Tuesday, May 09, 2006

O Conto da Serpente Verde de Goethe


Num ano em que celebrando Mozart se falará sem dúvida da FLAUTA MÁGICA, ópera de iniciação maçónica composta sobre um libretto escrito ao mesmo tempo com grande leveza e grande profundidade,não posso deixar de recordar como Goethe se entusiasmou com essa obra, sendo ele mesmo maçon e autor inspirado. Primeiro quis fazer uma continuação da ópera. Mas o que é perfeito não pode ser retomado, é já completo em si mesmo. Depois, em 1795, escreve então o Conto da Serpente Verde, (Das Maerchen)que considero a verdadeira continuação, no puro plano do maravilhoso alquímico, do que fora a Flauta Mágica de Mozart.
Ronald Gray, um dos primeiros estudiosos do Conto,define-o como "conto de fadas, carregado de fantasias alegóricas..de natureza alquímica" ( in Ronald D.GRAY, GOETHE THE ALCHEMIST, 1952 ) .
Lemos no Conto uma polaridade inicial, um conflito de opostos,macho e fêmea, luz e trevas, e uma transmutação, a da serpente, em pedra preciosa e a seguir em PONTE, que permite a comunicação e a solução de todos os iniciais conflitos e dificuldades. Os ingredientes necessários estão presentes na obra: os 4 elementos, água, fogo, terra, ar; os 2 princípios, Sol(ouro), Lua(prata) e as várias fases de progressão: nigredo, albedo, rubedo, e pelo meio, como era usual, a cauda pavonis, pelo brilho das muitas pedras preciosas coloridas.
Através da serpente se cumprirá o"omnia in uno", o Todo em Um, dos filósofos herméticos.
Consagra-se no fim a união do Amor e da Sabedoria : dá-se o casamento real do príncipe e da princesa, o templo emerge das águas onde estava oculto, a serpente, aceitando a necessidade de se sacrificar a um interesse superior, o COLECTIVO, permite que finalmente se unam as duas margens do rio, para que todos possam, nas devidas alturas, deslocar-se ao templo e aí assistir, ou participar nas suas cerimónias.
PONTE e TEMPLO: caminho unificador e centro de revelação.
Termino com a exortação de DORNEUS : " transformai-vos de pedras mortas em pedras filosóficas vivas" ( citado por Jung em Psychologie und Alchemie ).
Muitos anos mais tarde, Goethe, que nunca desejou explicar muito bem o mistério do sagrado e do profano no seu Conto, haveria de escrever, numa carta de 1814: " As pessoas utilizam como símbolo da eternidade a serpente que se fecha num círculo. Eu, pelo contrário, gosto mais de a considerar como imagem de uma temporalidade feliz.."
Uma temporalidade feliz, não era já o segredo da alegria de um Papageno /Papagena, na ópera de Mozart ?
A SUBLIMAÇÃO, como observou Paulo Quintela àcerca do verso "morre e devém" de SELIGE SEHNSUCHT, não se dá fora do mundo que é o nosso, só é possível aceitando a própria natureza, que é limiar e limite, como a arte.

2 comments:

Ecociencia said...

Gostei muito do artigo

Ecociencia said...

Adorei o artigo!