fernando Pessoa e outros do Futurismo em Portugal.
Um 7 que no seu caso, de grande conhecedor, teria muito a ver com o quadrado mágico da Melancolia de Duerer, em que o n.34 é obtido em todas as somas que se façam dos números inscritos no seu interior.
O 34 remete para um 7, na sua soma, se a desejarmos simbólica e relacionada com o Axioma de Maria Profetiza, que Jung estudou nas suas obras relativas à alquimia e seus símbolos: " do Um nasce o dois, do dois nasce o três e do três nasce de novo o Um como quarto.
Este quarto elemento é o 4 da Totalidade, que o Um inicial em si continha.
Do mesmo modo, por analogia (simbólica) o 7 que resulta da soma do 3 e do 4 é figuração da Totalidade: três princípios e quatro elementos formam a estrutura base do que será o caminho da Obra oculta.
Nas civilizações antigas, como a Assíria, a Egípcia, a Maia, este número tem implicações que o ligam à simbólica e ao imaginário celestial: os 7 planetas que os sábios astrónomos podiam contemplar nos céus escuros, por exemplo. E os deuses que eles representavam.
Na tradição judeo-cristã, descobrimos logo no Génesis o 7 como número da perfeição, pois foi no sétimo dia que o Criador repousou, consagrando esse dia como dia de uma totalidade que podia ser admirada e venerada em especial.
Passo adiante o conhecimento geral dos 7 dias da semana, e a totalidade do que são as energias, os ramos das árvores de iniciação, as virtudes e categorias morais, etc.
Tudo se encontra num bom Dicionário dos Símbolos, como o das edições Robert Laffont, de que em geral me sirvo.
Na tradição grega o 7 está relacionado com o deus Apolo: as suas festas eram celebradas no sétimo dia do mês. E recordemos as sete cordas da lira, as sete portas de Tebas, etc.
Mas também na China, as festas populares tinham lugar a um sétimo dia: com os sete emblemas de Buda.
Na peregrinação a Meca, são sete as voltas a dar.
Esta presença do sete, tão generalizada, tem certamente a ver com a contemplação dos céus e os seus indecifráveis mistérios.
Como se nesse número se concentrasse a totalidade do espaço e do tempo (simbólico, religioso).
Sobre a magia da matemática não tenho competência para me pronunciar e não o farei, lembrando contudo que os antigos sacerdotes eram matemáticos, além de astrónomos, e já na nossa era igualmente alquimistas, como Zosimo de Alexandria (séc.III) e Maria Profetiza.
Diz-se que Hipócrates terá feito a seguinte afirmação:
"o número sete, pelas suas virtudes ocultas, sustenta no ser todas as coisas; dispensa a vida e o movimento, influenciando mesmo os seres celestiais".
A carga dinâmica deste número pode ser assustadora, como no Apocalipse de João: recordo apenas as sete cabeças, as 7 pragas, mas podemos ler no texto a sucessão de referências.
Para quem se interesse pelo budismo, encontramos no Livro Tibetano dos Mortos uma "intensificação" das energias do 7:
sete vezes sete = 49.
Este é o número do Bardo, o estado intermédio em que se penetra depois da morte, até renascer de novo ou entrar na redenção final. O 49 divide-se em 7 períodos transitórios, de sete dias cada, enquanto são feitas as rezas junto ao corpo do morto.
A simbólica do número permite ainda que se jogue com outros modelos: 70, 700, 7000,e por aí adiante.Mas só um especialista na Gematria nos poderia ajudar!
D.Francisco Manuel de Melo, no seu Tratado da Ciencia Cabala, expurgou a Gematria, proibida pela Inquisição. Contudo não deixa de ser muito interessante, para um estudioso dos mistérios, esta obra do século XVII.
Por mim gosto da meditação no Axioma de Maria: do Um ao Todo, um imenso caminho a percorrer...
Recebi hoje pelo correio um pequeno livro que me interessou logo pelo título.
De Richard Zimler, LOVE'S VOICE, 72 Kabbalistic haiku, de 2010 e julgo que sem tradução portuguesa, por enquanto.
No título, a junção da Kabbalah, da tradição judaica e mística medieval com os Haiku, da tradição japonesa igualmente antiga e marcando um imaginário literário e místico não menos importante, despertou-me a curiosidade: Zimler revelava-se já, sem que eu tivesse lido ainda o livro, um autor culto, um estudioso, como se vem a descobrir no prefácio que escreve, das religiões comparadas.
Cita duas fontes que são fundadoras para qualquer estudioso:
Gershom Scholem, Major Trends in Jewish Mysticism, e Mircea Eliade cujos vastos estudos na área da História das Religiões, Lendas, Mitos e Símbolos não podem ser ignorados.
Zimler, nascido em Nova-Yorque no seio de uma família judaica, ao radicar-se em Portugal dedicou-se ao estudo, que transformou em ficção regular, da nossa ancestralidade judaica, origens e destinos. O ÚLTIMO KABALISTA DE LISBOA foi o romance que o tornou conhecido, entre nós e no mundo.
Estes 72 exercícios de meditação subtil sobre a essência do amor e da vida, que encontrou talvez na leitura do ZOHAR, o livro do Esplendôr, ou quem sabe na mais prática e não menos subtil visão do TAOÍSMO original, são de leitura agradável e descomplicada na aparência, encerrando quem sabe a chave da sua escolha de Portugal para viver...Aqui pode ser um tranquilo anónimo, e ainda que saboreando o seu sucesso de escritor, viver no coração de um silêncio que aprendeu a amar:
Your soul will begin
to sense its depth when you stop
running from silence.
A tua alma começará
a sentir a sua profundidade
quando parares de fugir ao silêncio.
Assim começa o livro.
E assim acaba:
You will never solve
ev'ry mystery - God is
not a whodunit!
Nunca poderás resolver
todo e qualquer mistério -
Deus não é um qualquer!
Há pelo meio secretos acenos:
Dreaming of Moses
parting the Sea, I awake
in the Promised Land.
Sonhando com Moisés
dividindo o Mar, despertei
na Terra Prometida.
Ou por exemplo outro caso, de "diálogo" com a Bíblia, e a moral do Génesis:
Eve separated
from God but woke to her self:
Paradise exchanged
Eva separou-se de Deus
mas despertou para si mesma:
Troca de Paraíso.
Não vou retirar aos leitores o prazer de folhear, ler ou reler e descobrir as afinidades que possam ter com esta forma de pensar o pensamento. Eu encontrei muitas, comigo mesma, outrora e agora.
Por isso deixo aqui uma discreta homenagem. É um livro de conversa, não é um livro de conversão...e assim podemos voar um pouco com um Anjo de Rilke, apenas no seu pressentimento, pois vê-lo seria morrer de tanta e forte presença, podemos assistir à fusão deslumbrada do ouro de um alquimista, sonhar à beira de um rio de margens infinitas, ou como Jacob na sua escada descobrir no último degrau que é ele mesmo, o Homem, o oculto rosto de Deus.
Mitos Nacionais/Universais /Mitos ou lendas populares
O que é um mito: uma
narrativa fundadora, de dimensão simbólica, nacional ou universal.
Mitos nacionais (portugueses)
:
Dom Sebastião e os mitos do
Encoberto; Dona Inês de Castro,os mitos de amor eterno de Dom Pedro e Dona
Inês;as Cartas da Portuguesa, outro mito do amor eterno, de autoria francesa,
mas atribuídas a uma monja portuguesa do século XVIII ; ainda fazendo parte
deste corpus literário e mítico a
história de base celta, de que Richard Wagner fez uma obra-prima, de Tristão e
Isolda;
em torno destas figuras
históricas se desenvolveu uma teia de construções literárias, pictóricas,
dramatúrgicas, em Portugal e na Europa.
Relação do mito do Encoberto
com Dom Sebastião.
A doutrina do Sebastianismo
como doutrina messiânica nacional e nacionalista: ex. Padre António Vieira e
Fernando Pessoa.
Mitos universais do Ocidente:
Fausto (entre outros, como o de Orfeu, o de Prometeu, o do Andrógino, bebidos
na tradição popular, no caso de Fausto, na literatura grega clássica, nos
outros casos; ou mitos mais recentes como o de D.João, o”Burlador de Sevilha”
ou o de Carmen, como mulher fatal, na opera de Bizet).
Ver o mito de Fausto no
Renascimento, no Século das Luzes ( Goethe,séc.XVIII), no Romantismo (Berlioz)
e na Modernidade (Pessoa e Valéry ).
O Fausto mudo de Murnau, a
ópera de Gounod, a performance dos Fura dels Baus inspirada em Berlioz – tudo
interpretações diferentes de um memo mito fundador, o do desafio do homem que
vende a alma ao diabo, o seu percurso, os crimes e a transformação final, de
redenção.
Papel que desempenha, nas
várias “leituras” do mito, a dimensão simbólica do Eterno Feminino.
Comentar as “duas almas” de
Fausto, que ele define como irreconciliáveis, na primeira parte da tragédia.
O que se perde e oque fica destes e de outros mitos no
nosso tempo…
II
Há muitas outras matérias que
ocuparam o imaginário popular e literário ao longo do tempo:
Ex.
as lendas dos vampiros na
Europa central: Nosferatu, primeiro filme de Murnau (pioneiro do cinema ainda
mudo, expressionista;em seguida faria o Fausto);
Drácula, filme também da
mesma época, com o célebre Bela Lugosi, no início dos anos trinta;
o Golem, inspirado num
romance célebre de Gustav Meyrinck, autor austríaco estudioso de todas as doutrinas e práticas ocultistas
divulgadas ao tempo : como a Kabala judaica, que inspira o Golem, a filosofia
taoísta, o yoga, a alquimia, etc, - em cada um dos seus romances uma doutrina
que ele explica, embora reservando o seu mistério.
O gosto pela sombra (pelo
mistério que perturba e atrai) não se perde, e vemos na literatura e na
cinematografia moderna mais recente a recuperação dos temas dos vampiros, dos
lobisomens (de que em Portugal também há variantes nos contos populares de
tradição oral) e até a recuperação do gosto pela magia e por figuras da antiga
tradição celta – como na saga de Harry Potter, já explorada até à exaustão para
um público juvenil.
Thursday, January 24, 2013
De Jean Cocteau (1889-1963) descubro agora em dvd um filme feito por ele e com ele, Le Testament d'Orphée, de 1960.
Imaginário mítico e simbólico elevado ao mais alto grau, em cenário surrealista, de que um Buñuel não desdenharia, e por onde passam grandes nomes do teatro e cinema: Maria Casarès, Daniel Gélin, Jean Marais, Yul Brynner, outros.
Do ambiente intemporal onde se atravessam limiares de morte e vida, luz e sombra, à vida de café boémio ( como no Café de Flore, à época) ou ao acampamento de ciganos, com flamengo, às piadas íntimas: chamar Éluard ao seu jovem guia, seu alter ego, num dos diálogos
-quel est son nom?
-Éluard
-un sobriquet? (alcunha)
-plutôt un pseudonime...
ou ao aparecimento fugaz de Picasso entre o grupo de pessoas que dum balcão espreitam Cocteau morto, e até a um dos vestidos que reconheci (sou desse tempo..) como um dos que se usou, da Boutique Elle, da revista do mesmo nome, nos Champs Élysées e que B.B. tornou célebre!
Mistérios do passado mítico atravessados pelo alegre incoformismo do imaginário poético de um surrealista que se definiu eterno, como a poesia!
A bela cena dos espelhos, que por um lado reflectem demais (ils réfléchissent trop...), por outro desvendam o lado de lá, o que se esconde de nós e somos nós na sombra, merece reflexão, atravessamento, como a história de Alice do outro lado do espelho...
É do lado de lá que a verdadeira vida acontece, a que devolve o outro a si mesmo, por via da criação, para sempre.
Arnaldo Saraiva, a quem vai dedicado este post, deu a conhecer a obra de Carlos Drummond de Andrade numa época, anos 60, em que em Portugal só havia interesse pela literatura francesa e pouco mais. Por via de Paris a cultura chegava a Portugal, melhor dizendo, Lisboa, Porto, Coimbra - capitais universitárias. Aí se procuravam livros, ou chegavam livros e se lia.
Arnaldo conta como leu Drummond pela primeira vez, na tradução francesa, e eu posso acrescentar aqui um pormenor pessoal: o tradutor foi grande amigo nosso, além de apaixonado pelas letras e artes brasileiras.Seu nome: Michel Simon, que, para não o confundirem com o grande actor do mesmo nome apelidavam carinhosamente de Michel Simon-Brésil. Tinha um programa na rádio: Aquarelle Brésilienne e fora o grande tradutor de Manuel Bandeira, e de outros grandes daquele tempo.
Uma vez por ano viajava de barco para o Brasil: fazia escala em Lisboa, e aqui, na Yorkhaus, ficava para visitar o Museu de Arte Antiga: o seu quadro de paixão um Bosch que ainda hoje podemos ir contemplar, como ele fez durante anos, fielmente.
A nossa amizade datou de um encontro de acaso, num TEE em que ambos regressávamos de Milão; ficou sentado ao meu lado e espreitava o que eu ia escrevendo num caderno; a dada altura interrompeu-me, em português com sotaque: ah, esse poema é belo!
Desculpou-se pela indiscrição: de idade podia ser meu pai, e ficámos a conversar, ora em francês, que sempre falei bem, ora em português, o que lhe dava prazer; os textos iriam ser mais tarde publicados em Irreflexões, e ele falou-me dos seus amigos brasileiros e da tradução de Manuel Bandeira, que me enviou depois.
Quando eu ia a Paris falava com ele; levou-me na Rue Mabillon, num sábado, ao restaurante onde os brasileiros se encontravam, para comer a boa feijoada e tocar e cantar pela tarde fora com uma alegria que animava o exílio forçado de alguns.
E quando ele parava em Lisboa lá íamos admirar o nosso Bosch de sempre.
Não conheci Drummond pela tradução dele, eu nessa altura estava a ler Clarice Lispector. Mas vou procurar agora, pois será decerto tão fiel e inspirada quanto a de Bandeira, que tenho aqui ao meu lado!
Paremos então no poema da Pedra, que deu origem, como explicou Arnaldo Saraiva a tanta discussão, a tanto comentário, a tanto espanto também, por algo de tão simples e aparentemente corriqueiro vir a causar tanto "barulho" literário e literal.
Eis o poema:
Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)
No Meio do Caminho
No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.
Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra
Na realidade o que faz deste poema o grande desafio é a afirmação de que havia uma pedra no meio do caminho; uma afirmação simples e directa que grava uma imagem para sempre indelével, e que a repetição do verso ao longo do poema torna mais firme e intensa. Não mais sairá do nosso imaginário, pessoal e colectivo ( o poema fez caminho, na sociedade de então e ainda hoje, na nossa). O poema com a sua pedra.
Leio ou repito em voz alta (tão fácil de fixar) e não é pelo ritmo, pela repetição que o poema intriga, mais do que comove. Igual a um poema chinês, ou a um Haiku japonês, é a condensação da imagem, pedra e caminho, ou ainda o meio do caminho que tinha uma pedra, e aqui entra nova imagem, a que corta o caminho ao meio, quando devia estar (esperava-se) livre e desimpedido.
O meio do caminho: o meio da vida;
a pedra no caminho: o desgosto ou a contrariedade inesperada, que fez (ou não) impedir a continuação do caminho. Esta suspensão do destino do caminhante aumenta o mistério do que é dito: viu a pedra e seguiu adiante? tropeçou na pedra, caiu e levantou-se? Ou ficou demorando magoado no chão?
Tal como nos ditos orientais a resposta não é dada, tem de ser encontrada por cada um, precisamente no seu caminho de leitura....a pedra, para nós, é o próprio poema, a interpelar a nossa vida.
Aqui entra a imagem forte do inconsciente colectivo (diria Jung):
todos, ao longo da vida, e segundo Jung em especial "no meio" da vida (é banal falar da crise da meia-idade) tivemos, temos, teremos "uma pedra no caminho", uma crise que poderemos ou não ultrapassar.
Drummond já mais velho e sábio ( de "retinas fatigadas") evoca essa pedra que teve no caminho. Ultrapassou, pois escreve o poema, mas não esquece. Com as suas palavras condensadas em tão breves imagens abre o coração ao mundo, forçando o mundo a que faça como ele: revivendo o caminho, fixando a pedra que lá estava no meio, procurar entender o destino.
Pois é disso que trata a pedra, desde sempre (e poderia então falar da tradição alquímica...). Do entendimento do ser : o ser no espaço da vida, do seu caminho, mas mais ainda no tempo (e não vou citar Heidegger), daí que a imagem do meio adquira tanta importância.
Novalis (pseudónimo de Georg Philipp Friedrich Freiherr von Hardenberg) figura maior do Romantimo alemão, teve a sua obra editada primeiro em 2 vols. pelos amigos Ludwig Tieck e Friedrich Schlegel, em 1802.
As obras de Novalis, bem como as dos irmãos Schlegel, tiveram marcada influência em Franz Schubert.
Vemos que na Bela Moleira/ Die Schoene Muellerin ( 1823) se recupera um imaginário de cariz popular, nacionalista ou melhor tradicionalista, eivado de uma reflexão melancólica resultante da empatia profunda com a natureza,os seus ciclos, de que o Tempo e a Temporalidade são parte integrante e que o fluir da água do regato, na última canção (n.20, Des Baches Wiegenlied / Canção de Embalar do Regato) evoca e representa.
Esta canção funde os vários motives da temática romântica por excelência:
1.a contemplação da natureza e a elevação de alma que suscita
2.o desejo de um repouso que se aproxima do sono, depois do sonho que foi a Viagem (evocadora da busca da Flôr Azul, no célebre romance inacabado Heinrich von Ofterdingen e que são referidas na estrofe em que cita “ as pequenas flores azuis” pedindo que não olhem para ele)
3.apelo à noite, com a lua cheia a erguer-se no céu imenso, noite que. tal como o sono que pode ser antecipação da morte, dissolverá para sempre alegrias e desgostos.
Este Moleiro-Poeta é uma recuperação do Viandante de Goethe.
Quando na primeira canção Das Wandern/ Viajar (que eu gostaria mais de traduzir por algo como Vaguear, pois é mais de vaguear que se trata, caminhando solto na paisagem, de floresta, de ribeiro ou de mar, deixando corer o pensamento) se alude a esse ímpeto de correr mundo, já se adivinha, pela imagem escolhida da água cujo curso é imparável, da roda, que não cessa o seu rodar (como a roda da vida, que é a roda do Tempo) da pedra da mó, também ela redonda e girando cada vez mais depressa- já se adivinha, dizia que esta não sera uma viagem qualquer, mas um percurso que é decurso simbolizado da vida.
Pelo meio um atravessamento de amor, sem consequência a não ser a de despertar saudade, saudade do regresso a uma casa que é muito mais do que o lar que se deixou para trás, é morada de repouso, quem sabe se definitivo, uma paz de alma reconciliada que só a morte concede.
Os poemas de Wilhelm Mueller (1794 -1827), um dos grandes amigos do compositor, constituem um verdadeiro ciclo, em que o fio narrativo não se perde, ampliando a temática central da viagem pela vida e do horizonte da morte. Dos vinte e cinco textos da edição original do poeta (1821) Schubert escolhe 20, que organiza numa “introdução” e fecha com um “epílogo”, o que sublinha a dramaticidade lírica e musical da obra.
O tema fulcral é o da Viagem, como já se disse.
O Wandern alemão não significa o mesmo que Reise, mas seria difícil traduzir por vaguear, viajar ao acaso, pois o Moleiro não parte ao acaso. Caminha em direcção ao moínho onde estará a sua amada. Daí que se tenha escolhido o termo Viagem, e não o Vaguear, embora este ficasse melhor no caso do Viandante, que não temos traduzido por Viajante.
Mas deixemos a questão, respeitando o que tradicionalmente está aceite.
Na canção n.1 começa a descrição da caminhada do Moleiro, junto ao riacho, e aí se glorifica a água, elemento primordial, através do que a água simboliza se glorifica o movimento perpétuo, o caminhar ( a roda) da vida:
Das Wandern / Viajar
Viajar é a alegria do moleiro,
Viajar!
Só pode ser mau moleiro
Aquele a quem viajar não agrade,
Viajar!
Aprendemos com a água,
Com a água!
Que não pára dia e noite,
Pensando só na viagem,
A água.
O mesmo fazem as rodas,
As rodas!
Que nunca ficam quietas,
Não se cansam de rodar,
As rodas.
E até as mós,tão pesadas que elas são,
As mós!
Giram numa dança alegre,
E querem ir mais depressa,
As mós.
Oh viajar, viajar, minha alegria,
Oh viajar!
Meu senhor, minha senhora,
Deixai-me partir em paz,
Vou viajar.
Se o tema central é o da Viagem, o símbolo vital será a Água.
Mas é uma água complexa, que tanto corre para a vida como esconde já alguma pulsão sombria: é o que se adivinha na canção seguinte, n.2,
Wohin/ Para Onde:
Ouvi murmurar um regato,
Corria da fonte do rochedo
Em direcção ao vale
Fresco e maravilhado.
Não sei o que me aconteceu,
Nem quem me deu o conselho,
Também tive de o seguir,
Com o bordão de caminheiro
A descer e sempre em frente,
e sempre atrás do regato,
A correr com o seu murmúrio,
De uma alegre limpidez.
É este então o caminho?
Diz-me, regato, onde vou?
O teu murmúrio suave
Perturbou os meus sentidos.
Que digo do teu murmúrio?
Não pode ser murmurar
São Ondinas a cantar
Nas profundezas do Reno
Deixa cantar, companheiro,e
murmurando segue o teu caminho!
Rodam as rodas do moinho,
Em todos os regatos de água clara.
Repare-se como nesta alusão a uma água feliz já está contida, pela alusão às Ondinas do Reno, a pulsão da morte que um Heine descreverá como ninguém na sua Lorelei.
Outras imagens simbólicas poderão surgir, como a floresta, ou o bosque (que seria a Terra) ou o Céu (que seria o Ar) ou mesmo o Fogo (quando se arde de paixão ou de paixão se morre). Vemo-las também noutros poetas, que Schubert muito amou, como Goethe ou Heine em quem uma consciência alquímica da vida se torna muito patente.
Mas fiquemos nesta meditação do Wandern.
Impossível não evocar aqui o poema de Goethe que melhor reflecte este estado de espírito:
Canto Nocturno do Viandante / Wanderers Nachtlied (1776 )
Tu que és do céu,
E todo o o sofrimento e dôr acalmas,
Que ao duplamente infeliz
Duplamente consolas,
Ah, estou cansado de tanta agitação,
De que servem a dôr e o prazer? –
Doce paz,
Vem, ah vem desce ao meu coração!
E ainda este, que completa o anterior e lhe amplia o sentido da brevidade da vida ou do desejo de morrer:
Outro Igual /Ein Gleiches ( 1780 )
No alto dos montes
Reina a paz,
Nas árvores
Não se pressente
nem um sopro.
Os passarinhos calam-se no bosque.
Espera, que em breve
Também tu repousarás.
Com este mesmo estado de espírito, de abandono à noite do desgosto e da melancolia, e de ânsia pelo repouso eterno (da morte) é concluída a última canção, n. 20:
Des Baches Wiegenlied / Canção de Embalar do Regato
Descansa em paz, descansa em paz! Fecha os teus olhos!