Monday, November 03, 2008

O Caracol Demoroso...



Numa gravura alquímica nada é posto ao acaso. Assim, embora o bestiário alquímico seja variado, o que vemos normalmente são animais emblemáticos pela côr, como o corvo, marcando a obra ao negro, ou a serpente, devoradora do corpo, ou enrolada na figuração do Uno - o Um e o Todo - ou ainda o leão luminoso, solar, ou a fénix da regeneração sublimada, o pavão, da cauda pavonis, a Obra multicolor antes de atingir o branco ou o vermelho, o dragão alado, com idêntico simbolismo, da materia negra, terreal, sublimada etc.
Águias, se voando, são a imagem mesma da sublimação que se deseja alcançar. Pousadas significam que o Caminho não está ainda percorrido. Se unidas uma à outra na copa da Árvore da Vida indicam que a consumação feliz se deu, e a Obra, o Caminho, estão cumpridos.
E então o que faz aqui, nesta gravura de Lambsprinck, o tímido caracol?
Uma das águias quer arrancar no seu vôo, a outra permanece no ninho, e a legenda reza:
" O Mercúrio sublimado repetidas vezes é por fim fixado para que não possa mais fugir e volatilizar-se pela força do fogo:a sublimação deve ser repetida até que se torne fixa.
O fixo e o volátil são assim dois elementos-chave, preparados para a Conjunção final, que deve ocorrer em determinadas circunstâncias, de espaço, mas sobretudo de tempo.
O processo é demorado, exige paciência. E a ilusão de uma Conjunção apressada não resultará num filius philosophorum, apenas na depressão da nigredo outra vez.

Fui roubar a Herberto Helder a expressão "demoroso"...eis o verso:
no sistema demoroso do bicho interompido na seda...
Também ele, alquimista do Verbo, não usa a expressão por acaso. Criou-a expressamente fundindo as palavras demorado e amoroso, sexualizando a imagem,a forma, o bicho escondido num casulo e que alguma vez haveria de voar  borboleta (a pulsão sublimada). O que no caso deste poema não pode acontecer: o casulo, com o bicho dentro, foi preparado para o fio do destino, para outra função, a da morte.
Na terra a lição é a da paciência, do vagar, do lento prazer que o caminhar pelas palavras dentro proporciona. 
E na terra sonham ambos dentro do seu casulo ou da sua humilde casca, tanto o poeta como o caracol alquimista. 

 

6 comments:

Francisco said...

Talvez o caracol designe a expressão do "fogo da roda" dos sábios...O agente e o paciente, o laboratorio e o oratorium alquimico, esse "ludus puerorum" (La Lumière sortant par soy-mesme des Ténèbres)? Não poderemos associar o "demoroso" caracol á aranha do mito de pallas-athenas, num sentido de paciência e fé na feitura de um "Opus" alquimico? Perdoe-me tantas dúvidas, porventura são demasiado ingénuas e descontextualizadas. Creio que em alquimia temos de pôr questões impossiveis,porque as possiveis só percorrem metade do caminho.
Grato pelos temas que aborda. fR

Yvette Centeno said...

Caro F.
Este caracol é um pouco o post-scriptum que completaria o meu texto anterior, da Faca e do Fogo, poema de Herberto Helder. Ganha sentido no poema que transcrevi e que, no caso dele (alquimista do avesso) vai conduzindo no seu lento caminho a uma última forma de revelação, aquela que só a morte concede.
O caracol ( mas também o bicho da seda, a lagarta de Alice no País das Maravilhas) é uma imagem da transformação. Símbolo lunar, acompanhando o ritmo das Estações,inclui, por esse facto, o tema do Eterno Retorno.
O adjectivo demoroso, aplicado assim, objectiva uma sexualidade visionada, evocativa de outros temas como o da fertilidade, que encontramos em antigos mitos fundadores.
Mas cada texto condiciona a leitura que dele podemos fazer.. .

Átila Siqueira. said...

Nossa, que postagem mais interessante. Gosto muito de imagens assim simbólicas. Fiquei encantado com o seu texto. Com a forma como descreveu a representação do caracol na figura, com sendo um elemento que denota paciência. (na verdade, quando eu bati o olho nele eu pensei isso).

Costuma-se usar para isso também a tartaruga. O efeito costuma ser o mesmo. E muito interessante como as imagens falam tão bem das coisas.

Adoro esse blog.

Me visite depois se puder.

atilasiqueira.blogspot.com

Um grande abraço,
Átila Siqueira.

Yvette Centeno said...

Caro Átila,
Tem razão, a tartaruga, nas gravuras alquímicas, tem o mesmo sentido de marca de paciência. O curioso é que sendo o Bestiário alquímico bastante vasto, até hoje só em Lambsprinck encontrei o caracol, só em Michael Maier o galo e a galinha acompanhando o par sol/lua, com a legenda:
"o sol precisa da lua como o galo precisa da galinha".
Estes foram buscar ao quotidiano humilde os seus exemplos, tornando mais clara a sua mensagem, embora tivessem usado com abundância as referencias mais nobres e tradicionais, a serpente, o dragão, o leão, águias, etc.
Boa leitura seria, se gosta destes assuntos, a obra de Stanislas Klossowski de Rola, The Golden Game, Alchemical Engravings of the Seventeenth Century..

Margarida said...

... "a sublimação deve ser repetida até que se torne fixa.

O fixo e o volátil são assim dois elementos-chave, preparados para a Conjunção final, que deve ocorrer em determinadas circunstâncias, de espaço, mas sobretudo de tempo.
(...) "

Oxalá haja a capacidade!

[hoje chegaram 'As Três Cidras do Amor']

Até sempre Yvette!

Miguel Conceição said...

Excelente texto e excelente blog.
Já há algum tempo que queria também eu deixar o meu incentivo.

Fiquei com muita vontade de pegar no livro de Herberto Helder que anda meio perdido nas minhas estantes.

Abraço.