Wednesday, August 24, 2011

O Sal da Vida

Hesitei em trazer para aqui este sonho-poema que transcreve com fidelidade o que se passou nesta chegada de alguém, um estranho, que fica à espera que alguém, eu, neste caso, lhe dirija a palavra perguntando se deseja alguma coisa.
E ele responde, directo e com simplicidade (os sonhos são assim, falam claro; a questão é depois dar sentido ao que nos deixam dito).
Desde que transcrevi o sonho-poema - é o relato de um sonho, mas não deixa de ser poema- que procuro entender a "lição".
Entendo em parte: é pedido sal, o sal da vida, o sal que nos três princípios alquímicos de enxofre, mercúrio e sal, serve de medianeiro transmutador. Sem ele nada acontece.
Mas há ali algo mais, e nisso tenho ficado a pensar, dias e dias a fio; continuo intrigada. O sal que fui buscar não estava limpo...tinha coisas lá dentro, pegajosas, que fui tirando...
Eis o poema, quem sabe alguém se reencontra nele ou me diz qualquer coisa.
Perdi há anos o meu alter-ego leitor, clarividente, eis-me cega neste momento para as ajudas que sempre julguei ter.

O SAL
Chega o Desconhecido
na sala aberta
fica de pé
encostado à parede

olha à volta
e aguarda

pergunto
deseja alguma coisa?
ele acena e responde:
sal

sal? repito eu
com algum espanto

sim

procuro a caixa grande
para tirar o sal
que lhe vou dar

o sal não estava branco
havia coisas lá dentro
escuras
pegajosas

remexi com as mãos
para limpar

dirão é bom sinal
o sal purifica
protege

mas eu hesito:
mesmo assim
estando sujo?

Numa leitura alquímica o sentido é aparentemente simples: purificar o negro, sublimar a matéria imperfeita; mas na vida...
Aqui deixo o enigma aos meus leitores. Quem sabe se me ajudam.

7 comments:

AL said...

- Envio, sinceramente, o que traduzi sobre a minha noite de sonhos, instantes antes de ler o seu poema, e a convido :

" Vivo um momento grave. Registro que tive coragem para ir aonde estive e testemunhar o que vi. Todas as minhas referências foram alteradas."

Espero que signifique algo para vc . Um forte abraço.

Roberta Ferraz said...

querida Yvette, lendo-te veio-me isto, sentindo que o sal é sonoro, é canto, é passe de garganta, é vento, e assim, é troca. grande abraço, roberta.




alvadio
sal
canoro

vestígio de vereda
curso d'água orlando areias

caminhantes dunas
percurso sonido
o infinito corsário
da voz ao desejo

sal
seguir, liames
liga de mercúrio
entre o mudo e o pleno
enlaço, rama de pinhais
uma mulher clara
tocheira do dia

sal, sinal
insígnia molhada
da boca
fogo devolvido
do alimento
ao mundo

Yvette Centeno said...

Querida Roberta,
Já tinha saudades.
Também aqui o s de sal...
abraço fiel

Raziel Megisto said...

"Não há geração sem corrupção" (...) Precisas meter a mão no sal: e neste veículo de transmutação incorrerá o mudança que transformará o negro na pedra branca... Tive alguns sonhos alquímicos recentemente, Meyrink me trouxe aqui... O dragão azul, as damas de prata, o ouro em mim: o casal perfeito com seu filho... Há algo que gostaria que lesse, um texto ainda não terminado...

c braz said...

a caixa branca é um símbolo uterino sublimado; as coisas pegajosas , desejo e humores demasiados humanos. bom sinal, a caixa é nietzschiana, contém vida. onde há vida há poesia: ela está também repleta de vogais.

c braz said...

correção: demasiado.

Yvette Centeno said...

Meyrinck:
em cada romance uma doutrina iniciática; devia ser mais traduzido e estudado.Algo de semelhante, na curiosidade pelas filosofias herméticas, a Fernando Pessoa: inquietações de alma, vidas divididas.