Tuesday, February 03, 2009

Papageno III


Papageno, na seguna cena do Acto I, apresenta-se coberto de penas, como um pássaro e canta alegremente aquilo que é: um passarinheiro, uma caçador de pássaros, feliz com a sua condição humilde (ele nunca tinha tido o privilégio, muito menos a ideia aterradora de ver a Rainha da Noite, até se encontrar ali com o príncipe Tamino). Apenas sente a falta de uma jovem companheira a quem dedicar o seu amor.
Na aria da edição de 1791, Papageno tem direito a duas estrifes, de que vou apenas resumir o sentido:
"Sim, sou um passarinheiro, sempre contente, e conhecido de todos, jovens e velhos.Sei usar a minha rede, sei tocar a minha flauta, e assim apanho os pássaros que quero. Mas de verdade o meu desejo é prender uma jovem, e guardá-la agarrrada a mim".
Na edição de 1795 a Aria tem mais uma estrofe, como anota van den Berk, em que se acentua o desejo de ter alguém a quem amar; resumindo:
"Se todas as jovens do mundo fossem minhas eu escolheria uma para  beijar e abraçar, ela seria a minha mulher, eu o seu homem, ela dormiria a meu lado, comigo a embalá-la como se fosse uma criança".
Já se vê, neste acto, que haverá um par natural, por assim dizer, em complemento do par espiritual que formarão Tamino e Pamina.
Referi nos outros posts a mais que provável influência do texto de Johann Valentin Andreae, As Bodas Químcas de Christian Rosenkreutz, anno 1459.
Este pequeno tratado alquímico pertence a um conjunto mais conhecido como Bíblia dos Rosacruz e foi estudado por Rudolf Stein e por Bernard Gorceix, entre outros eruditos, que nos dão, simultâneamente, a versão francesa do texto.
No Segundo Dia da viagem a caminho do encontro misterioso que aguardava Christian, este, já na floresta, encantado com o canto dos pássaros que o rodeiam, entoa o seguinte hino:

Caro passarinho, alegra-te
glorificando o teu criador:
lança o trinado claro e puro
a Deus que está no alto,
preparando o alimento 
que a seu tempo será dado.
Contenta-te com isso. 
Não fiques aborrecido,
não leves a mal que Deus
te tenha criado pássaro.
Não perturbes a tua cabecinha,
só porque ele não te fez homem.
Silêncio, a sua escolha foi a mais ponderada.
Contenta-te com ela.
Pobre verme sobre a terra, que fazer?
...
Homem, aprende a contentar-te.
Não te lamentes por Deus
não te ter feito imperador,
talvez nessa altura desprezasses o seu nome.
O seu acto foi ponderado.
Os olhos divinos são mais penetrantes,
Deus penetra no teu coração,
a ele não o podes enganar.

No fundo, a lição aqui dada é a da simplicidade e aceitação do que se é na vida, sem mais.A cada um seu lugar, a cada um aquilo para que foi talhado, na esfera da cadeia universal.
Papageno pertence a esta linhagem dos pássaros, que no fundo são criaturas como os homens, criadas por Deus para o servirem.E a lição, é claro, é para que os homens, neste caso Christian, o herói, a entendam e aceitem.
Mais adiante, no Quinto Dia, (o número 5 já sublinha a quintaessência) surge então o hino ao amor, de que Mozart e Goethe farão eco, cada qual a seu modo, em diferentes momentos.
I
Nada na terra é melhor
do que o belo e nobre amor.
Para que nos torne iguais a Deus
e para que tudo fique claro
cantemos ao rei este hino,
que penetre  o mar inteiro,
nós perguntaremos e vós respondereis.
II
Quem nos deu a vida?
O amor.
Quem nos devolveu a graça?
O amor.
Qual é a nossa origem?
O amor.
Como cair em desgraça?
Sem amor.
III
Quem nos gerou?
O amor.
Por que nos alimentaram?
Por amor.
Que devemos aos nossos pais?
Amor.
Como explicar a sua paciência?
Por amor.
IV
Quem consegue que nos dominemos?
O amor.
Também é possível encontrar o amor?
Pelo amor.
Onde revela ele as suas boas obras?
No amor.
Quem pode ainda unir dois espíritos?
O amor.
V
Cantemos todos então
 em coro e bem alto
em homenagem ao amor,
que ele se digne crescer
nas nossas  Altezas reais,
o seu corpo está longe, a sua alma também.
VI
Se ainda estivermos vivos,
 Deus concederá, pela sua graça,
pelo amor e generosidade com que foram separados,
que os possamos reunir
através das chamas do amor.
VII
Esta dôr
em profunda alegria,
mesmo que façam falta milhares de gerações,
se transformará eternamente.

Bernard Gorceix observa que o cântico pode ser dividido em duas partes:
 de I a IV, descrição do amor primitivo e criador; de V a VII, a referência aos corpos dos reis separados ainda, aguardando o momento da conjunção final, a Boda Química, que dá o título à obra de V.Andreae.
Tratar-se-á, ao fim e ao cabo, como na ópera de Mozart, de reunir cada par com o seu oposto complementar, o que na alquimia significa unir corpo e alma, ou razão e coração, ou mais quimicamente fundir enxofre e mercúrio, pela mediação do sal.
Nas primeiras cenas da ópera poderíamos hesitar no sentido a atribuir a Papageno: pássaro simbólico ele mesmo,colorida cauda pavonis, materia necessitando de ser fixada, para sair do estado volátil em que se encontra, é óbvio que temos de o considerar como um dos "pares" da obra, e não apenas como mediador.. É verdade que ele medeia o encontro do príncipe com Pamina. Mas também ele, na sua esfera própria, de súbdito inferior, se se quiser, cumpre os rituais de iniciação e encontra a sua Papagena, celebrando então com ela o canto do amor e anunciando, com a sua juvenil alegria os muitos papagenos que poderão fazer juntos.
(Aqui um hermetista falaria da "multiplicação" da Pedra; mas não é preciso ir tão longe, basta ficar pela conjunção, objectivo supremo e alcançado tanto por Tamino/Pamina, como por Papageno/Papagena).
 
Já citei a obra de van den Berk;
 acrescento, para a relação da movimento Rosacruz com a Maçonaria, a obra de
 Paul Arnold,La Rose-Croix Et Ses Rapports Avec la Franc-Maçonnerie, Paris,1970
e para a Bíblia dos Rosa-Cruz, onde se encontrarão os textos fundadores, o estudo e tradução de
Bernard Gorceix, La Bible Des Rose-Croix,1970















No comments: